sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Saudades de Nelson Rodrigues...

 ... que neste ano teria 100 e que, com certeza, ainda nos encantaria muito com seus absurdos cheios de verdade e poesia.


A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.
Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

de Nelson Rodrigues

Arte e Crítica





A beleza que se faz muito feia.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Carrossel


Entender a alma humana é algo realmente difícil, quiçá impossível mesmo, já que nós próprios não entendemos completamente o famigerado espírito que nos habita. O que passa dentro de nós, sob nossa pele, debaixo de carne, músculos e ossos, muitas vezes foge ao que acreditamos ser certo e lógico; foge daquilo que esperamos de qualquer pessoa e, mais ainda, de nós mesmos. Parecemos parvos aos nossos olhos ao ver que, apesar de tudo o que sabemos depois de tanto visto e aprendido nesta vida, ainda somos tão capazes de atos e sentimentos pueris. Ainda somos completamente capazes ao erro, à ingenuidade e à crença desmedida em nossos devaneios, sonhos e afins.
Contudo, e apesar da ciência deste fato, passamos a vida a tentar encontrar no outro uma alma que não cometa tais gafes terríveis. Como se estes fossem defeitos alheios, como se estas fossem gafes mesmo.  Criticamos esposas e filhos, maridos e amigos, nossos pais e irmãos por suas fraquezas d’alma como se fossemos cruéis senhores de uma razão que, a bem da verdade, não existe. E, para mim, dúvidas fundamentais aparecem cá na cachola: Quando nos tornamos juízes daqueles que mais amamos na vida? Porque julgamos tanto aos outros ao passo que deveríamos tentar entendê-los?
Como somos incrivelmente capazes de não apoiar e ajudar as pessoas mais importantes em nossas vidas simplesmente porque achamos que elas estão erradas? E, ao invés de oferecer nosso colo, ouvidos e carinho, preferimos o julgo, a bronca e os gritos como se estas fossem ferramentas mais eficazes que o amor. Pois, não o são. E cá vai um lembrete para todos nós: somos tão ou mais capazes do que qualquer  um no que diz respeito a cometer erros.
Muito para além de qualquer argumento e razão, creio mesmo que devemos perceber que toda a graça que há em cada um de nós reside em nossos “defeitos de fabricação” que nos tornam únicos. Não fossemos capazes dos absurdos que apenas cada um de nós é capaz, e a vida seria muito chata para todos nós. Como nos apaixonaríamos por alguém sem as maluquices que somente ele ou ela sabem fazer? Como nos sentiríamos necessários sem que os amores de nossas vidas precisassem de nosso apoio aqui ou ali? Como riríamos tanto sem as palhaçadas, os erros e as gafes daqueles que trazem às nossas vidas a alegria que sozinhos jamais poderíamos ter?
Pois, resta-nos ver que errados mesmo estamos nós quando nos esquecemos de que estamos aqui para ajudar antes de, simplesmente, julgar. Não acham? Vamos, por tanto, começar este ano com olhos mais caridosos e inteligentes, mais compreensivos e amigos, mais amorosos e fraternos, e deixemos para os juízes de direito o ato tão difícil e, muitas vezes cruel, de julgar o que é certo ou errado nesta vida.

Um abraço e um beijo desmedido e completamente irracional para todos vocês; amores da minha vida.

Teus Olhos... (meus olhos)



Teus olhos têm uma cor
de uma expressão tão divina,
tão misteriosa e triste.
Como foi a minha sina!!!

É uma expressão de saudade
vagando num mar incerto.
Parecem negros de longe...
Parecem azuis de perto...

Mas nem negros nem azuis
são teus olhos meu amor...
Seriam da cor da mágoa,
se a mágoa tivesse cor.

Eu ...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Poemas de Florbela Espanca (uma menina também)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Para sempre

Espero-te

Espero-te
Quero-te caindo em mim,
 chuva grossa e pesada,
úmida realidade que alimenta
as possibilidades de minha insanidade.
Apesar de querer-te tão imediatamente
quanto possa o pensamento conceber,
espero-te com lenta ansiedade.
Nesta deterioração inerente a todo ser
guardo-te
aguardo-te
resguardo-te
com meus pés no presente
e a mente muito além.

Meu Senhor

Quis fugir de ti, meu conquistador
fugir da tua língua metálica
de tuas ásperas consoantes ressoantes
de tua sonoridade pragmática
de teu silêncio por mim.
Pensei-me capaz de esquecer
Esquecer-me de meus sentimentos
de meu desejo atlântico e imoral
de meu inadequado amor de besta
de minha paixão por ti.
Mas, como se pode esperar que
a comum mariposa
tenha forças para virar as costas para a luz
de uma estrela?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Luto


Com as mãos nuas apertei-lhe
o pescoço
com  toda a força, a dor e o medo
que conheço.
Apertei até que parasse de gritar,
até sufocar todos os seus sonhos,
fantasias
e desejos.
Assim morreu minha alma,
estrangulada por minhas mãos.
E o  coração tornou-se músculo,
e os olhos tornaram-se mecanismos
sensíveis apenas à luz,
e a pele passou a ser apenas um
órgão que protege a carne da gente.
Sigo oca pelo mundo
num luto eterno
pelo meu amor
que morreu.