quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Mariposa




A Mariposa

Voa a mariposa de cores pardas ao redor

dos pés de canela

e da luz verde-claro que se põe na janela toda manhã.

Voa a mariposa encantada pelos sons

da floresta,

rio de pedras, vento a brincar com suas folhas,

canto de pássaros tão distantes aos olhos dela.

Voa a tola mariposa que da vida breve

sabe pouco,

e passa seu escasso tempo a admirar o que seu coração

diz ser belo.

O alto e imenso carvalho dono do bosque e do tempo que não tem

olhos para poder vê-la tão pequena.

Diminuta,

voa a mariposa enamorada ao redor da importante e indiferente árvore,

em silêncio e sem ser vista,

até o fim de sua

vida.

terça-feira, 4 de julho de 2017

AMOR...DESAMOR...AMOR...

Uma canção que eu amo amar.





Drão
Gilberto Gil
 
Drão!
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela noite escura

Drão!
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão!
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão
Drão!
Drão!


domingo, 2 de julho de 2017

A nossa Guerra



A nossa Guerra

Um bebê foi baleado na barriga de sua mãe no Rio de Janeiro na última sexta-feira. O menino pequeno teve seus pulmões perfurados e vértebras lesionadas por estilhaços de uma bala antes de nascer. Arthur, um bebê de 39 semanas de gestação atingido por uma bala perdida, corre risco de morte.  E isso é tão assustador para mim que me paralisa; faz-me sentir mais uma vez uma vontade descomunal de carregar a todos que amo para um lugar muito, mas muito longe daqui.

Arthur e sua mãe são mais duas vítimas da violência brasileira, uma realidade que beira ao caos e que dispensa um detalhamento de seus números para quem vive aqui, pois, a sentimos todo santo dia. A violência no Brasil ultrapassa a todo e qualquer parâmetro aceitável de um país que se diz em paz. Não estamos em paz. Estamos em guerra. Uma guerra um tanto mais silenciosa do que aquelas que são claramente deflagradas, contudo, e mesmo assim, uma guerra cruel.

Cruel porque todos se sentem ameaçados e porque verdadeiramente ameaçados sentem-se, e estão, aqueles que menos podem se defender: os mais pobres e os pequenos, as crianças. Morrem crianças sem armas e morrem também as crianças armadas. Um estudo divulgado em 2016 mostra que o número de mortes por assassinato supera a todas as outras causas de morte quando falamos de crianças e jovens nesse país. E aqui cabe assinalar um número: em média 29 crianças e adolescentes são assassinados por dia em nosso país.

O brasileiro não caminha tranquilamente na rua a qualquer hora do dia, tem medo de parar nos semáforos e não se sente muito à vontade em lugar algum. Na praia, nos ônibus, nas escolas, em lojas, em casa; nas comunidades e atrás de muros altos de condomínios... Seja lá onde for, sentimo-nos inseguros. Há balas perdidas diárias, sequestros relâmpagos, assaltos, assassinatos, estupros coletivos ou não, arrastões, tiroteios com armamento pesado, e o medo de uma violência cada vez mais comum entre todos nós: a violência preconceituosa e gratuita. O mito de um país alegre e gentil é uma terrível falácia, no Brasil vivemos em guerra.


terça-feira, 27 de junho de 2017

Dois



Dois

Somos dois,

um par que rima, nascidos para o bolero dramático,

descompassado.

Um para cá,                                                                                      o outro

                                       para lá.

Peça de teatro com menos de um ato:

a puta e o preto,

belo amor inesquecível que não terá fim, pois nunca teve

seu começo.

Ode a nossa corajosa covardia!

Boca seca, sem saliva, imóvel grita as palavras que antes

igualmente

não foram ditas. Meus silêncios,

                                                                                                teus silêncios.

Minha loucura e a tua prudência tão bela, santa e poética

dizem mais sobre nós do que toda a prosa e a poesia que sorrateiras

escaparam da tua boca, que sem rumo

escorregaram pelos meus dedos.

Todos os nossos dias somados formam a enormidade de um segundo;

o infinito ínfimo.

Dois.

sábado, 24 de junho de 2017

EL FUTURO ES NUESTRO



El Futuro es Nuestro

Ahora tienen suerte los que nunca tienen suerte
Y los que murieron podrán evitar la muerte
Las cartas me hablan de lo lindo y de lo feo
Tus manos las leo y te cuento lo que veo

Estan son mis predicciones pa' que no nos tropecemos
El futuro es nuestro cuando ya lo conocemos
En el futuro ya no habrá carne de vaca (carne de vaca)
En las granjas ya no quedan ni las gordas ni las flacas

En el futuro comeremos cucarachas como en China
Porque ocupan poco espacio y tienen mucha proteína
El país con más insectos controlará las naciones
Por eso la nueva potencia mundial (¡Será México cabrones!)

Y las mujeres dominarán toda la población
Porque nunca perderán una cabrona discusión
En el futuro los hombres caerán en menstruación
Y nunca nos entenderán aunque tengamos la razón

Los policías racistas seguirán siendo gente mala
Pero con tanto tiro los negros se volverán inmune a las balas
Al final será una raza nueva la que nos represente
Porque los extraterrestres tendrán sexo con la gente

El futuro de este verso es que el coro viene más duro
Yo predigo que en dos segundos brincarán como canguros

[Coro]
El futuro es nuestro
El fu- El futuro es nuestro
El- El futuro es nuestro
El fu- El futuro es nuestro

[Verso 2]
En el futuro yo calculo que tendremos internet en todos lados
Porque naceremos con Wi-Fi en el culo
Los lobos ya no aúllan y los monjes no meditan
Porque los terroristas explotarán la luna con dinamita

En el futuro descubren semen en los evangelios oficiales
¡Y confirman que la biblia fue escrita por homosexuales con desordenes mentales!
Empezando por Mateo (¡Un caos!)
Los religiosos se convierten en ateos

Y baja Cristo del cielo a entregarles amor propio
Y se dan cuenta de que es negro y de que está fumando opio
Y a todo el mundo le da ira, hasta al Papa le dio ira
A los creyentes les dio más porque todo era mentira

Ya el pecado no es pecado, ya no somos pecadores
Somos gente normal, porque normal son los errores
Aunque huela mal, abraza al que tienes al lado
Los que no brinquen ahora se quedarán en el pasado

[Outro]
Hoy es nuestro momento para que el presente evolucione
Lo que siento ahora es lo que siento y que el futuro nos perdone
Hoy es nuestro momento para que el presente evolucione

Lo que siento ahora es lo que siento y que el futuro nos perdone

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A visão



A visão

Ana entrou na rua que não era mais a sua e estacionou o carro preto à esquerda do edifício no número 282, próximo à esquina. Uma árvore baixa, ainda pequena, encobria um pouco o automóvel e impedia que a motorista fosse vista da calçada. A manhã de outono estava agradável; airosa com suas cores delicadas da luz morna de um sol que ainda não despertara completamente. Ana amava as manhãs como esta, de céu azul claro quase sem nuvens, e sentia-se em paz. Quase completamente feliz.

Eram 8h de uma quarta-feira lenta e Ana pensava em tudo que teria que fazer naquele dia enquanto aguardava. Adiantara a saída de casa, não muito longe dali, com a desculpa de que tinha um compromisso de trabalho cedo pela manhã. Mentira, porém, sem remorsos, se despediu do namorado como de costume. Jantariam juntos naquela noite antes do jogo de futebol. Eram muito boas as noites caseiras de quarta-feira.

Ana gostava do namorado, até bastante, apesar de não ter planos claros e objetivos estabelecidos com ele. Moravam juntos há alguns meses e entendiam-se bem. A relação poderia durar muito, para sempre. Ela poderia também acabar no ano que logo vem e nada mudaria; as manhãs de outono continuariam agradáveis e belas para ela e a vida seguiria tranquila.

Todas as quartas essa era a rotina clandestina de Ana. Despertar um pouco mais cedo e sem preguiça, arrumar-se bem para estar bonita, inventar um motivo plausível para a tal saída-fora-de-hora, prometer um bom jantar para antes da partida de futebol e desviar-se de seu caminho usual para ficar parada por alguns minutos, meia hora, numa esquina conhecida da cidade.  Ela sabia que as mentiras não eram coisa boa; mesmo as bobas como essa. Afinal, e no final das contas, ela nada faria para além de olhar. Que mal há em olhar?

Como todos os dias, entre 8h e 8:20h da manhã o portão do edifício se abriu. De camiseta branca e larga, bermudas longas e óculos escuros ele saiu, detendo-se um pouco para uma breve conversa com o porteiro. Ana observou com atenção. Ele estava bem, parecia alegre e bem disposto. Os tênis eram novos, e ele levava seu sorriso largo e divertido; o sorriso mais bonito que seus olhos já tinham visto na vida. Ana sentia tantas saudades das palavras e da voz daquele menino; do seu menino.


João despediu-se do porteiro e seguiu à direita para a estação de Metrô caminhando sem pressa como de costume fazia. Ana observou-o até que dobrasse a esquina. Ele estava lindo; estaria sempre lindo aos olhos dela. Ligou o carro e, apesar do pesar das manhãs de quarta-feira, ela sentia-se bem. Ele estava bem e ela podia seguir tranquila por mais uma semana. À noite haveria futebol.