Alguns, muitos,
dizem que isso de Copa do Mundo é uma bobagem. Circo para as massas que têm
parco pão. Pois que, feito truque cheio de ilusão, durante os dias do
famigerado campeonato, disputa de uma taça tão nossa quanto a malandragem, o
mundo pára. Nos dias de Copa nos esquecemos dos achaques, das tramoias, dos
problemas existenciais, das chatices da humanidade, e do quão aborrecida pode
ser toda e qualquer rotina. Pois sim, isso de Copa do Mundo de futebol é de
fato um veneno que mata o pensamento crítico; uma assassina em potencial, e com
todo o potencial, de nossos pobres neurônios. Ainda bem que ela só acontece
quadrienalmente, não?
Não! Não mesmo,
porque por mim Copa do Mundo aconteceria mais a miúde e sempre por aqui;
pertinho de mim. E que me perdoem os homens e mulheres sérios demais para
baixar a guarda por meros 30 dias e que dão de ombros à redonda por via de
regra. A Copa do Mundo de Futebol é um
acontecimento ímpar, um embate de nações longe do campo de guerra; ela é dias
de diversão e celebração garantidos. O êxtase em caso de vitória na final.
Eu sei, eu sei,
durante a Copa muita palhaçada acontece dentro e fora dos campos, no âmbito público
e privado. Verdade. Entretanto, o fato é que a falta da Copa não mudaria a
direção do Mundo tanto assim. Por exemplo, não deixaríamos de ter tanta
corrupção por Terras Brasilis e, num passe de mágica, não seríamos um povo
social-e-politicamente mais consciente de seu papel como cidadão se por aqui ignorássemos
a pelota. Não.
E quase nada é
tão bom, nessa vida que Deus nos deu, como ver algo incrível diante dos nossos olhos
criado com algo tão singelo como uma bola. E nessa Copa na Rússia já tivemos
momentos únicos a provar que fazer um gol pode ser uma alegria que transcende a
qualquer lógica. Quem não viu, veja: a primeira partida do monstro da bola CR7,
a alegria dos peruanos na sua única vitória em Copas há décadas, o louco e
apaixonado apoio da torcida argentina à sua equipe, a inesquecível vitória da Coreia
frente a gigantesca Alemanha. Tudo, tudinho mesmos, uma beleza. E que venham
mais dias de Copa!
Mais uma vez dei
a volta em mim mesma, e feito caranguejo, andei para trás. Não foi a primeira
vez já que isso de ir e vir, de querer partir, parece fazer parte de mim. Não
sei ainda se esta mudança será a última pois que a vida é longa e o Mundo grande
que só. Contudo, e apesar de tudo, voltei para a minha cidade com a intenção de
ficar. Vontade de criar novas raízes e, quiçá, sentir-me mais árvore do que
passarinho. Quem sabe?
Um pouco mais de
um mês na minha cidade cinza em dias curtos de outono frio, e uma nova rotina
começa a se estabelecer. Muito trabalho, meus amigos de décadas e a família bem
perto, as saudades de todos e tudo que eu deixei em Fortaleza a aumentar; como sempre. E aquela
sensação estranha que é fazer de um lugar novo a sua casa ainda está por cá. Adaptar-se
a uma nova vista pela janela demora um certo tempo determinado por fatores que
nos escapam à lógica. Acontece aos poucos; a passos de formiga cheia de
preguiça.
Gosto de estar
aqui e dos novos desafios que são próprios de toda a mudança. Gosto de ter
voltado, já que o fiz porque quis. Entretanto, ainda andava a sentir-me em
terra estrangeira desde que cheguei, com um banzo a bater no peito, sentimento dos
desterrados, que eu não deveria sentir em terras paulistanas; minha terra.
E, de repente,
na noite de sábado, ouço depois de muitos anos um par de canções do rock de São
Paulo que foi grande parte da trilha sonora da minha adolescência na década de
80. Rock com pé no Punk Rock do Ira, Inocentes, Ratos de Porão, Titãs, Ultraje
a Rigor... Música cinza, dura e crítica como os que nasceram por aqui. E de
repente, de um repente, senti-me em casa como antes. Eu estou na minha cidade; estou em casa.