By Carlão
Na mata
O verde invadiu
seus olhos míopes tão intensamente que os óculos de Ana pareciam não ter mais
razão de ser. A mata era muito mais poderosa do que muitos acreditavam ser com suas
árvores infinitas de galhos eretos cantando aos céus e raízes agarradas a terra
com paixão.
Ana pensava
compreender as árvores, e as sentia como quem sente a presença da família; como
um abraço acalentador. Na mata ela estava em casa, e por isso a viagem de carro
pela serra lhe parecia tão bom quanto chegar ao destino. Porque através da janela
do carro a visão era inacreditável: a Mata Atlântica oceânica.
Sentirei saudades
da mata quando não puder mais vê-la. Pensou a menina.
Pensou com a
certeza de quem partirá muito antes do que as árvores que a viam passar. Ana já
contara aos amigos seus desejos finais: quando morrer, não haverá choro nem
vela, como diz a canção; a menina queria uma festa antes do destino final – virar
humus e crescer Ipê Amarelo no meio da serra.
O mundo era
mesmo muito bonito, as pessoas é que estragavam um pouco a beleza da vida com
suas ideias mesquinhas de corações egoístas. Sendo assim, na próxima vida Ana
não queria ser gente, pois não lhe parecia necessário viver feito gente mais
uma vez. Ser árvore seria muitas vezes melhor. Sentiria suas raízes ligadas à
terra, passaria seus dias a dançar no ritmo dos ventos. E quando as gotas
grossas de chuva caíssem, abriria olhos e boca para sentir a graça da vida.
Quero ser árvore
no meio da mata. Dizia a menina
Ela adoraria ter
ninhos de pássaros em seus galhos. Vê-los crescer. Aprenderem a voar. Ouvi-los
cantar. E como seriam divertidas todas as vezes que os micos e outros macacos
passassem por seus galhos com suas acrobacias ágeis a gritar. Deus do céu, se
sentiria bela como nunca quando com a chegada da primavera suas flores
desabrochassem chamando a atenção de todos que por ela passassem.
Seria bom ver as
pessoas de olhos curiosos passarem pela estrada. Seria melhor ainda se a
família, os amigos e o amores viessem ao seu pé se sentar. Nesse momento leria
seus pensamentos e ensinaria aos seus meninos e meninas a ouvi-la para que se
sentissem abraçados. Seria bom ouvi-los de violão em punho a cantar. Seria inacreditável
ouvir ao João cantar, e então, sem muito pensar lembrar-se que na vida passada
havia sido gente feliz.
O amor...
Amo?
Por que te amo?
Amo porque te amo
Por quê?
Porque te amo sem conseguir racionalmente
pesar com precisão os pesares da questão
Nada pesa de verdade,
Verdade?
Sim, claro que sim.
Creio que sim... assim...
Não sei bem dizer qual a razão desta paixão arrazoada apenas
pela minha intuição
pela falta do bom senso que há algum tempo pulou pela janela
do meu quarto e fugiu.
e sim,
porque sim
Apenas porque sim, porque sempre foi assim
para mim
E assim, incongruente
como um cão que morde o próprio rabo,
ele seguirá
seguirá este meu amor por ti
Nico
Calado, quieto
Econômico com as palavras como se entendesse
desde cedo
a importância de não as usar em abundância
Mais cala do que fala, o menino que se espicha
todo santo dia
em direção à Lua, a cultivar mistérios
alimentando seus segredos; alma humana em construção
Pouco sabemos sobre tudo
e o todo que habita os pensamentos
do menino de sorriso tímido
e coração de cavaleiro
Nico cresce, e sem muito dizer, nos mostra com gestos
o rapaz cortês
divertido
e inteligente
que nele cresce;
bem-vindo
Depois do silêncio
Depois do silêncio posso ouvir
Tímidas, das mãos
Saídas as primeiras palavras
Recém nascidas
Sem muita consciência do que elas querem dizer
Provavelmente
Sem querer comunicar muito, contentam-se com
Pouco mais que nada
Querem apenas existir
Sentirem-se vivas
E eu as ouço
respirar
80 anos do moço poeta de olhos de mar lúcido
onde tantas vezes na vida mergulhamos
músico
escritor
voz pouca que representa a minha pátria como nínguem mais
autor
amor
paixão para mais de uma vida
que se canta mulher
que se canta homem
que nos encanta
Chico de tão grandioso tornou-se há muito tempo
eterno