quinta-feira, 25 de agosto de 2016
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Pedaços de Clarice
Frases soltas de uma mulher atemporal...
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do
que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar
de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve
morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a
frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora
de minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você
enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que
nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma
também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for
preciso.
Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece
como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer
entendimento.
Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem
leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo.
Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar.
Grande responsabilidade da solidão.
Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não
começamos pelo começo. Já era amor antes de ser.
Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente:
excruciante.
Perder-se também é caminho.
Gosto do modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo
que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.
domingo, 21 de agosto de 2016
A Felicidade
A Felicidade
Todos sorriem nas fotos e à
distância a felicidade é possível sem se saber o que acontece nas horas
escondidas, nos fatos não narrados. João fuma seu cigarro à janela d’uma tarde úmida
de domingo. Os filhos saíram para brincar com os amigos e a mulher assiste na
TV a qualquer coisa que pouco, ou nada, lhe interessa. João pensa no que lhe
incomoda.
O que lhe incomoda mais é o não
saber bem o porquê deste sentimento cinza e úmido que, volta e meia, o acorda
nas horas de silêncio. João se inunda nestes momentos sem palavras; momentos
cheios de pensamentos e sentimentos de uma força incompreensível. Por quê? Ele tem
tudo: duas crianças as quais ama mais do que poderia crer, uma boa companheira,
um trabalho que lhe dá prazer, amigos para os copos e algum dinheiro para as
coisas desimportantes da vida. Nada lhe falta; verdade. Então, por que há
dentro dele esta tremenda falta de algo cujo nome próprio ele não pode definir?
Na rua passam caminhando algumas
pessoas. Homens a conversar, casais de mãos dadas, crianças apressadas. A vida
passa regularmente, tranquila e feliz, da janela de seu apartamento no segundo
andar de um prédio antigo. Anos 50, 60 talvez. João rói as unhas das mãos e
acende o segundo cigarro. O certo era parar de fumar, ele pensa. Tenho dois filhos
e a saúde já não é a mesma que há vinte anos; certamente.
Uma vontade grande de sair se
apresenta. Sair pelas escadas abaixo sem dizer nada a ninguém. Sair sem destino
e direção. Sair. João morde o canto de seu dedo anular direito um pouco forte
demais. O sangue escorre. Que merda! Pensa
ele. Isso vai doer-me amanhã. E amanhã há muito que ser feito. Decisões a
tomar, números, ensaios. João se lembra de que há muito para ler, para estudar.
Contudo a concentração e o foco andam um tanto turvos nos últimos dias; nos
últimos meses. Difícil concentrar-se e, talvez, o melhor fosse mesmo recorrer a
um médico. Deve haver drogas para isso. Deve haver uma droga qualquer para tudo
isso.
João ouve a voz da filha vindo da
rua. Ela e seu irmão correm na calçada com os amigos sem qualquer adulto por
perto e, apenas nesse instante, ele se dá conta de quão grande está sua menina.
Dez anos já! Como pode ser isso? O que foi que eu deixei para trás? João apaga
o cigarro e sai da janela.
Vou descer um pouco e ver os
meninos. Grita João para a sua mulher. O mundo silencioso adormece.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
A BorBoLeTa
A BorBoLeTa
A boba borboleta bamboleia iludida pela luz tênue
das palavras do poeta.
Sol artificial e frio feito de ideias repletas de sentimentos,
Ideias d’alma.
Palavras furtivas,
reticentes
e esguias
dançam diante dos olhos da borboleta;
pequenos olhos d’água que ao se emocionarem
transbordam.
As palavras fazem tanto sentido para a menina e por isso
são as mais belas já ouvidas na vida.
(A borboleta sabe que as palavras não foram pensadas,
ditas ou escritas
para ela)
Voa iludida ao redor do poeta a encantada borboleta
em busca de sentir o verdadeiro calor
do seu sol de mentira.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Minha Saudade
Minha Saudade
Saudade não tem forma nem se conta,
é imensurável, amorfa,
gigantesca.
Grão de areia no canto dos olhos,
nó no estômago, buraco que com o tempo vai ganhando tamanho
n’alma,
madeira roída por broca silenciosa.
Saudade não tem corpo nem peso,
mas pesa feito chumbo nos dias de olhos marejados
e lembranças bonitas.
Saudade não tem gosto certo,
pois ao mesmo tempo que amarga a boca
adoça o peito.
Saudade, minha companheira, abraço-me contigo
e sozinha não sigo;
meu anjo particular.
À minha mãe que há um ano ganhou asas e tornou-se meu anjo particulas.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Para Sempre
Poema escolhido pelo meu pai para o dia de hoje.
Dia que a saudade se agiganta e, feito praga, pelo peito alastra
Saudades de ti, Mima.
Para Sempre
Carlos Drummond de Andrade
Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho
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