domingo, 26 de junho de 2022

eU

 


eU

 

Não sei ainda exatamente quem sou

talvez o devesse saber

Porém meu mundo é feito muito mais de transformações

do que de certezas

E sei apenas que me conheço e reconheço

mais e mais com o passar do tempo

Percebo que com o caminhar dos anos

começo a estranhar um bocado, mais uma vez,

o passado;

a desconhecer quem fui

Sem muitas saudades do que passou

gosto mais de mim por estes dias

de metamorfose

Nos quais, por algum motivo, o qual não sei bem,

deixei de lado as certezas que comigo andavam por anos

sem sentir insegurança

ou medo

eU Sei

De novo, o novo

chegará

domingo, 12 de junho de 2022

O que será - Milton



Milton Nascimento anunciou sua última turnê aos 80 anos. Ao olha-lo percebo sua fragilidade e tenho a certeza de que algumas pessoas não deveriam envelhecer. 

Milton deveria ser eterno porque, sendo muito sincera, é muito difícil imaginar um mundo sem a voz dela a ecoar. Ele nos encanta; me encanta desde que me sei por gente. Feito o Chico Buarque, que boquiaberto, admira Bituca. 

Afinal, como não pasmar diante da força viva que se sente sempre que Milton canta...


A janela

 


A janela

 

Quantas vezes disse não?

digo não

Quantas vezes ignoro sem pudores

O outro do lado de lá da janela?

 

Nada nos separa

Tanto nos separa...

 

Não sei.

Não sei dizer quantas foram as vezes e

Nem sequer quantas mais serão

Sei apenas que há algo pesado que nasce cá dentro

 

Tanto nos separa

Nada nos separa

 

Adoeço um pouco

Envelheço um pouco

E me estranho enormemente

Do lado de cá do vidro que nos separa não sei bem quem sou

 

Nos separamos

 

Em que momento despi o outro de sua identidade

Deixando de perceber a natureza humana

Da mão que grita

Diante dos meus olhos

Que este mundo pode ser cruel demais?

 

Me separo

Nada nos ampara

Tanto nos separa

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Hiato

 


Hiato

 

Num hiato,

momento ingrato,

instante parado sem tempo algum que passe

num incômodo espaço

pio

Espio o futuro que chega sem pedir licença

Enquanto agarro-me, desmilinguido, por um fio de dedo

parvo

às crenças do passado

paro

sem certezas do que acontece na cena seguinte; sem roteiro

titubeio

perambulo

vago

E os dias sem mim continuam a correr velozes

em direção a um instante

no qual não estou

não sou

 

                                                                                                  fui

sábado, 28 de maio de 2022

PAZ

Sinto, logo existo.

 


Sinto, logo existo.

Latinos são conhecidos em outras terras por sua passionalidade, pela pouca sorte que tem a lógica em várias das questões que nos envolvem. E, tendo a clara percepção de que não podemos partir do pressuposto de que alguma característica específica seja típica de um povo, pois que muito mais a diversidade do que o padrão defini uma nação, sempre tive grande dificuldade em aceitar tal pecha.

Nunca me pensei regida pela emoção, como não percebia no povo ao qual pertenço tal característica. Apesar das maluquices que vivemos todos os dias. Apesar do horror do lado mais cruel desta paixão latina que em sua versão machista mata mulheres todos os dias. Pois que tais fatos me pareciam, e me parecem, muito mais o retrato de uma realidade distorcida por alguns poucos do que uma característica própria nossa.

Entretanto, e muito longe das maluquices de alguns poucos, não há como negar que uma tal fleuma característica de outros povos nos causam, e me causam, grande estranhamento. Como eles conseguem ser tão tranquilos, racionais e pacientes em momentos nos quais já estaríamos, em bom português brasileiro, rodando a baiana a plenos pulmões?

Não sei. Não sei como conseguem e o porquê de eu não conseguir, via de regra, ser assim. Não sou. Nos abraçamos sempre, nos beijamos demais, nos tocamos frequentemente porque carinhos nunca serão demais e são sempre bem-vindos. Falamos alto quando não deveríamos e não é preciso; e alguns nos perguntariam: e é preciso gritar? É sim senhor. As grandes alegrias e as grandes paixões, a festa e a ira não podem para nós serem representadas por tons mais baixos. O volume que nos define será sempre alto, então.

Continuo a pensar que não podemos definir qualquer indivíduo devido ao fato de ele ter nascido em uma determinada família, cidade, país ou continente. Somos individualmente únicos e assim o que nos define serão sempre nossos atos, e não onde nascemos e/ou qualquer outra característica como cor, credo, gênero e etc. e tal.

Contudo, não posso negar que sou verdadeiramente muito menos racional do que me percebia. Ou do que me permitia perceber. E dos amores ao futebol não consigo compreender como alguém consegue ser indiferente ao que acontece ao seu redor. Sinto, e assim sou. Sinto, logo existo.