Há alguns meses, Gigi entrou no
meu quarto e pegou-me chorando. Eu estava nas últimas páginas de El Amor en los Tiempos del Cólera, e ela
achou estranho isso de alguém chorar porque está a ler um livro. É bem verdade
que sou chorona, eu sei. Mas o final daquele livro, em suas últimas linhas
emocionou-me de forma única, pois, de repente, todos os sentimentos de
Florentino Ariza represados durante as dezenas de anos pelos quais esperou
Fermina Daza, o amor de sua vida, eram meus também. Gabo era genial!
Tanto o personagem, Florentino,
quanto nós (os leitores) sofremos em silêncio e entregues aos nossos destinos
durante todo o livro e, mesmo assim persistimos, seguimos. Seguimos resignados
e ainda crentes por muitas e muitas linhas inconformados com a dureza da
realidade quando, de chofre, o livro revela-se e nos captura. Só então, nas
últimas páginas do livro compreendemos a dimensão verdadeira daquela estória e
nos apaixonamos por ela para todo o sempre; como Fermina por Florentino. E dá-nos
uma vontade insana de começar tudo de novo, outra e outra vez, pois, sentimos
saudades das palavras, das linhas e das letras que ali estão contidas.
"El capitán miró a Fermina Daza y vió en sus pestañas los primeros
destellos de una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio
invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida,
más que la muerte, la que no tiene límites. ¿Y hasta cuándo cree usted que
podemos seguir en este ir y venir del carajo? le preguntó.
Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres
años, siete meses y once días con sus noches.
Toda la vida – dijo."
Hoje, pensando bem, não sei dizer
o porquê de ter demorado tanto tempo assim para ler este livro já que é o
sétimo ou oitavo Gabo que cai em minhas mãos. Sim, gosto de ler Gabriel García
Márquez porque adoro a língua espanhola e porque, a meu ver, ele é um dos
melhores contadores de estórias que eu já li. Suas linhas fluem como flui uma
conversa sem fim. Uma vez começado um de seus livros, mesmo aqueles nos quais
sentimos certo incomodo com o tema ou com os personagens, mesmo assim, não há
como deixá-lo antes do fim. Há em suas estórias e seus relatos, mesmo os mais
realistas como Aventura de Miguel Littin
Clandestino en Chile, a beleza da possibilidade do fantástico, do sublime,
daquilo que existe para além da vida cotidiana e mundana, mas que, ainda assim,
é parte desta. Gabo faz possível a fantasia e nos torna crentes nelas. Gabo é
genial.
Agora, pensando nos porquês de
ter lido El Amor en los Tiempos del
Cólera depois de tanto tempo, vejo que encontrei-me com este livro no tempo
correto de mina vida. Há coisas que apenas o tempo permite-nos ver, perceber e
sentir, e esta é a maior lição que este autor colombiano nos deixou. Como ele bem disse: “Es la vida, más que
la muerte, la que no tiene límites.” Vou sentir muitas saudades de Gabo
e esperar, pela eternidade, para ouvi-lo, uma vez mais, a contar-nos uma de
suas estórias. Gabo sempre será genial!
Nenhum comentário:
Postar um comentário