terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
domingo, 31 de janeiro de 2016
TransBrasil
TransBrasil
Por algum motivo
que nos foge à compreensão, um defeito de fabricação do protótipo humano quiçá,
nos interessa a vida alheia como não deveria ser. Sem atinar nos porquês desta
mania tão estéril, para além da razão primeira pela qual gostamos de comentar a
vida dos outros, me parece que a falta de vida na nossa própria vida faz mesmo com
que espichemos olhos e metamos narizes onde não somos chamados.
Este hábito feio
e sem fundamentos alimenta a nossa curiosidade em saber uma porção de coisas
que não nos dizem respeito e que, jamais à tarde, farão diferença d’alguma
relevância em nossa existência. O porquê de sermos tão ávidos por nos
intrometer na vida dos outros, apenas Deus, creio eu, um dia poderá nos
segredar. Entretanto, tenho cá para mim que este é um teste no qual,
desavergonhadamente, não passamos. Uma armadilha para checar se a humanidade já
aprendeu o que vem a ser um ser-humano. Pois, falhamos tristemente.
Claro que há
intromissões muito distintas e que têm reflexos muito diferentes na sociedade e
na condição do indivíduo inserido nela. Há, por exemplo, a curiosidade parva de
alguns pela vida de ricos e famosos que nada de útil produzem, produziram e/ou
irão produzir em toda sua vida, mas isso nada mais é do que aquilo que em si
mesmo encerra: uma tremenda parvoíce de quem tem tempo de sobra.
O problema
torna-se muito sério, entretanto, quando imaginamos que temos o direito de
exigir que as pessoas se comportem de uma determinada maneira e que podemos
ditar, tal Deuses supremos da sabedoria, o que é certo fazer ou ser nesta vida.
Pois, não temos, já que nunca nos foi dado, o direito de dizer como as outras
pessoas devem ou não ser. Temos sim o livre arbítrio, que nos confere o poder
de fazermos as nossas próprias escolhas e o dever de respeitar as escolhas
feitas pelos outros.
No último dia 29
tivemos o dia da Visibilidade Trans para lembrar-nos de que os direitos civis de
cidadãos brasileiros transgêneros não são respeitados cotidianamente apenas
porque eles decidiram exercer um direito que é inerente à condição humana: usar
seu livre arbítrio para decidir quem eles são.
Apesar de soar
estranha a afirmação de que alguém corre risco de vida apenas por decidir de
quem ela gosta, quem ela é ou como ela vai se vestir hoje, esta é uma realidade
sombria de um país que se crê muito mais gentil e carinhoso do que ele
realmente é. Pois, o Brasil, que é um país violento para todos nós, mostra suas
garras de maneira mais feroz contra alguns de nós apenas porque somos como
somos: por nossas crenças, nossa pele, a quantidade de dinheiro que guardamos
no banco e carregamos na carteira, por nossa opção sexual, e etc. e tal.
Não sei se há
muito a comemorar e se podemos dizer que a situação tem melhorado, já que os
índices de violência têm crescido contra homossexuais e transgêneros; como
contra quase todo cidadão brasileiro. Porém, é fato que todos os dias muitos
meninos e meninas corajosos colocam a cara na rua e não deixam mais suas opções
trancadas em armários. O jovem
brasileiro não se esconde mais, como se escondia quando eu era uma menina, e isso
é muito bom, mesmo; de verdade.
Basta agora que
todos nós compreendamos o nosso papel, que é bem simples e fácil, nesta estória:
Nós temos que respeitar e lutar, todo santo dia, pelo direito de cada um.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Chico e Tom (1983)
Choro Bandido
Chico Buarque
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Naufrágios
Naufrágios
De passo apressado passo pelo homem agachado no meio da rua,
estranho, atrás de uma mala negra
com rodas estáticas;
estancadas.
Alça estendida feito antena
a captar toda a grandiosa indiferença dos carros que passam
velozes e
das gentes que caminham lentas; cegas.
Rosto em pânico, desfigurado,
o homem de joelhos se agarra à mala tal náufrago
como se toda a sua vida dependesse da minúscula balsa.
Como se toda a sua vida ali residisse,
em poucos centímetros quadrados de lona e plástico.
Passo de carro com minhas próprias preocupações
e vejo o homem em pânico agarrado a sua mala preta no meio
da rua
pelo retrovisor do carro,
mas não paro.
E me afogo, desde aquele segundo,
em meu próprio egoísmo medroso e apático.
Eu naufrago.domingo, 24 de janeiro de 2016
João (Parte 3 - Final)
João
Parte 1
Assim que dobrou
a esquina, João percebeu que havia algo de errado. Apesar de não conseguir
distinguir o que lhe causava aquele estranhamento, ele sabia que alguma coisa
estava fora do lugar. Mais do que um fato, um sentimento o atingiu e, por isso,
ele diminui o passo na avenida cheia no centro da cidade.
Esquecera a
carteira; talvez. Buscou-a na mochila cinza que ele carregava, displicente, no
ombro direito. Não. Ele não tinha esquecido a carteira, nem o telefone, nem
mesmo seu caderno de anotações. João gostava de escrever. Escrever era uma
terapia e, papel e caneta estavam sempre à mão. Caderno azul e caneta preta.
O que era aquele sentimento então? Bobeira, pensou ele. Continuou seu caminho em direção ao trabalho na rádio e tudo lhe parecia normal. As pessoas caminhavam apressadas, os carros abarrotavam as ruas, fazia muito frio num dia cinza de inverno e a manhã passava rotineiramente. Chovera muito na noite anterior e ainda agora ele podia sentir a umidade nos ossos. Que dia gelado, pensou.
João já descia as escadas do Metrô quando ele se lembrou: Hoje é dia 27, é isso. Por onde andará a Ana? Há mais de um ano não nos falamos, e já se foram tantos anos depois daquele maio. Ana...
Um homem esbarra
em João e lhe interrompe os pensamentos. João balança a cabeça jogando para
fora as tais bobeiras e continua seu caminho. O dia será cheio e ele não acha qualquer
razão para se lembrar de Ana. Esta é uma estória que já acabou há algum tempo;
há um bom tempo. A vida é outra e há outras coisas a fazer, outras pessoas.
O trem chega à estação, lotado, e João suspira resignado. Não há o que fazer, ele precisa estar na rádio em meia hora. O homem se espreme entre tantas pessoas num pequeno espaço, encostado ao lado da porta no final do último vagão. A porta se fecha e o trem sai.
João olha
distraído para frente e seus olhos se impressionam. Alguns metros à frente,
sentada num banco a ler, está Ana. Os cabelos mais curtos, ela está menos magra,
talvez; com um vestido de inverno que João nunca havia visto. Ana...
Parte 2
Ana significara
tanto e tinha sido tão pouco no final de todas as contas. Mais sonho e desejo
do que realidade, mais o querer de João do que alguém a quem ele queria
realmente; profundamente. Ana tinha sido canções melosas em excesso; noites mal
dormidas à espera de sinais de que ela ainda estava ali, com ele. Ela era ter o
coração acelerado muito para além do costumeiro num descompasso que o
incomodava. João já não tinha certeza se amara Ana tão verdadeiramente ou se
ela era apenas o seu desejo de que a vida fosse mais do que o cotidiano. Sua
necessidade do poético e do fantástico.
A rotina agora era mais tranquila e melhor, a vida mais segura e sensata tão cheia de sentido comum. Pensou o rapaz. Sim, a vida estava melhor para ele. Não havia mais os disparates daquele amor sublime, de um sentimento maior e inexplicável, da paixão. Para que serviam as paixões afinal; para nada. Apenas para que nós percamos a razão e não controlemos mais o que sentimos e o que pensamos. Pensamento fica turvado com tanta emoção, a voz embarga e os olhos enchem d’água. “Para quê?” Resmungou, para si mesmo, o João escondendo seu rosto atrás de outros rostos para não poder ser visto por ela.
Melhor assim. Melhor o amor tranquilo que não nos ameaça e que quando acaba não deixa grandes marcas. Aquele que como começou termina; aquele que simplesmente passa. Agora João era dono de sua vida e de seu nariz sem assombros. Agora ele tinha uma vida tranquila e era isso que ele queria: a tranquilidade dos dias organizados, padronizados e dentro do seu controle total.
João se escondeu porque sabia que era aquilo que ele deveria fazer; o que qualquer um de bom senso faria. Ele estava bem. Bem, mas incomodado com algo, João permaneceu escondido das vistas do mundo no final do vagão do metrô por algumas estações. Ele não compreendia muito bem o que o incomodava tanto. O medo de falar com Ana talvez. Talvez esse seja o mesmo medo que o congelou tantas e tantas vezes, aquilo que o impediu de arriscar-se e dizer, sem censura, tudo o que se passava dentro dele. Sentir demais o assustava. A vida não era assim e na verdade todos nós sabemos que estes amores eternos e estes sentimentos rasgados acontecem apenas nos filmes e nos livros baratos. Um homem e uma mulher não ficarão jamais juntos para sempre por amor. Para isso existem contratos firmados ou não em cartório, mas ainda assim contratos. Acordos para um bom viver pacato.
Ana fechou seu livro e saiu do metrô, a duas estações do destino do rapaz, sem se aperceber que João estava no fundo do vagão. Ela estava linda. Pensou João. Continuava linda aos olhos dele como sempre. Ana era perfeita demais para ele, era tudo o que ele sempre quis e, como tudo que é perfeito demais, ela não podia ser real. Ana era uma farsa.
Alguns minutos
depois, mudo e tão frio como o dia, João saiu do fundo do vagão do metrô e
ganhou a rua. O dia estava cinza e voltara a chover, caia aquela chuva fina e
gelada dos dias de inverno que parecem não ter fim. João acendeu um cigarro
para espantar todo o frio e apertou o passo para o trabalho como se o tempo
fosse urgente demais. João fumava a sufocar, como tantas vezes antes, as suas
lágrimas. João caminhava.
Parte 3 (final)
Ana vira João distraído entrar no vagão a
ouvir sua música; preocupado com suas coisas. Nesses meses todos, esta não era
a primeira vez que o via no metrô. Eles viviam no mesmo bairro paulistano e os
encontros inesperados e indesejados acabavam por acontecer, e Ana não sabia
muito bem o que sentir nestes momentos. Ela sentia vontade de correr em direção
a ele e abraçá-lo. De dizer que tudo estava errado como estava; que assim não
podia ser. Ela queria mostrar-lhe que o Mundo tinha virado de ponta cabeça
desde o dia em que disseram um ao outro adeus.
Ana gostava de vê-lo nas manhãs no metrô como quem via um antigo e amado filme porque naqueles poucos e parvos instantes as saudades dela arrefeciam-se um pouco. Ana o amava, sem compreender o porquê daquilo. Contudo, ela sentia e sabia que não falaria mais com ele, e sempre se escondia atrás de seus livros e revistas, atrás de ombros que ela não conhecia, quando o via entrar.
Ela sabia que não havia motivos para falar com João; nem sequer para tentar qualquer mínimo e descuidado diálogo. Ela tinha medo de suas palavras tanto quanto de seu silêncio indiferente, pois, estava certa de que aquele sentimento, que ainda inundava veias e artérias, existia e persistia somente nela. Ana sentia-se uma personagem na Quadrilha de Drummond com sua ciranda onde as mãos perdem-se no vazio... A vida era mesmo uma sucessão de encontros ao acaso e desencontros propositais.
Ana levantou-se e saiu do vagão do metrô para respirar o ar frio da rua alguns instantes antes do choro. Ela não podia chorar ali porque, então, ele a veria e... E se ele a visse, e se ela se soubesse vista, todas as suas ilusões e suas esperanças cegas teriam que ser mortas. Sim, elas morreriam assassinadas pela indiferença num vagão lotado do metrô e, certamente, Ana não saberia mais como seguir em frente. Ela não sabia viver sem seus sonhos, crenças e fantasias e João... João era a sua fantasia mais verdadeira.
Com seus óculos
escuros e olhos inundados, Ana não conseguia segurar o choro. Ana caminhava.
Quadrilha
Carlos
Drummond de Andrade
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava
Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para
o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou
para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J.
Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
sábado, 23 de janeiro de 2016
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
The Same
The Same
I’m brokenhearted
just because that is the way
it should
be.
Me without
you.
You without
me.
And the
World keeps on going around as if
everything were
the same.
And it is,
for sure.
While to me
(in my twisted point of view of
how this
whole story should be) nothing is right
cause this
is not the end I believed in.
Now you are
another man wearing the same boots,
so
different that sometimes it is really hard for my eyes
to see it is you in front of me.
to see it is you in front of me.
I am pretty
different too. So different that in a glance
in the
mirror
(in the same
old loo where a tiny black spider lives)
I do not
recognize myself. That woman is not me and
I do not
know if, one day,
I will get
to the conclusion about who
she is.
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