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sexta-feira, 8 de abril de 2022

Dona Lygia

 


A Sra. Lygia Fagundes Teles, com toda a sua oratória fluida e de excelência, teve seu ponto final numa história de mais de 100 anos. Nosso país, por onde anda em baixa o uso das faculdades mentais, perde uma mulher cheia de inteligência e lógica. Perdemos todos.

 

Um pouco de Lygia Fagundes Telles

 

Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito então é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. E sem despesas.

 

Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio? Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte.

 

Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas essa necessidade voraz que às vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim.

 

Quero te dizer que nós as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo, dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.

 

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor, mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas.

 

Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente. Imaginava uma cratera negra dentro da qual os pecadores mergulhavam sem socorro. Contudo, não conseguia visualizar os corpos lá no fundo e isso me apaziguava. E quem sabe um ou outro podia se salvar no último instante, agarrado a uma pedra, a um arbusto?... Bois e homens podiam ser salvos porque o milagre fazia parte da higiene mental. Bastava merecer esse milagre.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A Censura Governamental no Brasil (Uma Ode à ignorância)

 





Questões educacionais

MAFALDA É REPROVADA NO ENEM

De Laerte a Ferreira Gullar, de Chico Buarque a Madonna – o que diziam as questões que o governo Bolsonaro censurou em 2019 no Exame Nacional do Ensino Médio

 

Luigi Mazza in Revista Piauí

18 nov 2021_11h49

Mafalda, personagem de quadrinhos criada pelo cartunista argentino Quino, é um sucesso conhecido no mundo inteiro e traduzido em mais de 20 países. Em conversas com a mãe, com o pai e com os amigos de escola, a menina expressa seu inconformismo diante do mundo. Numa dessas tirinhas, publicada originalmente cinquenta anos atrás, Mafalda, prestes a entrar para o jardim de infância, nota que sua mãe está apreensiva com a nova fase na vida da filha. Por isso, Mafalda tenta tranquilizá-la: “Sabe, mamãe, eu quero ir para o jardim de infância e estudar bastante. Assim, mais tarde não vou ser uma mulher frustrada e medíocre como você!” A mãe fica desolada e Mafalda sai andando, feliz. “É tão bom confortar a mãe da gente!”


 


Famoso, esse diálogo entre Mafalda e sua mãe não agradou a uma comissão montada pelo governo Bolsonaro para avaliar as questões que seriam aplicadas na versão 2019 do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. “Gera polêmica desnecessária”, concluiu a comissão, ao justificar por que decidiu censurar a questão que trazia a personagem argentina.

 

Naquele ano, atendendo aos desejos do presidente Jair Bolsonaro, o então presidente do Inep, Marcus Vinícius Rodrigues, montou uma equipe para analisar ideologicamente as questões do exame. O grupo, composto por um procurador de Justiça, um diretor do Inep e um ex-aluno de Ricardo Vélez Rodríguez, então ministro da Educação, se reuniu ao longo de dez dias em março de 2019 e usou carimbos de “sim” e “não” para aprovar ou rejeitar questões. Ao final dos trabalhos, eles excluíram 66 questões da prova, sem consultar a equipe técnica do Inep, que já havia aprovado todos aqueles itens. Numa planilha de Excel, os censores apresentaram justificativas sucintas – e mal explicadas – para suas escolhas.

 

Como a comissão só usou três palavras, não fica claro o motivo de terem achado “polêmica” a tirinha de Mafalda. É possível deduzir que ficaram incomodados com uma interpretação feminista da história em quadrinhos. Também não se sabe mais detalhes da questão. Nenhuma das perguntas foi divulgada. Isso porque elas não foram deletadas do Banco Nacional de Itens; elas apenas não foram utilizadas na prova daquele ano. No futuro, essas questões poderão aparecer no Enem, e, por isso, precisam permanecer em sigilo.

 

A Piauí, no entanto, teve acesso a um documento até hoje não divulgado em que servidores do Inep pediram a reabilitação de parte das questões censuradas em 2019. Esse contraparecer, ainda que não revele todo o conteúdo das perguntas, permite saber os assuntos que incomodaram o governo, assim como as alegações usadas para retirá-los da prova. Os servidores responsáveis pelo Enem pediram que 38 das 66 questões fossem reabilitadas ou reconsideradas, e concordaram com a exclusão de 28 itens. O contraparecer até hoje não foi avaliado pela presidência do Inep. Com isso, as questões censuradas, embora ainda pertençam ao banco de itens, estão num limbo: não estão totalmente descartadas, mas também não podem ser utilizadas até que haja uma nova decisão.

 

Os registros de 2019 talvez ajudem a elucidar o que o presidente Jair Bolsonaro quis dizer, na última segunda-feira (15), quando afirmou que o Enem deste ano terá “a cara do governo”. A prova será aplicada nos próximos dois domingos, dias 21 e 28 de novembro, em meio a uma crise sem precedentes no Inep, que levou 37 servidores a entregarem seus cargos. Eles acusam o atual presidente do instituto, Danilo Dupas, de assédio moral, de desrespeito às decisões técnicas dos servidores e de interferência indevida no exame.

 

Assim como Mafalda, a cantora Madonna foi censurada no Enem de 2019. Uma questão da área de linguagens usava a letra da música Papa Don’t Preach para falar de gravidez na adolescência. Na música, Madonna interpreta uma adolescente que confessa para seu pai que está grávida. “Gera polêmica desnecessária”, disseram novamente os censores. Essa foi a justificativa mais usada de todas: serviu para excluir 28 questões da prova.

 

No contraparecer, os servidores responsáveis pelo Enem pediram que a questão fosse reabilitada. Explicaram que a música ajuda a explorar “as tensões associadas ao contexto” da gravidez adolescente, e que a questão utiliza os conhecimentos de língua estrangeira “como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas”. Argumentaram em vão, já que até hoje a questão continua barrada no banco de itens.

 

Outras seis questões foram censuradas por fazerem referência à ditadura militar. Uma delas citava o poema “Maio 1964”, escrito por Ferreira Gullar, que fala sobre a violência e as prisões políticas ocorridas nas semanas seguintes ao golpe. “Mas quantos amigos presos! / quantos em cárceres escuros / onde a tarde fede a urina e terror”, diz uma das estrofes. No gabarito desse item constava apenas que a poesia tratava do “contexto em que o Brasil se encontrava após o golpe militar”. A comissão de censura do Inep, ainda assim, decidiu excluir a questão do exame. A justificativa? “Descontextualização histórica do texto.”

 

A suposta “descontextualização histórica” também foi usada pelos censores para excluir uma pergunta que se baseava num poema de Paulo Leminski e tratava da ditadura. Uma outra questão, que citava uma letra de música escrita por Chico Buarque (não se sabe qual), foi censurada com a seguinte explicação: “Leitura direcionada da história / Sugere-se substituir ditadura por regime militar.” Os servidores pediram que a exclusão fosse revista.

 

Em alguns casos, os servidores – talvez sabendo que não poderiam comprar todas as brigas – aceitaram os argumentos dos censores. Na questão que falava de Ferreira Gullar, eles concordaram que o gabarito era inadequado porque, segundo eles, o poema revela o “sentimento” de Gullar, “mas não necessariamente esse texto revela o contexto brasileiro”. Também foi censurada uma questão sobre a prática de tortura pelos militares. Ao consentir com a exclusão da pergunta, os servidores comentaram: “Um instrumento que apresente itens que se refiram apenas a um lado da história se mostraria inadequado e polêmico.”

 

Não foram poucas as charges barradas na prova do Enem. Uma delas mostrava uma pessoa na igreja, se confessando para um padre. “Padre, eu pequei”, diz o personagem. O padre, sentado em frente ao computador, acessando o Facebook, responde: “Eu já sabia…” A religião não era o assunto central da questão. Na avaliação pedagógica feita pelos servidores, o item “provoca o estudante a analisar criticamente e lançar mão de outros recursos linguísticos”. Ainda assim, a comissão de censura excluiu a questão, dizendo que ela “fere o sentimento religioso”.


 


Charge censurada no Enem em 2019 — Crédito: Reprodução/Autor desconhecido

 

A mesma justificativa foi usada para censurar uma poesia de Manoel de Barros, usada em uma das questões. A partir da descrição feita pelos servidores, pode-se deduzir que se tratava do poema VII, de O Livro das Ignorãças, em que Barros faz alusão à Bíblia: “No descomeço era o verbo”, diz o primeiro verso do poema, numa referência ao Gênesis. Diante dessa heresia, os censores excluíram a questão e justificaram: “Fere sentimento religioso e a liberdade de crença.”

 

A comissão de censura do Inep usou a palavra liberdade para proteger sentimentos religiosos. Mas ignorou-a ao excluir da prova de ciências humanas uma charge da cartunista Laerte que, segundo o registro dos servidores, propunha uma “reflexão crítica sobre o reconhecimento à diversidade na sociedade contemporânea”. Ao censurar a charge, a comissão fez o seguinte comentário: “Leitura direcionada da história / Direcionamento do pensamento.” Ao excluir uma outra questão, dessa vez na prova de matemática, os censores do Inep foram além: disseram que o item “gera polêmica desnecessária em relação à ideia de casal”.

 

Não faltam exemplos exóticos. Uma outra questão, dessa vez na prova de ciências da natureza, falava sobre os cuidados com relação ao vírus HIV e afirmava que o uso de camisinha é “o meio de prevenção mais barato e eficaz” contra a Aids. “Gera polêmica desnecessária / Direcionamento do controle de saúde”, assinalou a comissão de censura do Inep. Na mesma toada, foi excluída uma questão que falava sobre a proliferação de doenças. O item explicava que a hanseníase tende a se espalhar com facilidade em presídios no Brasil, devido à superlotação e às condições precárias em que vivem os presos. “Gera polêmica desnecessária em relação ao sistema penal”, disse a comissão.

 

Nem mesmo uma questão sobre agricultura escapou à caneta dos censores. Ao se deparar com uma charge sobre a produção de milhos transgênicos, os bolsonaristas não titubearam: “Gera polêmica desnecessária em relação à produção no campo.” A questão foi excluída.

 

A comissão de censores foi fiel ao pensamento de Bolsonaro. Questões sobre escravidão, violência policial ou movimentos sociais foram parar na gaveta em 2019. Três questões que falavam de “conflitos sociais” foram excluídas do Enem com a alegação de que faziam “leitura direcionada da história” (essa justificativa foi usada para censurar 19 itens). Um item que falava sobre a abolição da escravatura e a “persistência das condições precárias dos pobres negros no Brasil” foi excluída da prova porque, segundo a comissão, houve uma “descontextualização histórica do texto”. Uma outra questão que falava sobre segurança pública mencionava, em uma das alternativas de resposta, a violência da polícia na Bahia. Por isso, também foi censurada. “Ofensivo à força policial baiana”, explicou o trio de censores.

 

Discutir feminismo foi proibido na prova. Uma questão de ciências humanas que falava sobre a Marcha das Vadias, mostrando uma foto de mulheres de sutiã durante uma manifestação do grupo, foi barrada por gerar “polêmica desnecessária”. Outra questão que debatia a maioridade penal foi excluída do exame. “Gera polêmica desnecessária a favor da não redução da maioridade penal”, escreveu a comissão de censura, alinhada com o pensamento do presidente. Naquele ano, Bolsonaro pressionava o Senado para aprovar um projeto que reduzisse a maioridade penal para crimes hediondos, uma velha bandeira de campanha.

 

Também houve cuidado com os assuntos de política externa. Uma questão da área de ciências humanas que falava sobre as relações entre o governo Donald Trump e Israel foi cortada do exame. A justificativa da comissão de censura foi a seguinte: “Leitura direcionada da história / Interferência desnecessária na soberania de outro país.” Já uma pergunta que falava sobre a Liga das Nações e a “implantação da sociedade judaica na Palestina do início do século XX” – tema relevante para uma prova de ciências humanas – foi excluída porque, segundo a comissão, fazia “leitura direcionada de geografia / história”.

 

Os censores fizeram questão de mostrar sua preocupação com a juventude. Excluíram da prova uma questão de ciências da natureza que versava sobre o canibalismo entre animais. “Induz o jovem a comportamento antissocial”, justificou a comissão de censura do Inep.

 

O governo também garantiu que não se falasse sobre armas de fogo no Enem. Na área de linguagens, um texto falava sobre uma tragédia ocorrida em 2013, na cidade de Burkesville, nos Estados Unidos: um menino de 5 anos disparou acidentalmente um fuzil que havia ganhado de presente e matou sua irmã mais nova dentro de casa. O objetivo do item, segundo os servidores, era discutir o risco existente “em ambientes domésticos em que há a possibilidade de acesso à arma por crianças”. Mas a comissão de censura do Inep não achou que o tema deveria ser apresentado aos 5,1 milhões de alunos que se inscreveram no Enem em 2019. A questão foi banida da prova sob a alegação quase onipresente nas justificativas dos censores: “polêmica desnecessária.”

 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Las cartas de amor


 


Las cartas de amor

Ellos se conocieron por casualidad, que es como se suelen encontrar los grandes amores, casi siempre por casualidad, por una llamada equivocada, por un encuentro fortuito. A ellos lo que les pasó fue que él había quedado en aquel café con una persona que no vino, y claro, la vio a ella sentada en la mesa del café, radiante, así que, harto de esperar no se cortó un pelo y dijo:

—“ya que he venido hasta aquí, no puedo desaprovechar esta ocasión”.

Se acercó a la mesa y dijo:

—“¿Me permite?”

—“Por supuesto”

Esto solo suele pasar en las historias que te cuentan otros, nunca en la vida real, por lo general cuando dices:

—“Me permites”, dicen

—“De qué”

A lo mejor ella estaba esperando a alguien que tampoco vino, quién sabe, yo qué sé, habrá que inventar otra historia en la que ella le dice “De qué”, en este caso ella lo invitó a él para que se sentase, y él se sentó. Y claro, no había de qué hablar,

—“¿y qué lees?”

Lo malo fue que él no había leído nada del escritor que ella estaba leyendo, mal empezamos, mal, muy mal, por ahí no.

—“Pues bonito día”

Pero enseguida empezaron a profundizar, porque ella dijo

—“Sí, la verdad es que hace un bonito día”

Y aunque no lo hiciera. Pero poco a poco él fue venciendo esa timidez que le caracteriza y fueron profundizando. Al principio él para llamar su atención contó una que otra mentira, que era escritor, luego reconoció que nunca le habían publicado nada, pero eso vino más tarde, cuando ya se conocían más, cuando pasaron del café a la habana con coca cola.

Por entonces ya estaban descubriendo que tenían más afinidades de las que pensaban al principio, y compartían gustos cinematográficos, y por eso él le dijo

—“Oye, y si vamos a ver esta, ¿has visto La vida es bella?” y ella

—“No”,

—“Oye quedamos el fin de semana”,

—“Vale”.

Y aquel fin de semana pues, yo no sé muy bien si para sorprenderla o no, pero el caso es que él rompía a llorar en cada escena en la que aparecía el chaval pequeño, esto a ella le enterneció, yo quiero pensar que era de verdad.

Resulta que coincidían en más gustos, y también en lo musical, y le dijo:

—“Oye, este fin de semana toca Ismael Serrano”,

—“Ismael qué?”,

—“Pero a ti te gustan los cantautores?”,

—“Los de verdad me gustan”.

Pero él le convenció a ella y fueron. Cuando él empezó a cantar aquella de Vértigo, pues se atrevió a cogerle la mano.

Y poco a poco se fueron inevitablemente enamorando, pero no por esto de Ismael Serrano, ni por el Vértigo, quizá más por aquello de llorar con La vida es bella.

Una mañana él se levanta y al abrir los ojos se da cuenta de que está perdidamente enamorado de ella, y quedaron entonces en aquel café en el que se conocieron por casualidad. Los momentos importantes suelen coincidir casi siempre en los mismos sitios, no estoy muy seguro de lo que acabo de decir, pero es una buena frase. Pero fue en aquel café en donde ella le dijo:

—“Sabes, creo que me tengo que ir durante algún tiempo”,

—“Yo te iba a decir casi lo contrario, que te quedaras conmigo para toda la vida”, y ella dijo –“No te preocupes porque yo estaré esperando el día que vuelva para retomar contigo este camino que emprendimos, además, cada quince días puntualmente te mandaré una carta en la que te contaré todo lo que hecho, todo lo que siento, todo lo mucho que te echo de menos, y todo lo poco que nos falta para vernos”,

El dijo que bueno, que vale

—“Pero que si no te vas casi mejor”.

Pero se fue.

Fue entonces cuando descubrió que aquello no tenía remedio y que estaba perdidamente enamorado, que no había ningún elixir que hiciera que la olvidase, que no era cierto aquella de que un clavo saca otro clavo, que a veces es cierto que los amores a primera vista existen, bueno, ¿es que acaso hay otros?.

A los quince días puntualmente llegó la carta de ella toda llena de besos y de caricias, de te echo de menos, él lloró, y esta vez era de verdad. Y guardaba las cartas con mucho cariño encima de la mesilla. Pasaron quince días, y otros quince, y otros quince, y otros quince, y las cartas se iban acumulando. Y su vida consistía en esperar a que llegara el decimoquinto día, abrir el buzón y encontrar la carta de amor en la que ella prometía volver, esperar esa carta en la que ella le diría que volvía pronto. Y pasaron años, muchos años, y ya las cartas casi no cabían en la casa, se compró una gran caja fuerte para guardar todas las cartas, porque eran su gran tesoro, porque vivía para leer las cartas que ella le había escrito, porque ella era lo que más quería, y así pasaron creo que diez años, quince, no me acuerdo.

Y un día ella, sin saber cómo ni por qué, dejó de escribir, y al quince día él se encontró el buzón vacío, y el alma partida en dos.

Ahora solo podía vivir del recuerdo, leyendo las cartas que ella le había escrito con tanto cariño, aquellas cartas eran su mayor tesoro.

Un día él salió de casa, porque tenía que salir, y unos ladrones entraron en su casa. Al ver allí la gran caja fuerte no se lo pensaron dos veces, porque pensaron que debían esconder algún gran tesoro, grandes riquezas, realmente no era. Y se llevaron la gran caja fuerte.

Imagínate la desolación de nuestro protagonista cuando llega a su casa y se da cuenta de que le han robado lo que él más quería, lo que le hacía sentirse vivo algunas tardes de domingo cuando no sonaba el jodido teléfono, cuando releía aquellas cartas y aquellas promesas quién sabe si falsas.

Suele pasar que los ladrones son buenas personas, y este era el caso. Pero imagínate la cara de los ladrones cuando abren la caja fuerte y se encuentran montones de cartas de amor, declaraciones imposibles. El jefe de los ladrones se enfadó un poquito, pues la caja pesaba, y llevarla a la guarida no era moco de pavo.

Nuestro hombre vagaba casi moribundo por las calles de su ciudad, con la esperanza de encontrar alguna carta, a alguien que le hablara de una gran caja fuerte llena de cartas, perdido sin saber ya qué hacer.

El jefe ladrón lo que dijo es que aquellas cartas lo que había que hacer era quemarlas o tirarlas al río, lo que fuera, pero que desaparecieran de inmediato. Pero el más joven de los ladrones era más bueno, y se le ocurrió una gran idea.

Un día nuestro hombre llegó a casa después de estar buscando toda una tarde, y al abrir el buzón ¿Adivina lo que se encontró?... Una carta. Los ladrones habían decidido mandarle las cartas tal y como ella se las había mandado, puntualmente cada quince días, por riguroso orden.

Ahora él resucitaba con la esperanza de revivir aquellos momentos en los que quizá un día leería la carta en la que ella diría:

—“Pronto estaré allí”.


por Eduardo Galeano

domingo, 30 de maio de 2021

“A morte dos girassóis”

 


“A morte dos girassóis”

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.

Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.

Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

De Caio F. Abreu

(Zero Hora, 18.3.1995)

 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O começo do fim?


Artigo da Revista Piauí - Edição 119

Artigo um pouco longo para a nossa moderna falta de foco, porém, muito bem escrito como tudo que respira nas páginas da Piauí.






SEM ALMOÇO NO FT


Martin Wolf alerta para os perigos da aliança entre a classe trabalhadora e a direita xenófoba

Por RAFAEL CARIELLO

O baixo crescimento crônico do mundo rico e o aumento da desigualdade podem ameaçar a democracia, diz Wolf; populismos de direita, como o de Trump, vieram para ficar.
No dia em que o Reino Unido decidiu se separar da União Europeia, Martin Wolf foi se deitar cedo. “Nunca fico acordado esperando o resultado de eleições”, disse o jornalista, há vinte anos responsável pela principal coluna de análise econômica e política do Financial Times. Wolf é um dos mais influentes comentaristas de economia do mundo, seguido com atenção por vencedores do prêmio Nobel, presidentes de bancos centrais, grandes investidores. O tipo de influência que ele exerce tem menos a ver com o sobe e desce das Bolsas, com o frisson cotidiano de fazer ou perder dinheiro, do que com o velho adágio de que o jornalismo é o “rascunho da história”. No seu caso, por orientar a compreensão que a elite global tem do mundo, a fórmula continua a valer. “Gosto de dormir bem”, explicou. “Fui para a cama sem saber o resultado do plebiscito.”

Levantou-se na manhã seguinte um pouco antes das seis – “minha mulher ainda estava dormindo” – e ligou o computador. Havia se comprometido a escrever uma coluna sobre a decisão tomada pelos eleitores britânicos, a ser publicada na versão online do jornal. Disse ter ficado insatisfeito, mas não completamente surpreso, ao saber que 52% dos seus conterrâneos tinham preferido, na véspera, deixar de fazer parte do bloco político e econômico europeu.

Ninguém tinha clareza, naquele momento, de como exatamente se daria o Brexit – neologismo para a saída do Reino Unido da UE, a União Europeia. Na verdade, ninguém tem, ainda. Para entrar em vigor, a decisão popular precisa ser chancelada pelo Parlamento, etapa que não tem data para acontecer. Antes e depois disso, compete ao Reino Unido e à UE negociarem um novo status para a relação econômica entre o país e os seus vizinhos, do outro lado do Canal da Mancha. Não se sabe que forma ela assumirá.

A campanha pelo Leave (pela saída do bloco) havia defendido a necessidade de o Reino Unido escapar do que parecia ser um intolerável emaranhado burocrático e regulatório imposto pelo “continente” aos cidadãos e às empresas do país. Os partidários do Brexit prometiam, além disso, restabelecer o controle do governo local sobre suas próprias fronteiras, limitando o número de imigrantes e trabalhadores europeus na Grã-Bretanha – o discurso, algumas vezes próximo da xenofobia, se transformaria em ocasionais atitudes racistas em ônibus e trens de metrô, espaços públicos e redes sociais, nos dias seguintes à vitória do Leave.

Do ponto de vista estritamente econômico, contudo, era difícil entender e justificar a opção vencedora. Em 2015, a Europa foi o destino de quase metade (44%) de todas as exportações britânicas. Não espanta, assim, que muitos defensores do Brexit queiram continuar a se beneficiar do mercado único europeu, mantendo a possibilidade de vender bens e serviços aos seus tradicionais parceiros comerciais sem a imposição de barreiras tarifárias. Mas para isso Bruxelas exige, em contrapartida, que qualquer cidadão europeu possa ser empregado no Reino Unido, sem restrições. Livre movimentação de trabalhadores em troca da liberdade de comércio.

É essa a regra que vale hoje – e que deve ser modificada, de alguma forma. Se não quiser fazer concessões num dos pontos cruciais para os partidários do Brexit – o limite à entrada de imigrantes –, o Reino Unido terá que abrir mão de parte do seu acesso privilegiado ao rico mercado europeu.
Wolf, um senhor de 70 anos e cabelos brancos, educado nos anos 60 em Oxford, é filho de imigrantes. Sua mãe fugiu da Holanda assim que o país foi invadido pelos nazistas, em 1940. O pai, um intelectual, escritor e dramaturgo, havia conseguido escapar da Áustria em 1937, um ano antes da chegada das tropas alemãs a Viena. Apesar da barriga proeminente e dos ombros estreitos, o colunista do Financial Times passa a impressão de alguém que ainda tem bastante vigor físico – algo que combina com o semblante severo, as sobrancelhas expressivas e uma disposição, aparentemente permanente, para o embate intelectual. Numa briga imaginária num pub londrino, com pints de cerveja quente voando para todo lado, é mais fácil concebê-lo tomando parte na confusão do que fugindo.

O jornalista é também um enfático defensor dos benefícios políticos e civilizatórios de uma maior integração econômica. Abertura ao comércio e maior mobilidade de trabalhadores – algum tipo de “ordem liberal internacional”, como ele escreveu em seu livro Por que a Globalização Funciona, de 2004 – foi algo que historicamente se mostrou eficaz para impulsionar o desempenho econômico dos países, tanto ricos quanto pobres – bem mais eficaz, de toda forma, do que economias fechadas, em geral acompanhadas de excesso de intervenção e planejamento estatal, ele diz.

De resto, afirma Wolf, garantir que as economias continuem a crescer – algo que tem se mostrado cada vez mais difícil, nos últimos anos – é importante para manter a democracia viva. “Quando as pessoas são privadas da esperança de uma vida melhor para elas próprias e seus filhos, sociedades baseadas em acordos mútuos correm o risco de perecer”, escreveu o jornalista uma década atrás, tomando como lição a crise dos anos 30 e a ascensão do fascismo.

O nacionalismo e a xenofobia de muitos eleitores britânicos, de um lado do Atlântico, e a candidatura de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, do outro, já são em parte sintomas de um baixo crescimento crônico, associado ao aumento da desigualdade, no mundo rico, segundo Wolf. Uma situação de mal-estar econômico e social que, no entanto, nada tem a ver com o aumento das trocas comerciais ou com os movimentos migratórios de trabalhadores poloneses e mexicanos, como parece crer parte do eleitorado nos dois países.

O problema, garante Wolf, é outro. Ao que tudo indica, o atual baixo crescimento das economias desenvolvidas, quando comparado às taxas alcançadas em boa parte do século XX, resulta de uma incapacidade de repetir, na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, os saltos tecnológicos e os ganhos de produtividade do passado. Se esse for de fato o diagnóstico – e não apenas uma demora na recuperação econômica depois da crise financeira de 2008 –, então a letargia deve continuar pelas próximas décadas, dando ainda mais força ao populismo de direita. Ideias como as de Donald Trump ou as dos nacionalistas xenófobos europeus muito provavelmente não são uma onda passageira, mas vieram para ficar, avalia o colunista do Financial Times.

“Esse é provavelmente o acontecimento mais desastroso na história britânica desde a Segunda Guerra Mundial”, Wolf escreveu sobre o Brexit na manhã do dia 24 de junho, assim que soube o resultado do plebiscito. “E o Reino Unido talvez não seja o último país a sofrer esse tipo de terremoto. Movimentos semelhantes de cidadãos raivosos têm acontecido em outras partes – em particular nos Estados Unidos e na França. O Reino Unido mostrou o caminho ao se jogar do precipício. Outros podem vir a nos seguir.”

Quatro dias depois de conhecido o resultado do plebiscito no Reino Unido, escrevi a Martin Wolf consultando-o sobre a possibilidade de fazer um perfil seu para a piauí. Depois de uma troca não muito longa de mensagens – as dele sempre telegráficas –, Wolf indicou que poderíamos conversar. Mas não parecia disposto a oferecer mais do que uma entrevista, uma única entrevista. Já era alguma coisa. Num dos últimos e-mails, sugeriu que nos encontrássemos numa quarta-feira, na semana seguinte, ao meio-dia.

O horário parecia promissor. Há pouco mais de duas décadas o Financial Times deu início à seção Lunch with the FT, em que semanalmente um de seus jornalistas entrevista alguma figura de destaque da vida pública – políticos, economistas, mas também artistas e intelectuais. O ambiente é um restaurante. Enquanto conversam, o repasto é servido. O formato, que combina o interesse do debate de ideias à estrutura narrativa construída por uma sucessão de pratos que parecem deliciosos, funciona impressionantemente bem. Comida fala à imaginação.

O próprio Wolf havia escrito, nos últimos anos, alguns ótimos “almoços com o FT”. Num bistrô em Nova York, em 2012, o economista Paul Krugman serviu-se de uma frugal salada niçoise, enquanto o jornalista inglês atacava uma terrine de foie gras. Com Ben Bernanke, ex-presidente do FED, o banco central americano, Wolf pedira um peixe-espada ao forno, acompanhado de batatas, couve-de-bruxelas e cebolas. Bernanke também quis peixe, mas grelhado, servido com purê de batatas.

Na mensagem seguinte, indiquei que talvez fosse uma boa ideia repetirmos a fórmula. Seria uma espécie de Lunch with the FT, só que dessa vez seria ele, Martin Wolf, o convidado. Perguntei por um restaurante em Londres. Em resposta, Wolf disse apenas que deveríamos nos encontrar meia hora mais tarde do que o horário sugerido originalmente: “Chegue às 12:30. Martin.”
Pontualmente às 12h30 do dia marcado, eu estava na recepção do Financial Times, na margem sul do rio Tâmisa, não muito distante do centro financeiro de Londres. Tinha atravessado a cidade de metrô, tomando o cuidado de levar uma certa quantidade de notas de 20 libras no bolso, para o caso de o cartão de crédito não passar – afinal, “não existe almoço grátis”.

Wolf foi me buscar nas catracas. Em vez de sair de uma vez, conduziu-me de volta a sua sala, na parte de trás do edifício, atravessando a redação a passos rápidos. Ao fundo do gabinete, perto da mesa onde ele trabalha, uma janela grande dava para o rio, que corria quase à altura da vista, com suas águas cor de barro. Como não bastassem as estantes numa das paredes, o chão estava coberto por pilhas e mais pilhas de livros. Era preciso achar o caminho entre eles. Na mesa de trabalho do jornalista havia um computador desktop de tela muito grande, dessas usadas por designers, e um laptop encaixado numa fresta da papelada. Três grandes pilhas de cartões de visita se equilibravam sobre a mesa. Havia livros também nas duas cadeiras para visitantes, e foi preciso que Wolf retirasse os volumes de uma delas, antes de me indicar o assento. “Tudo bem se fizermos a entrevista aqui, certo?”

“Claro”, respondi. Por um breve momento imaginei a carne branca e macia do peixe preparado no forno, bem temperada, que eu não comeria.

“Por que o voto no Leave venceu?”, perguntei.

Por causa de uma aliança inédita entre antigos opositores à União Europeia – gente que pertencia sobretudo à direita e sempre votou no Partido Conservador – e outros, novos opositores, eleitores que no passado costumavam apoiar o Partido Trabalhista, disse Wolf.

“Uma parte significativa da população britânica – algo entre um quarto e um terço – sempre foi contra a UE. Porque viam a União Europeia como uma violação da soberania nacional, viam-na como uma trama do continente para controlar o Reino Unido. Isso tem a ver com antiquíssimos estereótipos britânicos, séculos de estereótipos, remontando ao século XVI, quando os grandes inimigos eram a Espanha e a Igreja Católica. Em certo sentido, não mudou tanto. Não em relação à Igreja Católica: essa não ameaça mais.”

O jornalista estava sentado na sua cadeira de trabalho, com um dos pés apoiado sobre a lata de lixo. As suas curtas mensagens de e-mail, que me haviam feito temer um interlocutor lacônico, eram enganadoras. Wolf parecia gostar de falar.

Essa antiga fração do eleitorado, ele disse, sempre teve “uma certa ideia de soberania ligada a supostas ameaças vindas do continente e ao papel do Parlamento, uma instituição central para a identidade britânica”. “As grandes nações europeias têm jeitos diferentes de conceber suas próprias identidades nacionais. No Reino Unido, e em particular na Inglaterra, essa identidade está ligada à evolução das instituições políticas, que são bastante antigas e têm um enorme poder simbólico. Nada disso se aplica à França, à Alemanha ou à Itália, cujas instituições políticas são relativamente novas – e mudaram, têm mudado constantemente.”

Política, Parlamento e identidade nacional se confundem, para muitos eleitores britânicos. Assim, para muita gente que partilhava desse senso de identidade passou a ser particularmente preocupante, e ameaçador, o crescimento nos últimos trinta anos do poder político de Bruxelas, ele disse.

A esses eleitores se somaram, mais recentemente, os novos grupos antieuropeus, compostos sobretudo por gente da classe trabalhadora, segundo Wolf, muitos deles incomodados com a presença de imigrantes. Em 2004, dez novos países passaram a fazer parte da União Europeia, a maioria deles pertencente ao Leste Europeu. Imediatamente o Reino Unido se tornou um dos principais destinos para trabalhadores vindos de lá. Nos supermercados de Londres, passou a ser corriqueiro encontrar grandes seções de produtos poloneses, por exemplo. A imigração, de forma geral, aumentou ao longo da última década. Em 2001, 8,9% da população da Inglaterra e do País de Gales havia nascido fora do Reino Unido. Em 2011 esse grupo representava 13,4% da população dos dois países.

“O crescimento da imigração, especialmente da imigração de pessoas com menor capacitação profissional, combinada, desde 2003 ou 2004, com a relativa estagnação dos salários nesse grupo de pessoas que desempenham trabalhos menos sofisticados – algo que foi acompanhado, depois, pelo choque da crise financeira –, tornou uma parte grande da classe trabalhadora contrária à globalização, contrária à integração europeia como uma força econômica. Encontraram então uma causa comum com aquele primeiro grupo.”

A estagnação dos salários e a reação à imigração fizeram com que muitas pessoas que tradicionalmente votavam no Partido Trabalhista passassem a simpatizar com legendas de direita xenófobas, como o Ukip, o Partido pela Independência do Reino Unido, na sigla em inglês. “O Ukip acabou se tornando bastante popular entre essas pessoas. E se tornou uma ameaça ainda maior para o Partido Trabalhista do que para o Partido Conservador”, disse Martin Wolf. “Anti-imigrantes, contra mudanças, desiludidos com o presente – todo esse sentimento ultrapassa as antigas divisões entre esquerda e direita. O que se tem são pessoas que estão insatisfeitas e que historicamente eram conservadoras, de um lado, e pessoas que estão insatisfeitas que historicamente eram trabalhistas, de outro, todas reunidas. Essa mudança permitiu que o Brexit tivesse mais de 50% dos votos.”

Muita coisa mudou – além da proporção de estrangeiros na população britânica – desde que Martin Wolf escreveu, em 2004, seu livro Por que a Globalização Funciona. Naquela época, as principais forças ideológicas contra a intensificação dos fluxos de comércio e integração econômica global pertenciam à esquerda. O discurso podia muitas vezes parecer contraditório, opondo visões de “antiglobalistas” dos países ricos àquelas de anticapitalistas de nações pobres: do “sul”, vinham críticas de que o comércio global favorecia sobretudo as empresas multinacionais e os países mais ricos, e que por isso inevitavelmente a globalização levaria ao aumento das desigualdades econômicas. Do “norte”, o alerta de que o aumento da importação de produtos industriais vindos do Terceiro Mundo provocava a desindustrialização e a redução de salários na América do Norte e na Europa.

Era contra a esquerda, de toda forma, que Wolf argumentava então, ao afirmar que a abertura ao comércio havia beneficiado China e Índia, reduzindo a pobreza e melhorando as condições de vida de centenas de milhões de pessoas nesses dois gigantescos países asiáticos.

Pouco mais de uma década depois, vem sobretudo da direita o discurso mais eficaz contra a globalização. É verdade que a esquerda centrava suas críticas, nos anos 90 e 2000, sobretudo na livre circulação de capitais e mercadorias, enquanto a direita britânica tem como foco a mobilidade de trabalhadores. Nos Estados Unidos, contudo, Donald Trump alia um discurso xenófobo a ideias comerciais protecionistas, uma bandeira que pertencia – e de certo modo ainda pertence – à esquerda americana. A inflexão política é notável.

“Qual a razão dessa mudança?”, perguntei.

“É fascinante, e não consigo compreender completamente”, disse Wolf. “De fato, os movimentos intelectuais dominantes contra a globalização no final dos anos 90 e começo dos anos 2000 estavam na esquerda. Era um movimento de estudantes, havia o Le Monde Diplomatique, os líderes eram de modo geral marxistas, com muito apoio da América Latina. O Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, era visto como um movimento anticapitalista. Foi nesse ambiente, nesse contexto, que eu escrevi aquele livro, e tentei dar argumentos contra aquelas visões de mundo.”

O jornalista fez uma ponderação. “Essa linhagem não desapareceu completamente, ela ainda está por aí. Por exemplo, entre os eleitores de Bernie Sanders, nos Estados Unidos. Creio que o chavismo é uma forma radical desse tipo de corrente ideológica. Mas, para minha surpresa, o ataque desde a esquerda à globalização não parece mais tão forte, politicamente, quanto eu esperava que viesse a ser. Em grande medida porque toda a esquerda se enfraqueceu. A coisa mais surpreendente é que a crise financeira, uma crise gigantesca que deveria revitalizar a esquerda, tanto intelectual quanto moralmente, foi na verdade acompanhada por uma quase completa desintegração do projeto da esquerda.”

E qual a razão disso? Para Wolf, uma espécie de dinâmica interna da própria esquerda levou a esse enfraquecimento. Pouco a pouco, gestou-se uma crise na “coalizão de esquerda” que a fez perder o apoio de parte da sua tradicional base eleitoral – não à toa, o mesmo grupo de eleitores que acabou se vendo atraído pelo polo ideológico oposto. “A esquerda, assim como a direita, sempre foi uma coalizão de muitos interesses distintos, de muitas ideias distintas. A tentativa de Marx de dividir as coisas de maneira binária nunca funcionou muito bem, embora se aplicasse um pouco melhor à sua época.”

“De modo geral a esquerda tende a ser cosmopolita, aberta a mudanças sociais profundas, mesmo aquelas que são incômodas para muitas pessoas – todas as boas causas, todas as que valeram a pena. A esquerda esteve do lado do feminismo, dos direitos dos gays, das causas do Terceiro Mundo. Tudo isso, que pode ser visto como socialmente emancipador, teve como resultado a enorme alienação, a meu ver, das suas bases tradicionais nas classes trabalhadoras. Socialmente e culturalmente, essas mudanças terminaram por alienar muitas dessas pessoas – em particular os homens.”

Sem tirar o pé de cima da lata de lixo – ele praticamente não mudou de posição, durante quase duas horas de conversa –, Wolf foi adiante. “Aquele movimento antiglobalização dos anos 90 era sobretudo um movimento estudantil, composto por pessoas jovens e escolarizadas. Nunca foi um movimento da classe trabalhadora, que olha para essas pessoas sem ser capaz de se identificar completamente com elas. ‘Eles não são como nós.’ Assim, eles, a classe trabalhadora, têm estado ‘soltos’, do ponto de vista de filiação partidária e ideológica, nos últimos 25 anos. O que eles estavam procurando eram partidos que enfatizassem valores fundamentais para eles, para a classe trabalhadora. Quais são esses valores? Hierarquia. Ordem. Proteção contra mudanças sociais desestabilizadoras. Reafirmação de sua posição na sociedade – em particular para os homens. Nós subestimamos, creio, o grau de incômodo vivido pelos homens mais pobres, associado com mudanças sociais que afetam o seu orgulho próprio, seu senso de masculinidade. Não estou defendendo isso. Não estou dizendo que eles têm razão. Mas é o que eu vejo que está acontecendo. E muitas das mulheres desses homens da classe trabalhadora os acompanham nesses sentimentos.”

Assim, uma aliança que havia sido duradoura, entre causas progressistas – a defesa dos direitos das minorias – e os interesses dos grupos de trabalhadores mais pobres, entrou em crise. “Essa capacidade de sustentar grandes coalizões de esquerda entre as forças de cosmopolitismo progressista, de um lado, e a antiga classe trabalhadora, de outro – esse tem sido o lugar onde a esquerda tem se enfraquecido. O que eu acho que aconteceu, ao mesmo tempo, foi que homens da classe trabalhadora, procurando por redes de solidariedade, proteção contra mudanças sociais desestabilizadoras e proteção contra mudanças econômicas – que desde uma perspectiva limitada eles associam sobretudo com a liberalização do comércio –, encontraram políticos que, em essência, apoiavam uma combinação de etnonacionalismo, protecionismo econômico e conservadorismo social. Fascismo, de certa forma.”

O rio Tâmisa continuava a correr, mais rápido do que eu imaginava, para lá da janela atrás de Martin Wolf. Parecia que ia chover. “Creio que é por isso que nos Estados Unidos, no Reino Unido e também na Europa partidos etnonacionalistas da direita populista são mais atraentes para a classe trabalhadora do que costumavam ser – e as coalizões de esquerda se tornaram menos atraentes. Eu não esperava ver isso acontecer quando escrevi o livro, no início dos anos 2000, mas acho que ninguém esperava. O que estamos vendo agora é uma mudança muito preocupante – embora bastante compreensível.”

Já passava das 13h30. Será que Martin Wolf tinha comido um sanduíche, antes que eu chegasse? Um sanduíche iria bem, embora nem se compare a uma terrine de foie gras – ou mesmo a uma salada niçoise. Não era o caso de lamentar, claro, a disposição do entrevistado para conversar pelo tempo que fosse necessário. Ao contrário. Por diversas vezes o telefone celular vibrou sobre a mesa, sem que Wolf fizesse menção de consultá-lo ou mesmo de checar quem chamava.

Parecia absorvido pelas preocupações políticas. A chave para compreender o pessimismo de Wolf, como ele já deixara claro em textos para o Financial Times, estava na sua visão sobre as perspectivas econômicas dos países ricos. Ele havia tratado disso na véspera, numa coluna sobre o livro The Rise and Fall of American Growth [Ascensão e Queda do Crescimento Americano], do economista e historiador econômico Robert Gordon.

Na obra, Gordon defende que o padrão de rápido crescimento sustentado pela economia americana ao longo da maior parte do século XX chegou ao fim e não deve se repetir nas próximas décadas. Em seu comentário, Wolf lembrava que a economia americana, a mais inovadora do mundo – ao longo de todo o século XX na fronteira dos avanços tecnológicos globais –, apontava o caminho para o restante do mundo desenvolvido. Ganhos de produtividade – em particular na indústria – haviam permitido que se fabricasse uma quantidade cada vez maior de produtos, em menos tempo, a um custo menor. O padrão de vida e os salários da maior parte da população também cresceram, em consequência disso. Os ganhos vieram sobretudo da progressiva adoção, até os anos 1970, de invenções fundamentais feitas entre o século XIX e o início do XX, como a eletricidade, novos produtos químicos e farmacêuticos e o motor de combustão interna.

Foi esse tipo de crescimento acelerado da renda da maior parte da população, me disse Wolf no Financial Times, que por sua vez permitira avanços democráticos desde o século XIX. “Em 1800, não havia democracias com sufrágio universal em nenhum lugar do mundo. Hoje há muitas delas. E por quê? Há quem diga que é porque nos tornamos mais sábios e inteligentes. Na verdade, a principal razão, a meu ver, foram os imensos ganhos de prosperidade desde então, o desenvolvimento de uma economia sofisticada que exigia o aumento da escolarização de toda a população, maior urbanização. A transformação da nossa sociedade ao mesmo tempo permitiu e exigiu maior inclusão política. É algo completamente diferente de uma sociedade em que 70% ou 80% das pessoas são camponeses.”
“Se você tem uma economia que cresce, é possível para todo mundo melhorar de vida. Chega-se a uma situação de ‘jogo de soma positiva’, na política. Quer dizer, se todo mundo melhora, você distribui os resultados do crescimento sem fazer nenhum grupo em particular piorar de vida. É um ambiente bastante positivo, com menos conflitos, para fazer política. Era a situação que o Brasil vivia durante o boom de commodities, por exemplo – situação que o país não vive mais, agora.”

O problema, argumenta Robert Gordon em seu livro, é que nada que tenha sido inventado e adotado depois dos anos 70, como os computadores pessoais e a revolução na tecnologia de informação, teve ou terá impacto tão decisivo e duradouro nos ganhos de produtividade quanto aquelas invenções dos últimos dois séculos – e a economia não deve voltar a crescer como no passado. Essa é a parte mais controversa do argumento do economista americano. Afinal, como é possível saber?
Ele apresenta fortes indícios de que as inovações recentes, embora tenham tido algum impacto no final dos anos 90, deixaram de provocar ganhos de produtividade significativos desde 2004, pelo menos.
O economista americano cita o empresário Peter Thiel, cofundador da empresa de pagamentos online PayPal, para ilustrar as esperanças frustradas do novo século. “Nós queríamos carros que voassem, e em vez disso ganhamos 140 caracteres”, disse Thiel, em referência ao Twitter e às redes sociais.
Mas quem garante que novas invenções não possam disparar um renovado processo de crescimento, como o que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos entre a Segunda Guerra Mundial e meados dos anos 70?

De certa forma, respondeu Wolf, as economias avançadas pagam o preço do próprio sucesso. O rápido crescimento da escolaridade de seus trabalhadores – que tanto as ajudou a crescer – ficou para trás. Famílias menores e uma maior expectativa de vida, resultados da prosperidade econômica, também trouxeram dificuldades: associado ao envelhecimento da população, o número de pessoas em idade economicamente ativa passou a crescer mais devagar. Os impressionantes avanços de produtividade na indústria, em particular, permitiram que se fabricasse muito mais e a renda total crescesse, mas empregando cada vez menos gente, proporcionalmente, e levando ao mercado produtos cada vez mais baratos. Como consequência, a participação da indústria de transformação nas economias diminuiu – representa hoje pouco mais de um décimo do Produto Interno Bruto dos países ricos.

Assim, mesmo grandes inovações industriais – novas máquinas, novos processos –, que no passado contribuíram para o crescimento acelerado, terão daqui para a frente impacto reduzido no ganho de produtividade total da economia, no aumento da renda e no incremento do PIB – porque seu impacto se dará principalmente sobre essa fração menor do total da produção. Claro que há inovações que afetam o conjunto da economia. Mas tem se mostrado bem mais difícil conseguir ganhos de produtividade expressivos em muitas áreas no setor de serviços, cada vez mais importantes. É limitada a ajuda que máquinas e computadores podem oferecer ao trabalho em creches e restaurantes, por exemplo, embora não seja inexistente. Por fim, acrescentou Wolf, não faz sentido culpar a globalização e o comércio por essa situação. A solução proposta pelos protecionistas é inútil.

“A fatia de bens industriais no produto total do Reino Unido e dos Estados Unidos, hoje, é cerca de 10%. Se eliminássemos tudo o que é importado nesse setor, e ficássemos completamente autossuficientes, a parte da indústria alcançaria uns 14% – e só. Todos aqueles postos de trabalho industriais nunca mais voltarão a existir. Nunca. Porque o crescimento da produtividade é maior no setor industrial do que em qualquer outro setor da economia, e o crescimento da demanda por esse tipo de produto é menor do que o aumento da renda. Nos países ricos, o aumento de renda não é mais gasto principalmente em produtos industriais. Todo mundo já tem mais de um carro na garagem nos Estados Unidos, mesmo os pobres. Gasta-se o dinheiro extra indo a restaurantes, pagando por melhores creches, esse tipo de coisa. Os trabalhos industriais já eram.”

A diminuição da importância da indústria no conjunto da economia também contribuiu, segundo Robert Gordon, para o aumento da desigualdade – que não à toa vem crescendo desde os anos 70 nos Estados Unidos e no Reino Unido.

“Trabalhos industriais relativamente bem remunerados desapareceram, à medida que a fatia dos postos de trabalho na indústria caiu, nos Estados Unidos, de 30% em 1953 para menos de 10% atualmente”, ele escreve, em seu livro. Assim, a composição geral dos postos de trabalho naquela sociedade mudou, com uma proporção maior de empregos criados no topo da “distribuição ocupacional” – ou seja, funções que exigem melhor formação técnica – e na base – trabalhos manuais ou que não necessitam de grande escolaridade –, em detrimento do “miolo”, dos tradicionais trabalhos da classe média. Quem estava no meio passou a ter que disputar vagas e salários com quem tem menos escolaridade, fazendo uma pressão ainda maior pela diminuição da renda de quem já ganhava pouco.

Se o crescimento ao longo do século XX havia ajudado a política, diminuindo os atritos sociais – a exemplo do que aconteceu no Brasil nos anos Lula, disse Wolf –, a tendência no mundo rico, daqui para a frente, é que o contrário aconteça.

“Se estamos num mundo em que o crescimento diminuiu de ritmo de maneira aparentemente prolongada, e há forças econômicas fortes trabalhando a favor do aumento da desigualdade, então estamos num mundo em que a política se torna muito difícil num contexto democrático. Pode até mesmo ficar impossível manter a democracia. Podemos testemunhar o surgimento de forças profundamente antidemocráticas. Eu não esperava que fosse acontecer tão rápido, como já aconteceu. Porque a candidatura de Trump é isso: uma forma diluída de fascismo.”

A entrevista estava chegando ao fim. “Tudo somado, uma grande parte da nossa população se sente desestabilizada, à deriva, ressentida – e eu não vejo como isso vai ser resolvido. Chego à conclusão de que esses fenômenos vão ser uma parte importante da nossa sociedade e da nossa política no futuro próximo, até onde a vista alcança.”

Já eram quase 14h30. Martin Wolf se levantou para me acompanhar até a saída, passando pelas mesas dos repórteres. No caminho, comentou que quase nunca trabalha ou escreve de casa – gosta de se encontrar com os colegas, e do ambiente de redação. “Este é um grande jornal”, declarou. Perguntei se por acaso ele já tinha almoçado. “Ainda não”, respondeu. Havia uma boa cantina no Financial Times, ele me disse, ali mesmo naquele edifício. Comeria alguma coisa por lá. “Ah, bom”, eu falei. Agradeci a gentileza da conversa e saí de lá à procura de um pub.

sábado, 27 de agosto de 2016

MARIANA







MARIANA
de Ricieri Decarli


Canção do amigo Rici
para a cidade que era menina,
verde e linda.
Mariana, e seu mundo que de um repente
não existe mais, morreu.
Desapareceu coberta pela lama feita pelas
mãos de homens.
O rio morreu, a mata morreu, 
e os bichos e os homens morreram e ainda hoje sofrem
pela onda gananciosa da costumeira 
lama brasileira.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

ENRAPTURE CAPTURED



ENRAPTURE CAPTURED

Glorious rain reminds me of
something true,
thunderous pain reduced to a
grainy residue,
washed away in jazzy notes
of tender blue.

Its not in vain if nothing
obscures the view,
if warmth is shared through
and through
and if the grasp of embrace
leaves a trace…

All that’s missing is you…

A cool rainy night like this
demands endless lovemaking
to exhaustion
to distraction
like a frenzied dance
that doesn’t happen by chance
but thick with enchantment
oozing silence with
few requirements other than
guttural vocal satisfaction
when experiencing god’s given
endowments
over and over.

No stopovers
no tag team maneuvers
one on one
one on glorious one
one on intimate one.

Enrapture captured.

by Langa Sarakikya from Tanzania


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Para Ti




Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto


No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

domingo, 6 de dezembro de 2015

Emicida - Mufete



Rangel, Viana, Golfo, Cazenga pois
Marçal, Sambizanga, Calemba 2

One luv, amor pu ceis
Djavan me disse uma vez
Que a terra cantaria ao tocar meus pés
Tanta alegria fez brilhar minha tês
Arte é fazer parte, não ser dono
Nobreza mora em nóiz, não num trono
Logo somos reis e rainhas, somos
Mesmo entre leis mesquinhas vamos
Gente só é feliz
Quem realmente sabe, que a África não é um país
Esquece o que o livro diz, ele mente
Ligue a pele preta a um riso contente
Respeito sua fé, sua cruz
Mas temos duzentos e cinquenta e seis odus
Todos feitos de sombra e luz, bela
Sensíveis como a luz das velas
(tendeu?)

Rangel, Viana, Golfo, Cazenga pois
Marçal, Sambizanga, Calemba 2

Tá na cintura das mina de Cabo Verde
E nos olhares do povo em Luanda
Nem em sonho eu ia saber que
Cada lugar que eu pisasse daria um samba
Numa realidade que mói
Junta com uma saudade que é mansinha mais dói
Tanta desigualdade, a favela os boy
Atrás de um salário uma pá de super herói
Louco tantos Orfeus, trancados
Nos contrato de quem criou o pecado
Dorme igual flor num gramado
E um vira lata magrinho de aliado
Brusco pick o cantar de pneus
Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus
Desde então o povo esqueceu
Que entre os meus todo mundo era deus

Rangel, Viana, Golfo, Cazenga pois

Marçal, Sambizanga, Calemba 2


domingo, 15 de novembro de 2015

Poesia Para Dias Turvos



A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


De Carlos Drummond de Andrade 
Mineiro e antigo, atual e a retratar o homem do Mundo