Na mata
O verde invadiu
seus olhos míopes tão intensamente que os óculos de Ana pareciam não ter mais
razão de ser. A mata era muito mais poderosa do que muitos acreditavam ser com suas
árvores infinitas de galhos eretos cantando aos céus e raízes agarradas a terra
com paixão.
Ana pensava
compreender as árvores, e as sentia como quem sente a presença da família; como
um abraço acalentador. Na mata ela estava em casa, e por isso a viagem de carro
pela serra lhe parecia tão bom quanto chegar ao destino. Porque através da janela
do carro a visão era inacreditável: a Mata Atlântica oceânica.
Sentirei saudades
da mata quando não puder mais vê-la. Pensou a menina.
Pensou com a
certeza de quem partirá muito antes do que as árvores que a viam passar. Ana já
contara aos amigos seus desejos finais: quando morrer, não haverá choro nem
vela, como diz a canção; a menina queria uma festa antes do destino final – virar
humus e crescer Ipê Amarelo no meio da serra.
O mundo era
mesmo muito bonito, as pessoas é que estragavam um pouco a beleza da vida com
suas ideias mesquinhas de corações egoístas. Sendo assim, na próxima vida Ana
não queria ser gente, pois não lhe parecia necessário viver feito gente mais
uma vez. Ser árvore seria muitas vezes melhor. Sentiria suas raízes ligadas à
terra, passaria seus dias a dançar no ritmo dos ventos. E quando as gotas
grossas de chuva caíssem, abriria olhos e boca para sentir a graça da vida.
Quero ser árvore
no meio da mata. Dizia a menina
Ela adoraria ter
ninhos de pássaros em seus galhos. Vê-los crescer. Aprenderem a voar. Ouvi-los
cantar. E como seriam divertidas todas as vezes que os micos e outros macacos
passassem por seus galhos com suas acrobacias ágeis a gritar. Deus do céu, se
sentiria bela como nunca quando com a chegada da primavera suas flores
desabrochassem chamando a atenção de todos que por ela passassem.
Seria bom ver as
pessoas de olhos curiosos passarem pela estrada. Seria melhor ainda se a
família, os amigos e o amores viessem ao seu pé se sentar. Nesse momento leria
seus pensamentos e ensinaria aos seus meninos e meninas a ouvi-la para que se
sentissem abraçados. Seria bom ouvi-los de violão em punho a cantar. Seria inacreditável
ouvir ao João cantar, e então, sem muito pensar lembrar-se que na vida passada
havia sido gente feliz.