quinta-feira, 17 de agosto de 2017

30 anos...



30 


São 30 anos sem o meu segundo Carlos.
O primeiro foi Carlitos, o homem que em silêncio
tanto me contou com a poesia que ele escrevia; poemas sem palavras.
O segundo, meu primeiro poeta de veras, foi homem mineiro;
quieto,
        calado.
Poeta que eu colecionei em recortes de jornal,
a construir as capas dos cadernos do colégio junto a bailarinas,
às borboletas e a pedaços de notícias.
Minha realidade misturava-se com poesia num tempo
em que eu ainda me preocupava mais do que tudo com as baleias,
com nossos ensaios,
e esperava que, um dia, Nelson Mandela caminhasse uma vez mais pelas ruas
da terra que era sua.
Admiração de menina por um homem doce e tranquilo
que como o primeiro Carlos,
silenciosamente, com suas palavras escritas
muito me dizia.
Dizia-me tudo do princípio do
Meu mundo e seus Carlos múltiplos.


30 anos sem Carlos Drummond de Andrade








sábado, 12 de agosto de 2017

PAI

Meu pai (Papito!)


Pai

A importância dos pais é subestimada pelos filhos às vezes; muitas vezes. Um pouco porque as mães trazem consigo, e com sua capacidade de gestar seus filhos, algo mágico. Nascemos grudados às nossas mães e os pobres pais tornam-se coadjuvantes em nossas estórias. Às vezes eles sobram na relação, não?

Um pouco porque alguns pais são mesmo um tanto distantes, outros parecem ausentes mesmo. Uns tantos são sumidos. Assim, na maioria das vezes, fica para as mães o papel do carinho e do aconchego em nossas vidas. São elas que nos criam, alimentam e consolam; as mães são nossos ninhos para sempre e desde sempre. Para os pais, em grande parte, ficam as responsabilidades mais chatas. Para eles sobram as tarefas menos gloriosas: dar as broncas graves quando aprontamos, cobrar o nosso desempenho na escola e na vida, ser a fonte das proibições. Ou seja, eles são os seres que têm por obrigação iniciar a maior parte das discussões em tons acima do regular.

Entretanto, as coisas não são bem assim. Não são simples assim.

Aos pais, mesmo nos dias modernosos de hoje, fica em grande parte a incumbência de prover, de proteger, de que nunca nada nos falte. Esperamos, como se fosse lei, que eles se ausentem de casa para que possamos viver bem. Quase como se exigíssemos dos pais um exílio do lar; o desterro deles para nós, os filhos, é um sinal de que tudo vai bem. Pois, quando paramos para pensar, percebemos que esta tarefa, pouco gloriosa à vista dos filhos, é grandiosamente altruísta. Os pais também dedicam toda a sua vida a seus filhos e família como as mães, porém, durante muito tempo não nos apercebemos disso.

Como todos os pais, o meu pai esteve ausente de casa trabalhando por muitas horas do dia. Vários foram os dias em que nem sequer o víamos. Por nós, minha mãe, meu irmão e eu, ele passou grande parte de sua vida dentro de uma fábrica em meio a carros, máquinas e ferramentas a trabalhar até 12 horas por dia. E nada, nunca, nos faltou. Sempre estivemos seguros e tranquilos.

Quando eu era menina e perdia o sono no meio da noite, eu chorava. Chorava para chamar atenção porque não queria estar sozinha. Meu pai e seu sono leve sempre apareciam ao lado da minha cama e por lá ficavam até que eu dormisse outra vez. Décadas se passaram e não me esqueço destes momentos. Se eu vivesse séculos, mesmo assim, eu não os esqueceria. Meu pai sempre esteve e está a meu lado; e meu mundo continua seguro e tranquilo.



Um beijo ao meu Papito, o melhor pai de todos para mim; meu companheiro. Ao meu irmão que é pai também, e dos bons! E aos meus amigos pais que são todos demais!



Feliz Dia dos Pais!!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Mi Mafalda


Mafalda, mi personaje predilecto desde cuando yo todavía no sabía leer. Mi heroína!





quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Palavras do Papito





Mensagem semanal do meu pai para mim. Para o meu Universo feito de palavras.


Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as espécies.


Machado de Assis

domingo, 6 de agosto de 2017

O Jardim



O Jardim

Bate suas asas a borboleta amarela e silenciosa
a voar por entre as flores num dia azul e tranquilo.
O pequeno inseto voa por seu jardim diminuto e dele
faz seu mundo seguro.
Não há nada para ela para além de seus altos muros que foram construídos
com o tempo,
com a indiferença
e com  todo zelo.
Ela o sabe bem, seu pálido mundo adequa-se tão bem à rotina banal
que poderia ser chamado de: o lar perfeito.
Uma ode ao cotidiano sem sustos e sem medos...
Sempre as mesmas flores de cores pastéis,
o mesmo céu sem tempestades,
o mesmo sol morno de outono.
Sem sequer uma visão ou um sonido do sabiá que antes a encantará
a cantar;
o sabiá que ela quis seguir como se com suas asas ela o pudesse acompanhar.
Não podia.
Enamorada, a borboleta se esquecera de que não era ave e pelo sabiá
caiu de amores como se isso fosse cabível. Plausível.
Não o era.
Sábio em seu bosque de carvalhos e segredos,
sempre soube o sabiá, apesar de achar muita graça
das pequenas asas frágeis a segui-lo com tanto empenho,
com clareza da sua natureza tão distinta.
Não passava de um inseto
a pequena borboleta.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Poetas...



Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Fernando Pessoa


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade


Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros


O Último Poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira


Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez… — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Vinícius de Moraes