domingo, 30 de março de 2014
O Mundo dos Covardes
O IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), como todo o universo brasileiro o sabe, divulgou uma
pesquisa que concluiu que 65% dos brasileiros acreditam que toda mulher com
roupas curtas está a pedir para ser estuprada. O que quer dizer que ela é a culpada por qualquer merda que com ela aconteça, não? Bom, pensei em todas as
vezes que já saí com roupas curtas ou decotes e, de coração, não me lembro de,
em nenhuma destas tais vezes, ter querido que um estranho me desrespeitasse ou
violentasse. Não mesmo. Eu não estava a pedir nada disso, apenas vivo num país
quente, tropical, e gosto de usar shorts e vestidos. Só isso.
Pois, por mais ridículo que seja
ouvir um absurdo destes, mais absurdo ainda é que no meio desta gente toda,
destes 65% de todos os iluminados brasileiros, aposto meu braço direito como há
muitas mulheres a erguer suas vozes com a mesma mesquinha e egoísta opinião. Pois
2, nunca imaginei que ainda estaríamos a discutir este tipo de coisas no século
21. Nunca. E vejo, com pesar, que por mais que as tecnologias, as ciências, e
todo mais avancem neste mundo, a nossa alma humana continua a rastejar no
quesito evolução.
Eu sempre soube que vivemos num
mundo de homens, e que a eles o mundo pertence. Nunca me enganei em relação a
isso. Eles mandam. Contudo, aceitar que estes que no mundo mandam sejam um
bando de covardes não é algo que se faça. Isso torna o mundo difícil demais de
compreender. Não acham? Não é fato que se alguém se imagina capaz de governar
tudo que conhecemos este alguém deveria ser capaz de grandes feitos e não das
mais tristes covardias? Bem, eu acho que assim deveria ser.
Pouca coisa me parece mais
covarde do que alguém maior e mais forte a subjugar o outro menor e mais fraco
do que ele. E eu tenho certeza que homem brasileiro algum teria a tal opinião
se nós fossemos maiores e mais fortes do que eles. Não senhor. Assim como
nenhum nazi-branquelo sozinho ataca a ninguém do seu tamanho no meio da rua,
seja ele negro ou homossexual; ou nenhum torcedor fanático, fora de seu bando,
decide assassinar a um rival. Eles sempre atacam em bandos, certos de que a
vantagem numérica lhes garantirá a vitória.
Tenho vergonha de viver neste
país de covardes, de homens, e mulheres, que por sua força física, por suas
crenças tortas, ou pela quantidade de dinheiro que carregam nos bolsos se
sentem melhores do que os outros, e se acham no direito de punir a todos que
são diferentes deles. Eles ainda não sabem, contudo, não são melhores do que
ninguém. Eles são apenas um bando de covardes calcados sobre falsas noções de moral
e de bons costumes sob os quais se escondem e procuram justificar o ódio que
sentem do que não conseguem entender.
E, a respeito da tal pesquisa,
queria apenas saber se estes 65% de brasileiros teria a mesma opinião se a
menina de roupas curtas fosse a filha deles. Algo me diz que não, mas nisso...
Bom, nisso ninguém pensa antes de começar a dizer asneiras por aí. Certo?
quarta-feira, 26 de março de 2014
A Onda
A Onda
E apesar de todos os anos e seus enganos,
as dores ainda chegam ao fundo e transbordam.
E quanto mais força faço para que não haja lembranças
mais alto gritam as memórias irracionais e
desvairadas.
Entorpecidas pela própria força de sua natureza ilusória,
estórias sem fim, sem um final feliz, reescrevem a si
próprias
e dão à luz a um
labirinto de palavras sem saída.
Afogo-me em palavras molhadas,
em montanhas de palavras,
em abismos de palavras,
numa onda assombrosa de palavras que me consomem.
Palavras que de minhas carnes são feitas e,
autofágicas,
devoram-me.
Devoram-me sem nunca poder matar
aquilo que as cria
e as consome e, sem ar, morrem.
segunda-feira, 24 de março de 2014
domingo, 23 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
O Apocalipse da Comunicação Interpessoal
Quem trabalha na área de
informática, como eu, já sabe que o uso de expressões ou palavras inglesas
aportuguesadas é extremamente comum (infelizmente). Um dia ouvi um colega do
meu lado pedindo para eu “updeitar o registro de uma tabela”. Tal frase veio
acompanhada de uma onda de choque, como que um ataque cardíaco ou um acidente
vascular cerebral chamando minha atenção sobre o que eu tinha acabado de
escutar. Apenas para situar aqueles que não são da área de tecnologia, as
ferramentas de desenvolvimento de software são todas em inglês, o que promove o
neologismo que aportuguesa expressões fornecidas pelas ferramentas. “Updeitar”
o registro nada mais é que atualizá-lo, do verbo update em inglês. Não quero parecer
um purista protestando nas ruas o uso de nossa língua como única forma de
expressar. Moro em um país com sua identidade cultural formada por vários povos
e certas expressões são mais do que bem vindas, mas temos que colocar um limite
nisso. Cada vez mais eu vejo a banalização injustificável nos novos vocábulos.
“Vou invoiçar o cliente para o fabricante shippar o produto”. Onde diabos
estamos? Por que não dizer “faturar” (invoice) o cliente, ou mesmo “enviar” ao
invés de adaptar o verbo “ship”? E não para por aí! As aberrações vão além e
prefiro não me estender para não romper outra veia em meu cérebro já
comprometido. Antes nossa preocupação era com concordâncias e gerundismos,
porém a lei de Murphy vem nos provar que “nada é tão ruim que não possa ficar
pior”. Vejo isso como um reflexo de uma sociedade que prefere manter-se na
ignorância, prefere não pensar; ouve funk e obriga os outros ao seu redor a
ouvirem também; que ao invés de ler um bom livro prefere assistir Big Brother
com seus “heróis” que defendem a morte de soropositivos para erradicar a AIDS
(digo SIDA). Passamos pelas reformas (ou quase reformas) econômicas com
Fernando Henrique e sociais com Luis “Lula” Inácio. Agora fico esperando pela
chegada da reforma moral, usando mouse em meu laptop, indo aos Shoppings para
adquirir produtos On Sale; comendo uma carne ao molho barbecue; bebendo sucos
diet. E ao invés de ligar no meu smart-phone, mande seu feedback por e-mail, já
que hoje faço home-office, mas talvez demore para responder, pois tenho que
pagar contas pelo internet-banking, OK?
Obs.: Você entenderia o final se
fosse somente escrito em português?
(“...usando o rato no meu computador
portátil; indo aos centros de compra para adquirir produtos em promoção;
comendo carne ao molho de churrasco; bebendo sucos dietéticos. E ao invés de
ligar no meu telefone móvel inteligente, mande sua retroalimentação por correio
eletrônico, já que hoje trabalho de casa mas talvez demore para responder, pois
tenho que pagar contas pelo acesso da rede de meu banco.”)
Texto do amigo (mais que querido) de longa data,
Luís Fernando Castro Costa.
Obrigada pelo presente!
quarta-feira, 19 de março de 2014
Não é o que não pode ser?
Por estes dias o que mais me
parece certo é que o que não pode ser, às vezes, muitas vezes, é. E se a lógica
já não fazia muito sentido no âmbito daquilo que sentimos, ela anda a perder
terreno naquilo que parecia seu habitat – os fatos e nossas ações.
Se o certo é que deve sempre
haver a tal da razão em tudo que fazemos, estamos mesmo muito perdidos atualmente.
Há quinze dias seria loucura imaginarmos que um avião cheio de gente podia
simplesmente desaparecer sem deixar rastros, como se pudesse se esconder por
detrás de uma nuvem qualquer, no ar. Contudo, e se isso já parecia desafiar a
razão que as coisas devem ter, no último domingo, aqui no Rio de Janeiro, (um
lugar bem mais próximo e real do que nos céus da Malásia), aconteceu algo que
desafia toda a lógica e a razão que qualquer pessoa neste mundo pode conhecer.
No domingo, policiais militares,
à plena luz do dia, trataram uma mulher como se fosse alguma coisa qualquer, um
saco de batatas ou lixo, e a jogaram de qualquer maneira no porta-malas da
viatura que, por um motivo inexplicável também, parecia ter pressa para levar a
tal senhora ferida ao hospital. Difícil crer que no ato houve qualquer intenção
de ajudá-la, de salvá-la. Parecia haver, isso sim, a pressa de se esconder algo
errado, uma falha, um ato grave e equivocado que a tal polícia cometera.
Pois o descaso, a falta de qualquer
pudor humano que os tais policiais deveriam ter, resultou numa das cenas mais
cruéis que já vi nesta vida. Como se estivesse a ver um faroeste à italiana, eu
vi a senhora Claudia Silva Ferreira ser arrastada pelo carro da polícia, presa
ao para-choque traseiro, pelas ruas do Rio de Janeiro por alguns metros. Não queria
vê-lo. Fugi do vídeo e da cena durante toda a segunda-feira, porém, a realidade
impõe-se sempre. Esteja ela plena de lógica ou o seu oposto.
Lembrei-me de uma cena vista há
anos e que ainda me assombra frequentemente. Há anos, vi uma reportagem de como
são feitos casacos de pele e um homem a esfolar um animal atordoado, mas ainda
vivo, que gemia baixo de dor. Chorei. Achei aquela a maior atrocidade que eu já
tinha visto, mas, infelizmente, agora a cena foi superada.
Não importando se a senhora Cláudia
estava já morta ou não, e o quanto ela pôde sentir de tudo o que aconteceu. A
falta de respeito à vida demonstrada por estes brasileiros que deveriam cuidar
da vida humana foi, é, assombrosa; uma atrocidade inexplicável. Uma mulher inocente foi baleada e arrastada
pelas ruas da cidade onde ela morava, e isso ultrapassa qualquer falta de razão
que possa haver nesta vida. Entre tantos absurdos, me parece que o que não pode
ser, é. E a pergunta que me vem à mente é se a única coisa que podemos fazer é
continuar a chorar.
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