terça-feira, 5 de julho de 2011

eterno

foto de Joana Vieira

Sim, sim, assim de longe
tu és perfeito,
lamparina guia de toda
a falta de juízo
desta mente que,
inapropriada,
não pensa, sente.
Contudo, de perto,
tão de perto que
possamos sentir nosso cheiro,
talvez torne-se humano
em demasia o nosso desejo.
Assim, somente assim como está,
este amor é  perfeito,
pois, ele persiste e resiste
eterno
à medida que não existe.

domingo, 3 de julho de 2011

Inexoravelmente bom

 

Desde criança nos acostumamos a ouvir que a infância é o melhor tempo de nossas vidas, que logo tudo isso passará e que não a teremos mais. Sim, o tempo passa para todos nós. Entretanto, mesmo sendo uma destas pessoas que já repetiu milhões de vezes que esta tal passagem do tempo é terrível, devo reconhecer que não é bem assim. Tudo bem que ficamos mais velhos por fora de modo indecente, pois cá vêm as rugas, cabelos brancos e, o pior de tudo: dá-lhe ginástica para que a bunda e outras partes dantes tão desejadas e queridas não se tornem apenas um peso a mais no corpo. Sim 2, envelhecer neste sentido é terrível e, então, o tempo parece mesmo inexorável como o mais cruel dos desalmados. Contudo, e sempre haverá um “contudo” a mostrar-nos que há um lado bom em tudo, se pensarmos em tudo que ganhamos com a passagem do tal do tempo, percebemos que só temos a agradecer.
Sim 3, a passagem do tempo é boa, boníssima mesmo. Sem ela ainda seríamos crianças, eternamente presos a um estado de vida onde tudo ainda está por vir e, por isso mesmo, quase nada aconteceu. E esta idéia me assusta muito mais do que pensar que um dia serei uma velhinha maluca e folgada. Disso não tenho dúvidas! Com o tempo, o corpo padece sim, mas a alma cresce e se liberta de mitos, regras, medos e dúvidas que antes nos perturbavam a existência e, então, temos uma vida mais intensa, bela e divertida. Bem, para mim tem sido assim e espero que para todos seja também, pois isso é muito bom.
Ontem celebramos, de forma adiantada, o aniversário de 14 anos de meu primeiro “step-sobrinho” Fábio Antônio, um rapaz que aos 2 anos corria nu pela casa pois teimava em não vestir roupa alguma, e que já me fez rir e ralhar com ele muitas vezes nestes anos. Um gigante menino que me mostrou ontem com seu riso fácil que, apesar de hoje vermos todo aquele tamanho, ainda mora ali o bebê danado que cismava que roupa era uma besteira.  E lá vem o Sim 4! Ganhamos pessoas, experiências, sentimentos e memórias com o tempo, somando mais vida a vida que temos como se desta forma nos multiplicássemos em muitos seres. Hoje não sou mais a menina tímida que fui aos 5 anos de idade, mas ela ainda está aqui com todas as outras meninas, moças e mulheres que se somaram dentro de mim. Sou todas elas graças à passagem do tempo e, à ele, devo toda a riqueza que carrego comigo.
Chego à conclusão paradoxal, que o tempo é, com toda certeza, inexoravelmente bom. Sem ele não haveria a palavra saudade, não haveria os abraços longos como o de ontem entre o meu querido Lucas (meu primeiro filho do coração) e eu, pois já não nos víamos há um ano mais ou menos. Que saudade! Saudade do meu menino que tantas vezes esteve comigo, de nossas tardes sozinhos na praia, nossas milhares de idas ao cinema e nosso domingo no estádio a torcer pelo nosso Corinthians do coração! Sem o tempo eu não teria a tantos de meus amigos, não teria visto nascerem e crescerem seus filhos, não teria conhecido meus novos amores e, não estaria hoje, imaginando o que virá depois de tudo isso.
Sei que o tempo também leva aqueles que amamos, e este será o único senão na carreira deste senhor que nos faz evoluir todos os dias. Que ele nos ensine também que devemos ser fortes e que devemos sempre aproveitar o tempo que temos hoje e sempre. Vale agora terminar o blábláblá de hoje com meu querido Fernando Pessoa que sabia da vida e do tempo muito mais do que eu: Que venha a aventura de viver!
Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

A meus pais, que amo incondicionalmente e que me dão mais do que mereço. Meus anjos hoje e sempre.
Boa semana a todos e que ainda tenhamos muito tempo.
Um beijo.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Vontade

Que
Que venha o peso
Que sinta o gosto
Que venha o cheiro
Que se repitam os erros
Que se esqueçam os tropeços
Que a loucura dos sem medo
tome conta de mim
Quero viver e sentir a ti, a todos
a tudo, e depois
o fim.

O Doce Carlos


O ELEFANTE 
                   ( Carlos Drummond de Andrade )

    Fabrico um elefante
    de meus poucos recursos
    Um tanto de madeira
    tirado a velhos móveis
    talvez lhe dê apoio .
    E o encho de algodão,
    de paina , de doçura .
    A cola vai fixar
    Suas orelhas pensas.
    A tromba de enovela,
    É a parte mais feliz
    de sua arquitetura .


    Mas há também as presas,
    dessa matéria pura
    que não sei figurar .
    Tão alva essa riqueza
    a espojar-se nos circos
    sem perda ou corrupção .
    E há por fim os olhos,
    onde se deposita
    a parte do elefante
    mais fluida e permanente,
    alheia a toda fraude .


    Eis meu pobre elefante
    pronto para sair
    à procura de amigos
    num mundo enfastiado
    que já não crê nos bichos
    e duvida das coisas .
    Ei-lo , massa imponente
    e frágil , que se abana
    e move lentamente
    a pele costurada
    onde há flores de pano
    e nuvens , alusões
    a um mundo mais poético
    onde o amor reagrupa
    as formas naturais .


     Vai meu elefante
     pela rua povoada ,
     mas não o querem ver
     nem mesmo para rir
     da cauda que ameaça
     deixá-lo ir sozinho .


     É todo graça. Embora
     as pernas não ajudem
     e seu ventre balofo
     se arrisque a desabar
     ao mais leve empurrão.
     Mostra com elegância
     sua mínima vida ,
     e não há na cidade
     alma que se disponha
     a recolher em si 
     desse corpo sensível
     a fugitiva imagem,
     a passo desastrado
     mas faminto e tocante .


     Mas faminto de seres
     e situações patéticas,
     de encontros ao luar
     no mais profundo oceano,
     sob a raiz das árvores
     ou no seio das conchas ,
     de luzes que não cegam
     e brilham através
     dos troncos mais espessos.
     Esse passo vai
     sem esmagar as plantas
     no campo de batalha,
     a procura de sítios,
     segredos, episódios
     não contados em livro,
     de que apenas o vento,
     as folhas, a formiga
     reconhecem o talhe,
     mas que os homens ignoram,
     pois só ousam mostrar-se
     sob a paz das cortinas
     à pálpebra cerrada .


     E já tarde da noite
     volta meu elefante,
     mas volta fatigado,
     as patas vacilantes
     se desmancham no pó.
     Ele não encontrou
     o que carecia,
     o de que carecemos,
     eu e meu elefante,
     em que amo disfarçar-me.
     Exausto de pesquisa,
     caiu-lhe  o vasto engenho
     como simples papel.
     A cola se dissolve
     e todo o seu conteúdo
     de perdão , de carícia,
     de pluma , de algodão ,
      jorra sobre o tapete,
      qual mito desmontado.
      Amanhã recomeço.
Dedicatória
Poema um dia dedicado
àquele que perturba  meu sono
porque não está a meu lado
mas que mesmo assim
vive ainda aqui
a acompanhar meus passos
completamente descompassados
 (by me)

terça-feira, 28 de junho de 2011

InVerno


my car window view


Azules

la muerte es azul,
de azules de cielo lleno de  nubes
y soles de amaneceres de  un verano
tan bello como hoy,
lleno de mariposas y flores.
a mí la muerte no me asusta,
sé que un día llegará
y eso  no me entristece.
lo que me asombra es vivir
todos los años que todavía tengo
sin tenerte a mi lado.
sin tus ojos, tus brazos
y abrazos.

 

ainda

Teus olhos me olhando ainda estão aqui
pregados na retina  à ferro,
não adianta fechá-los,
esfregá-los.
olho, insistentemente, pela janela do carro,
asfalto, grama úmida, e o céu cinza do inverno
que chega preguiçoso como eu:
pingos lentos de chuva
brisa modorrenta e cansada
aves  acabrunhadas.
finjo tão bem o esquecimento nos dias ensolarados
que mesmo eu acreditei que teus olhos não estavam
mais aqui.
tenho que aprender a esquecer mais rapidamente
tudo aquilo que nunca aconteceu,
o teu peso
o teu cheiro
e o teu gosto, entre o salgado e  o amargo,
invadindo minha boca num jato
na manhã a teu lado.