domingo, 9 de dezembro de 2018

Se Eu Fosse Eu




Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais

Clarice Lispector



segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

TU





Tu
Tulipa Ruiz

Tu
Tudo não passa de um ponto de vista
Toda pessoa que fala e que pisca
Quando o sujeito tá ali
Mesmo no outro você é capaz de sentir

Tu
Quando a gente - tá na diferença
E o diferente não faz diferença
Quando é possível sortir
Tu é total tentativa de coexistir

Tu
Sempre que pinta na história você
E também é tudo que você vê
A gente pode assumir
Tu é o outro do outro que ainda vai vir

Tu
Tania Tais Turmalina Tatu
Tati Tetê Terezinha Tabu
Dorothy Amora Dercy
Tu é palavra importante pra gente aplaudir

Tu é palavra importante pra gente aplaudir
Mesmo no outro você é capaz de sentir
Tu é total tentativa de coexistir
Tu é o outro do outro que ainda vai vir
Tu

domingo, 2 de dezembro de 2018

Dezembro - bye bye 2018



Dezembro - bye bye 2018

2018 não foi um ano fácil, não senhor. Não foi o pior dos anos para mim, e sobre isso tenho toda a certeza do mundo também. 2015 foi o ano mais difícil da minha vida até o momento, apesar de ser o ano do nascimento da minha Vitória e dela ser uma alegria imensa nessa vida. Ela é um azougue de menina pequenina. Amo-a, como amo a todos os meus miúdos: de forma única e com igual intensidade.

Porém, o fato é que em 2015 perdi mais do que deveria ter perdido; mais do que qualquer um deveria perder. Mima foi embora e eu, finalmente e depois de muita teimosia, aceitei que o amor desta vida ficaria para uma outra. Agora é rezar para que isso de reencarnação realmente seja um fato quando chegar minha vez. Sinto muito saudade dos dois, de nossas conversas e da intensidade dos sentimentos que eles traziam para mim. Bom, eu topo pagar para ver quando for o tempo certo sem qualquer medo, apenas curiosidade.

Apesar de não ter sido o ano mais difícil de todos, 2018 tem sido deveras atribulado, cheio de curvas; um senhor dono de altos e baixos surpreendentes. Um ano à la montanha-russa que tem me desafiado e me estressado com todas as suas novidades, com toda a mudança que aconteceu na minha vida, na vida da família e dos amigos, no meu país.

Inesperadamente 2018 provou ser um ano mais longo do que o normal e, pelas minhas contas, deve estar a durar uns 437 dias com direito a poucos domingos e feriados. Por isso, sem arrependimentos, alegro-me com a chegada de dezembro; mesmo sabendo que o tal do 2019 não será mar de águas tranquilas.

O fato é que creio piamente que o próximo ano será um importante passo para frente para todos nós. E espero que sigamos por ele de maneira mais firme e sem muito atropelo. Assim, para variar um pouco, nada de presentes comuns para mim este ano. Já me adiantei e pedi ao Papai Noel um bom bocado de sossego e bons vinhos para os dias intranquilos. Que o Natal chegue!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Silêncio




SiLêNCio


O silêncio invadiu estrondosamente o espaço

ao qual eu chamo

universo

azul e plácido ele reina

e me olha de soslaio enquanto costuro os retalhos

do que fui

não sou mais

não sei mais ser eu mesma e, em silêncio,

me desconheço

te desconheço

e a passos lentos começo reconhecer

a conhecer essa que não sou eu

mas quem, em pouco tempo,

eu serei

invade-me o azul silêncio

oceano

oco