segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pedaços de Clarice

Frases soltas de uma mulher atemporal...




Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo.

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão.

Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser.

Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excruciante.

Perder-se também é caminho.

Gosto do modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

domingo, 21 de agosto de 2016

A Felicidade





A Felicidade

Todos sorriem nas fotos e à distância a felicidade é possível sem se saber o que acontece nas horas escondidas, nos fatos não narrados. João fuma seu cigarro à janela d’uma tarde úmida de domingo. Os filhos saíram para brincar com os amigos e a mulher assiste na TV a qualquer coisa que pouco, ou nada, lhe interessa. João pensa no que lhe incomoda.

O que lhe incomoda mais é o não saber bem o porquê deste sentimento cinza e úmido que, volta e meia, o acorda nas horas de silêncio. João se inunda nestes momentos sem palavras; momentos cheios de pensamentos e sentimentos de uma força incompreensível. Por quê? Ele tem tudo: duas crianças as quais ama mais do que poderia crer, uma boa companheira, um trabalho que lhe dá prazer, amigos para os copos e algum dinheiro para as coisas desimportantes da vida. Nada lhe falta; verdade. Então, por que há dentro dele esta tremenda falta de algo cujo nome próprio ele não pode definir?

Na rua passam caminhando algumas pessoas. Homens a conversar, casais de mãos dadas, crianças apressadas. A vida passa regularmente, tranquila e feliz, da janela de seu apartamento no segundo andar de um prédio antigo. Anos 50, 60 talvez. João rói as unhas das mãos e acende o segundo cigarro. O certo era parar de fumar, ele pensa. Tenho dois filhos e a saúde já não é a mesma que há vinte anos; certamente.

Uma vontade grande de sair se apresenta. Sair pelas escadas abaixo sem dizer nada a ninguém. Sair sem destino e direção. Sair. João morde o canto de seu dedo anular direito um pouco forte demais. O sangue escorre.  Que merda! Pensa ele. Isso vai doer-me amanhã. E amanhã há muito que ser feito. Decisões a tomar, números, ensaios. João se lembra de que há muito para ler, para estudar. Contudo a concentração e o foco andam um tanto turvos nos últimos dias; nos últimos meses. Difícil concentrar-se e, talvez, o melhor fosse mesmo recorrer a um médico. Deve haver drogas para isso. Deve haver uma droga qualquer para tudo isso.

João ouve a voz da filha vindo da rua. Ela e seu irmão correm na calçada com os amigos sem qualquer adulto por perto e, apenas nesse instante, ele se dá conta de quão grande está sua menina. Dez anos já! Como pode ser isso? O que foi que eu deixei para trás? João apaga o cigarro e sai da janela.


Vou descer um pouco e ver os meninos. Grita João para a sua mulher. O mundo silencioso adormece.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A BorBoLeTa



A BorBoLeTa


A boba borboleta bamboleia iludida pela luz tênue

das palavras do poeta.

Sol artificial e frio feito de ideias repletas de sentimentos,

Ideias d’alma.

Palavras furtivas,

                      reticentes

e esguias

dançam diante dos olhos da borboleta;

pequenos olhos d’água que ao se emocionarem

transbordam.

As palavras fazem tanto sentido para a menina e por isso

são as mais belas já ouvidas na vida.

(A borboleta sabe que as palavras não foram pensadas,

ditas ou escritas

para ela)

Voa iludida ao redor do poeta a encantada borboleta

em busca de sentir o verdadeiro calor

do seu sol de mentira.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Minha Saudade





Minha Saudade

Saudade não tem forma nem se conta,
é imensurável, amorfa,
gigantesca.
Grão de areia no canto dos olhos,
nó no estômago, buraco que com o tempo vai ganhando tamanho n’alma,
madeira roída por broca silenciosa.
Saudade não tem corpo nem peso,
mas pesa feito chumbo nos dias de olhos marejados
e lembranças bonitas.
Saudade não tem gosto certo,
pois ao mesmo tempo que amarga a boca
adoça o peito.
Saudade, minha companheira, abraço-me contigo
e sozinha não sigo;
meu anjo particular.



À minha mãe que há um ano ganhou asas e tornou-se meu anjo particulas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Para Sempre




Poema escolhido pelo meu pai para o dia de hoje. 
Dia que a saudade se agiganta e, feito praga, pelo peito alastra
Saudades de ti, Mima.




Para Sempre

Carlos Drummond de Andrade
 
Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho