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sábado, 20 de outubro de 2012

O meu Mundo


Caminho pelo cais, Parque das Nações em Lisboa.


Depois de um mês longe de casa, (e pode parecer pouquíssimo para alguns já que parece pouco, assim falando, até pra mim) percebi, como dizem cá os tugas, que meu lugar é mesmo onde nasci. E disso não tenho mais dúvida alguma. Claro que viajar pelo mundo é muito giro mesmo, do caraças como poucas coisas podem ser.  Afinal, quando saímos de casa vemos o quão diferente a vida pode ser e, com isso e por isso, aprendemos muito mais sobre o que significa ser uma pessoa ao ampliarmos nossa visão para longe do universo que conhecemos bem.

Sentimo-nos muito perdidos também, principalmente quando viajamos sozinhos, porque nada é exatamente como sabemos ser e a cada novo passo precisamos aprender. Aprender como se dizem algumas coisas e que há coisas que não devemos dizer, aprender como entramos e saímos das estações do Metrô e que, antes de tudo, que por aqui as moedas são algo fundamental sempre. Sem elas, às vezes, não há como locomover-se. Aprendemos a ver as coisas a partir de um ponto de vista que não é o nosso.

Durante este um mês aqui conversei com algumas pessoas de lugares diferentes sobre a situação da Europa e do mundo em geral. Sobre como o Brasil parece estar bem, e mais todo o blábláblá que se conta por aí sobre o milagre brasileiro já estar a acontecer agora. Não duvido que nossa situação esteja mesmo melhorando economicamente, claro. Mas para além destas fronteiras, estamos tão distantes da cidadania que precisamos atingir que chega a dar um dó danado pensar. Temos muito a aprender.

Espero, algum dia, perceber em meu país o respeito pelo indivíduo e pelo bem público como vi nestes dias aqui. Poder caminhar sem medo pelas ruas sem importar a hora do dia ou da noite, confiar nas pessoas e naquilo que elas dizem e fazem simplesmente porque assim é que deve ser como vi, hoje, ao entrar num transporte público e não ter quem o cobrasse de mim. Paguei porque tinha que pagar, porque era o certo a fazer, sem que ninguém dissesse ou fizesse nada para aferir se o pagamento havia sido feito ou não. Sei que deve haver aqueles que simplesmente não pagam, que há por cá muitos problemas também. Mas, por princípio confia-se na lisura do cidadão, e isso é muito bom de ver.

Por isso, não há dúvida sobre a importância da Europa para o mundo que hoje temos. Aqui começou a civilização que conhecemos no ocidente e me parece, também, que aqui se encontra, ainda, um exemplo a seguir. Como um ponto de equilíbrio entre as jovens Américas e os países da Ásia, uma Europa forte e unida é o melhor para todos nós, mesmo que o próprio europeu duvide muito disso, pois precisamos provar para nós mesmos que somos capazes de conviver bem como cidadãos.

Foi-me preciso sair para entender que não há lugar para mim como a minha casa, e que por mais bonito que me possa parecer o jardim alheio, o importante é que eu cuide bem do meu jardim. O melhor lugar do mundo para eu viver é onde estão aqueles que amo, pois sem eles não há grandes motivos para seguir fazendo qualquer coisa nesta vida; e este lugar será sempre o Brasil. O negócio, então, é batalhar muito por uma casa melhor para mim e não, simplesmente, pensar que o melhor é dar as costas e sair.

Um abraço estorricado de tão apertado para todos, que a saudade é oceânica.


Giro: bonito, lindo, interessante cá em Portugal.
Do caraças: sensacional, espetacular por aqui.

Lenine MTV Acústico - O Silêncio das Estrelas



Dia lindo em Lisboa, e eu começo a me despedir da cidade num bom dia melancólico. A viagem está chegando ao fim, apesar de a busca ainda seguir, e eu feliz demais em poder voltar pra casa.

Lisboa



Lisboa, longe das ladeiras...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma cidade feita de sons




Lisboa não é uma cidade para ser vista como outras grandes cidades europeias o são. Claro que há monumentos, estátuas, castelos e igrejas, contudo, estes não são o melhor da cidade e chegam a decepcionar em alguns casos.  Lisboa não deve ser vista, mas sim ouvida e sentida. E apenas neste momento entende-se o que é esta cidade que parece não dar o devido valor a sítios históricos: a beleza de Lisboa está em sua luz, e mais profundamente em seus sons. Lisboa é feita de música, de conversas e do som do rio a bater manso contra as pedras nas pequenas praias e no cais.

Talvez, pela angústia e a ansiedade dos primeiros dias aqui eu tenha me esquecido que foi assim que a cidade se apresentou para mim no primeiro dia que aqui cheguei, em Lisboa havia música. E muito antes disso, anos atrás, foi também a música, mais especificamente uma voz portuguesa que me fez desejar estar aqui mais do que qualquer coisa. Então, apesar de haver sim coisas a serem vistas aqui, muitas vezes o melhor é fechar os olhos e apenas ouvir e sentir.

O segredo da cidade está em subir uma de suas ladeiras à noite, seja na Alfama ou em outro bairro, e sentar-se à mesa de um lugar pequeno para beber vinho e comer alguma coisa simples e caseira. Nestes lugares joga-se conversa fora, fala-se de Portugal, do Brasil, da vida e de tudo que se há para falar de maneira animada e intimista ao mesmo tempo.

Nestes momentos, não importa a ninguém o nome do vinho ou da comida, tal como não importam tanto assim os grandes monumentos. O importante é o que se ouve e se sente ali. Então, fecha-se a porta e a luz elétrica adormece para dar lugar às velas. Faz-se silêncio para ouvir, e faz-se a música de maneira frugal e quase sagrada. Ouve-se o fado com seus lamentos e duas guitarras.

Por isso, ontem, sentada a uma destas mesas até alta madrugada, não conseguia entender como não ouvimos mais a música que aqui é feita. Pois que não se trata de gosto ou idade, mas apenas de ouvir o que aqui é feito com nossa alma. E agora eu sei que sentirei saudades eternas de Portugal e seus sons.

Um beijo a todos os amigos,
 um beijo com todo o carinho à voz que me trouxe aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ladeiras cheias de tempo



Cheguei à conclusão que todas as pessoas que moram em Lisboa devem ter pernas fortes deste subir e descer eterno da cidade por suas ruas estreitas e antigas. Este é o mundo das ladeiras e, apesar de termos aqui um céu tão azul e o Tejo com suas aspirações a mar a chamar todo lisboeta a navegar, a cidade se fecha nela mesma com seu delicado labirinto.

Aqui não há a amplidão de outras cidades e tudo parece interno, ensimesmado. Claro que há muitas outras Lisboas para além deste pedaço por onde tenho caminhado, e com certeza estas se distanciam desta realidade labiríntica. Entretanto, cá dentro, no centro mais antigo da cidade, respira-se devagar, caminha-se devagar e o tempo faz curvas para passar pela cidade demorando-se, então, um bocadinho mais.

O moderno nestas ladeiras tem pelo menos cem anos. E, para mim, elas parecem ser donas de todo o tempo deste mundo

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Complicada



Por vezes me pergunto o porquê de complicarmos tanto a vida e, a bem da mais profunda verdade, não conheço alguém que o faça melhor que eu. Pois, que, talvez, esta seja a minha qualidade mais apurada: complicar. Entende-se complicar aqui por não entender, e não permitir, que a vida seja vivida da maneira mais simples. Ao oposto da simplicidade, gosto de tudo que se afasta do comum, do corriqueiro e do mais adequado àquilo que seria mais fácil na vida.

Não sei bem porque estas ideias vieram saltar cá dentro nos miolos. Talvez porque seja a mais pura verdade, ou porque eu tenha voltado cá para Lisboa e escolhido um albergue para ficar. Bom, o albergue em si é muito agradável e eu queria ver gente; afinal viajar sozinha tem suas questões e pode, sem querer, ficar solitário demais até para quem a solidão agrada. Não é o caso agora aqui. Entretanto, o fato do elevador estar quebrado e haver cinco andares de escadas até o andar do albergue... Bom isso foi de chorar. Sorte minha, e tenho que agradecer de joelhos aos meus anjos da guarda de plantão eterno, que assim que subi os primeiros degraus apareceram dois alemães gigantes que levaram minha mala grande e seus vinte e oito quilos cinco andares acima.

Então, aqui sentada me pergunto: por que não passei mais uma semana em Barcelona estudando e aproveitando aquela cidade com minhas novas amigas de viagem? Resposta: porque sou uma cabeçuda de marca maior, crente no impossível como se ele fosse fácil e curiosa até o último fio de cabelo. Assim é. Contudo, à altura da vida na qual me encontro e quando seria muito mais comum ter o oposto disso tudo, sinto-me muito bem fazendo tudo isso apesar dos pesares todos. Sinto-me viva.

Não sei se encontrarei aqui o que busco, até porque quem gosta de complicar a vida nunca sabe exatamente o que procura, e quando acha logo acha mais alguma coisa para procurar. Espero encontrar algumas respostas e ser compreensiva o bastante para aceita-las. Eu compreensiva? Difícil, sei bem. Espero também conhecer mais e mais gente. Muita gente. Ouvir outras vezes na minha vida várias línguas faladas ao mesmo tempo a dar um nó no meu cérebro e, por isso, uma saudade apertada do meu querido Português.    
                                                                                                                                                                                                                                                            
Uma coisa eu já entendi depois de tantos dias longe de casa. Entendi que sou profundamente brasileira e que meus pés se sentem muitos mais confortáveis quando pisam a sua terra.  Por tanto, não importando onde eu esteja, sentirei sempre saudades profundas do Brasil.

Beijos e saudades de todos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma Babel Particular




O desconforto e a estranheza dos primeiros dias se foram completamente e deram lugar a uma inconformidade que aumenta com o passar dos dias. Pois, se na primeira semana o tempo que ficaria em Barcelona me parecia mais que suficiente, um exagero até, agora ele já me parece tão parco que beira à indecência. Sentirei saudade da cidade e das pessoas desta cidade que, apesar de relativamente pequena, acomoda um mundo de diversidades em suas ruas.

Mais do que o prazer de caminhar pelas ruas da cidade e de ver obras e monumentos únicos, conversar com as pessoas é o que mais me agrada. Conhecendo-as mesmo que por alguns dias num convício forçoso e forçado, dada à situação, percebe-se o quão fácil é conviver com gentes de todos os lugares. Japoneses, chineses, coreanos, americanos, russos, holandeses, búlgaros, alemães, suíços, espanhóis, e quem mais vier; não importa. Há sempre muito em comum e, ao mesmo tempo, muito a aprender um com o outro. Basta uma língua em comum, inglês ou espanhol, e pronto, a conversa flui natural e caudalosa. Talvez por sabermos da brevidade deste momento, talvez porque a curiosidade de todos por cada um seja enorme. Não sei. O certo é que, não importa onde o outro nasceu, se conversa muito, sempre.

Por isso, e por muitas outras coisas, ando pensando no porquê de haver tanta guerra neste mundo já que somos tão iguais no final das contas. Por que ainda lutamos por governos e seus interesses que não são, nem nunca serão, os nossos? Por que achamos tão difícil perceber o Mundo como um só, e ainda teimamos em separar as pessoas em raças distintas? E lá vem outro “Não sei”. Talvez porque, mesmo nestes dias de tanta informação disponível, sejamos muito mais inocentes e tolos do cremos ser. Claro que há diferenças entre cada um; e isso não se discute. Entretanto, essa diferença existe para todos, inclusive para irmãos que nascem numa mesma casa e são criados pelas mesmas pessoas, ou não?

Em nossa Babel particular, mais conhecida como nosso apartamento, há três nacionalidades diferentes: brasileira, japonesa e americana, contudo, nunca houve problema algum de compreensão ou entendimento. Às vezes reina o espanhol na casa, língua que não é a nossa, mas que nos une. Às vezes há uma mistura para a qual não sei que nome dar, com frases que carregam um tanto de inglês, bocados de português e um acabamento castelhano. Às vezes reina soberano o inglês ou o português que é mudado, automaticamente, para que todos nos entendam. Porque aqui, e em situações como esta, aprendemos logo o valor da gentiliza.

sábado, 29 de setembro de 2012

Pedra que faz chorar





Nada, nem mesmo milhares de anos, poderia ter me preparado para aquilo que vi ao entrar na Sagrada Família em Barcelona. Não consigo atinar, por mais que eu me esforce, como tamanha beleza e genialidade puderam ser, um dia, pensadas por uma mente humana. O Temple Expiatori de La Sagrada Familia é algo inumano à medida que é pedra e vidro e, mesmo assim, tão poético e cheio de sentimentos que nos emociona profundamente.

Sinto-me impotente ao tentar descrevê-la porque não há palavras que possam fazê-lo como se deveria. Talvez gênios como Fernando Pessoa, Machado de Assis e outros escritores que também nos parecem seres saídos de outro planeta, pudessem descrevê-la como se deve. Talvez.  Entretanto, não há, para mim, vocabulário ou gramática o bastante para explicar a obra deste homem que me alumbrou como nenhum outro fez. Pois esta é uma boa palavra para descrever a obra do Senhor Gaudí: ele nos alumbra; iluminando corpo e alma com sua arquitetura viva e feita de luz.  

Há um contraste gigantesco entre todas as facetas que temos desta igreja como se ela não fosse apenas uma. De longe nos parece algo monumental e austero com seus tons de cinza, um castelo de areia um tanto disforme, como me descreveu Gabriela. À distância, a Sagrada Família nos assusta um pouco com um quê opressor que parece estar nela.

Contudo, basta aproximar-se de sua soleira para entender que o que há nela é tudo, menos opressão. Neste momento, depois de muito tempo viva, constatei que a pedra realmente fala. As estátuas que vi falam; falam e se expressam com uma verborragia que nos impressiona assim que levantamos os olhos em direção a elas. Homens e mulheres, o filho de Deus entre eles, nos contam suas dores, suas mágoas, pesares e sofrimento na fachada da Paixão de Cristo. Nela, Jesus é um homem, o vemos e sentimos como homem e entendemos todo o peso e o pesar da cruz que ele carrega. A igreja é algo vivo e que respira, feita de árvores, de frutos, de animais e de gente, e por isso, deixam de ser feita, simplesmente, de pedra.

Passamos pela sua pesada porta imaginando o que a de haver lá dentro: mais sofrimento, quiçá a penumbra, santos em contrição. Então, invade-nos a luz. Uma luz suave que nos faz pensar que estamos em outro lugar que não cá na Terra. E nos encantam os vitrais, as colunas desproporcionais, o teto que parece respirar sobre nossas cabeças. Há santos majestosos e vigilantes, mas poucos, e um Cristo tão humano flutuando sobre o altar que nos dá vontade de subir até ali e retirá-lo da cruz para acabar com sua dor. Vista por dentro, a Sagrada Família é a obra mais bonita e inspiradora que eu já vi. Ela é algo descomunal.

Apesar de tudo, do princípio ao fim, ser belo e expressivo, nada se compara à fachada da Natividade para mim. Não sei dizer o porquê disso, não sei explicar. Entretanto, ela me tocou mais profundamente que tudo ali. São apenas estátuas, imagens, figuras, mas elas surpreendem fazendo do simples, do comum, do banal a mais divina e sagrada das experiências. O nascimento de Jesus é delicado, belo e melancólico ao mesmo tempo.  E eu, pela primeira vez, chorei por ver algo feito de pedra e vidro, porque já não cabia mais em mim tamanha emoção.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Vida de um jeito Diferente

La ventana de mi piso en Barcelona (obsessão minha por janelas)



Sempre que viajo gosto de fazer as coisas que são comuns àqueles que vivem onde estou. Então, ir ao mercado, à farmácia, andar pelo bairro, usar os transportes públicos e ver as pessoas em suas rotinas sempre me agrada muito.  Gosto disso porque são nestes momentos e lugares, muito mais e profundamente do que nos monumentos históricos, que vemos o quão diferente a vida pode ser. Apenas daí percebe-se claramente que este mundo não é o seu e que tudo o que nos é óbvio e corriqueiro deixa de ser.

Claro que de uma boa distância, algo como uma visão macro, todos somos iguais sempre. Hoje, passeando pelo bairro, vi as crianças saindo da escola e aqui, como na minha terra, vemos as meninas pequenas de mãos dadas a sair uniformizadas e falantes pelas calçadas com suas mães caminhando perto delas, ao passo que os meninos vão a correr e brincar enquanto suas mães lhes gritam que esperem. Tudo isso acontece no Brasil também, mas, aqui, assusta-me a facilidade com que as mães deixam as crianças bem pequenas a correr soltas pelas calçadas. E fica a impressão que elas são muito mais independentes e responsáveis do que os nossos meninos. Talvez?

Ir ao mercado é sempre um espetáculo à parte, um assombro e um momento para muitos descobrimentos. Ou não descobrimentos porque há coisas que, simplesmente, não encontramos jamais. Como, por exemplo, um pano de prato ou de chão feito de saco na Espanha e um coador de café no Chile. E me pergunto: Deus do céu, como se seca a louça ou faz-se café nestes lugares?

Dúvidas aparecem o tempo todo e tem-se que aprender como fazer coisas simples como colocar o lixo na rua, abrir a porta dos trens no metrô e entender um endereço. E, assim, vendo a vida dos outros de perto, me sinto cada vez mais brasileira. E me dá uma saudade danada do Pão de Açúcar que eu tanto conheço depois de dar várias voltas no supermercado para encontrar detergente ou arroz, e a expressão “peixe fora d’água” se aplica tão bem neste momento que até dói, afinal, onde está tudo aquilo que eu costumo ter à mão? Cadê a tal da globalização?

Porém, e apesar do sofrimento com o sono que não se encontra com a noite que chega muito antes com este “jet lag” de cinco horas e “otras cositas más”, ver um mundo pensado e criado por outros olhos é um exercício que todos deveríamos fazer. É genial poder caminhar pelas ruas a qualquer hora da noite ou do dia sem perigo algum, perceber o respeito e a noção clara de cidadania que todos têm e ver como, delicadamente, a história desta gente ainda está presente em todo canto por aqui.

Viver, mesmo que seja um pouco, noutro país abre os olhos e a alma da gente e nos faz entender melhor o quão incomum e, por isso mesmo, precioso é o viver de todas as gentes.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

De Lisboa a Barcelona




Quando escrevi sobre Lisboa disse que para mim ela era ainda uma cidade sem som, tão calma e quieta que se mostrou em minha chegada. Agora, pensando um pouco nisso, percebo que o quê me fez falta foram os típicos sons de uma cidade grande para nós brasileiros. Em Lisboa, pelo menos no fim de semana, não se percebe o som de carros a arrancar, buzinas e afins. O som que ela me trouxe foi o da música e o da poesia brasileira e portuguesa num festival que ocorre na cidade. Para os portugueses e para mim começou o ano do Brasil em Portugal. O Rossio foi um pedaço do Brasil, e eu nele.

Já Barcelona apresentou-se de uma forma completamente diferente, talvez porque saiba que será minha casa por três semanas. Aqui tudo foi som. Descubro a primeira vantagem, e talvez a melhor delas, que temos ao viajar sozinhos: conhecer gente. Pois, menos de vinte e quatro horas depois de minha chegada, já conheço quatro brasileiros, dois alemães, uma peruana, um venezuelano, uma holandesa e um mexicano. Com eles vem muita conversa, risadas, música e uma festa pela frente.

Pessoas que entram e saem de nossas vidas feito chuva no sertão: elas são passageiras, mas enquanto caem são uma graça verdadeira.  Tudo isso graças à Gabriela, paulista e corintiana, que em poucas horas me apresentou a toda essa gente. E pela primeira vez sinto aquilo que todos os outros falam do povo brasileiro: somos acolhedores e simpáticos por natureza.

A cidade está no meio do Festival de La Merce, uma das festas mais importantes da cidade que acontece nas ruas durante quase quatro dias; algo como um carnaval catalão com desfiles de bonecos gigantes, apresentações acrobáticas e pirotécnicas e música, claro. Alguém já viu festa sem música?

Ontem pela noite ocorreu o Correfog que consiste em homens e mulheres vestidos de diabo a correr pelas ruas com tridentes em chamas, seguidos por dragões e bandas com percursionistas.  A diversão está em colocar-se frente às chamas dos fogos de artifício com alguma proteção, e dançar abraçado aos diabos que passam pela rua. Eu, sem grandes intenções de abraçar o diabo mesmo em Barcelona, vi a festa da calçada e me lembrei das lutas de espadas de fogo, típicas do nordeste brasileiro, e dos festivais chineses com seus dragões. Quanto mais se anda, mais se percebe que este mundo é mesmo um só. Ficou a primeira impressão de Barcelona: eles são mesmo muito malucos.

Um beijo e saudades de todos


sábado, 22 de setembro de 2012

Um voo solo – Lisboa o início





Pela primeira vez atravesso o Oceano Atlântico rumo à Europa, passando de resvalo pela África.  Depois de quase 13 horas de voo, 02 aeroportos e alguns problemas, cá estou sentada no terraço do hotel onde ficarei apenas por um dia. Amanhã Barcelona e 03 semanas de estudos para um retorno para valer para Lisboa. Hoje, estou apenas de passagem e quero banho e cama mais do que tudo.

Pensei muito se faria um diário sobre a viagem, com fotos e etc. e tal. Achei que isso seria óbvio e chato, algo repetitivo. Afinal, as cidades visitadas já foram mais que fotografadas por muitas pessoas que o fazem muito melhor do que eu.  Resolvi então escrever algo mais pessoal e, por tanto, muito mais inútil por sua essência. Pois que a utilidade da escrita será nenhuma, a não ser a de perceber o quão distraída eu sou.

Bom, comecei esquecendo a máquina fotográfica em casa, ou seja, terei que comprar uma e, por tanto, as primeiras imagens ficarão apenas na memória, e no celular. Mas não posso enviá-las porque há mais de seis meses não sei onde raios foi parar o cabo USB dele.

Viajar sozinho deve ter suas vantagens, mas eu ainda não percebi nenhuma. A única coisa que percebo é que quase não falei com ninguém nas últimas 24 horas, e que a língua fica um pouco incomodada aqui na boca. Claro que conversei com os comissários de bordo, com as nada simpáticas moças da Alfândega de Madrid, com o simpático taxista que me trouxe ao hotel e etc. e tal, mas foi isso.

Pelas poucas pessoas com quem falei aqui em Lisboa percebem-se duas coisas a respeito de quem somos nós, os brasileiros. Primeiro e antes de tudo: somos simpáticos e comunicativos, dados mesmo. Segundo, e talvez não tão bom assim para eles: Estamos viajando para cá como nunca. Pois é, o brasileiro, além de simpático, anda espaçoso que só a ocupar o mundo todo.

Do pouco que vi nestas minhas quase 03 horas de Lisboa me marcaram as seguintes impressões:

O céu daqui é lindo. Lindo de um azul claro e expressivo devido à sua luminosidade que impressiona até a mim que estou acostumada com o céu da iluminada Fortaleza. O céu de Lisboa parece uma pintura feita há muito tempo atrás. Há um quê de eterno nele, de algo imóvel, constante e duradouro. Talvez o fato dos prédios serem muito mais baixos do que aqueles que temos no Brasil dê a este céu está imensidão que impressiona.

Lisboa é uma cidade calma neste sábado onde há poucos carros e pouca gente nas ruas, o que me faz lembrar José Saramago e seu Ensaio sobre a Cegueira de ruas desertas. Não há como imaginar esta tranquilidade em São Paulo nem que tirássemos metade das pessoas que lá estão.

Lisboa ondula pelos morros quando vista de cima. É uma cidade de relevos variados e divertidos, morros feitos de casas, prédios baixos e castelos em tons pastel. Há uma delicadeza nesta parte mais antiga da cidade que parece de brinquedo e me faz compreender de onde veio a arquitetura das cidades históricas de Minas Gerais.

Ainda não descobri o som de Lisboa, pois para mim nela ainda impera o silêncio. Vou andar um pouco para ouvi-la melhor.

Beijo a todos, e já me bate a saudade de minha terra, que isso de ser estrangeira não é fácil.