sábado, 19 de junho de 2021

Será

 


Será


O que será que me dá

Como disse o Chico

Que não posso controlar

Por mais que a lógica me venha a contrariar

Por mais que a história teime em apagar

 

O que será que me dá

Pois mesmo cega e surda ando a te escutar

E a ti te vejo nos recantos onde não estás

Que mesmo à esmo sei que ei de chegar

Apesar de nunca lá eu estar

 

O que será?

 

O que será que me dá

Que me faz perder todo o orgulho e me ajoelhar

Clamando louca pelo teu olhar

Gritando rouca para eu te escutar

Sabendo que não existo e que aqui nunca estarás

 

Sem o meu juízo finjo não enxergar

O que não tem jeito, nem nunca terá

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não limite, e em mim morrerá

No dia que meus olhos eu fechar

 

O que será...

 


Uma brincadeira sem vergonha com uma canção do gênio, Chico Buarque, que disse tudo que sentimos e que ainda terá muito a contar.

 



quarta-feira, 16 de junho de 2021

torga

 

UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:

É um poema

Um misto de oração e de feitiço...

Sem qualquer compromisso,

Ouve-o atentamente,

De coração lavado.

Poderás decorá-lo

E rezá-lo

Ao deitar

Ao levantar,

Ou nas restantes horas de tristeza.

Na segura certeza

De que mal não te faz.

E pode acontecer que te dê paz...

 

Pedagogia

Brinca enquanto souberes!

Tudo o que é bom e belo

Se desaprende…

A vida compra e vende

A perdição.

Alheado e feliz,

Brinca no mundo da imaginação,

Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente

Como um bicho!

Fura os olhos do tempo,

E à volta do seu pasmo alvar

De cabra-cega tonta,

A saltar e a correr,

Desafronta

O adulto que hás-de ser!

 

Inocência

Vou aqui como um anjo, e carregado

De crimes!

Com asas de poeta voa-se no céu…

De tudo me redimes,

Penitência

De ser artista!

Nada sei,

Nada valho,

Nada faço,

E abre-se em mim a força deste abraço

Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.

Sou como um sol fecundo

Que adoça e doira, tendo

Calor apenas.

Puro,

Divino

E humano como os outros meus irmãos,

Caminho nesta ingénua confiança

De criança

Que faz milagres a bater as mãos.


Miguel Torga


terça-feira, 8 de junho de 2021

Deixe-me ir...


Porém e sempre, haverá aquilo e aqueles dois quais jamais conseguiremos nos despedir verdadeiramente.

Cartola canta e encanta... ainda e sempre.




domingo, 6 de junho de 2021

Boneca

 


Boneca

Boneca de trapos

Feita em farrapos

Com agulha e linha costuro-te, alma minha

De tantas voltas, idas e vindas

Nesta brincadeira de fazer-te gente grande,

Menina

Ficaste de peito aberto e riscado, coração exposto,

Braços cansados

Por dentro, com jeito, uso linha muito fina

Delicada

Linha que não se vê a olho nu,

Feita de sorrisos tímidos e olhares de soslaio

De feitio assim; feito apenas para mim

Por fora, já com a mão mais forte

Uso linha mais parruda,

Grosseira mesmo

Linha feita de coragem para uma vez e

Novamente

Mergulhar na ciranda sem medos e brincar

Até o peito, apaixonado,

Mais uma vez

Arrebentar

domingo, 30 de maio de 2021

“A morte dos girassóis”

 


“A morte dos girassóis”

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.

Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.

Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.

De Caio F. Abreu

(Zero Hora, 18.3.1995)