Einstein
Ana esqueceu-se
do porquê abrira a pequena gaveta branca. Buscava algo, mas, num repente,
perdera o foco e a tranquilidade que a acompanhavam nos últimos tempos. Uma foto
esquecida, lembrança a respirar suave sob um caderno antigo e cheio de ilusões
balzaquianas, roubara seu sossego. João ainda estava ali, calado, de tocaia
atrás de um grande carvalho que habita a cabeça dela.
O som de uma ambulância
atravessa a janela do pequeno apartamento e abafa, por um segundo, o pensamento
da menina. A vida continua rotineira e pacífica... Contudo, como sempre, os
olhos dela perdiam-se nos dele como se houvesse algo fundamental a descobrir
por trás daquelas retinas. Ana estava, uma outra vez, à deriva em seu mar verde.
O oceano que
nela habita transbordara sem avisos, sem que ela tivesse se apercebido claramente
do que acontecia. Lágrimas, soluços e o nó na garganta ainda estavam lá e este
era um fato inesperado. Por quê? Pensava ela. Por que todas as coisas tiveram
que correr assim: ironicamente realistas e debochadas? Uma segunda ambulância passa
sob sua janela, e Ana fecha a gaveta sem barulho para não acordar mais alguma
outra memória exilada.
Anos se apresentavam
como dias naquele momento num tempo relativamente imperfeito, a fazer com que
tudo que não existia mais há tanto tempo - João perto dela – parecesse real;
atual. Não o era. Ana lembrou-se de Albert Einstein e da sua relatividade do
tempo como se isso pudesse explicar o absurdo de algo há tanto passado fazer-se
ridiculamente presente. O tempo passa de maneira distinta em situações
diferentes. Pois, suspirou ela, dentro da gaveta branca ele arrasta-se
lentamente.
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