domingo, 15 de maio de 2016

Pessoas


Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade…

“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.”

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

“Sou do tamanho do que vejo!” Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. “Sou do tamanho do que vejo!” Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. “Sou do tamanho do que vejo!” E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte. Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando-me. “Sou do tamanho do que vejo!” E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

Do “Livro do Desassossego”


Fernando Pessoa

sábado, 14 de maio de 2016

Mia




O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades”

Mia Couto

domingo, 8 de maio de 2016

Dia das Mães



Dia das Mães

Primeiro dia das Mães sem a Mima e o segundo domingo de Maio ganha cores dantes nunca vistas. Porque dia das mães sem mãe é o mesmo que Natal sem Papai Noel e Menino Jesus, o mesmo que Páscoa sem chocolate, igualzinho a jogo de futebol sem gol. Perde-se todo o sentido do evento, não? Bom, quase todo ele.

Pode-se então, imaginar que este seja um dia muito triste, cinza e de ter os olhos vermelhos de chorar para mim. Porém não, ele não é assim. Este não é um dia triste, apenas um cadinho melancólico já que as saudades apertam um pouco mais hoje. Mima não anda mais por cá e isso atrapalha a celebração, contudo isso não faz de mim uma menina sem mãe.  Ela sempre será minha mãe sem importar o que aconteça comigo ou com ela. Sou filha de Dona Odila Jorge Paroli, menina forte como os samurais e os chefes das tribos e que esteve de pé até o seu último minuto neste planeta azul. Mima foi uma doce menina guerreira e tenho muito orgulho dela. Tenho muito orgulho de ti, Mima. Muito mesmo.

Bom, quanto ao dia. Bem, o dia está lindo com um céu azul de poucas nuvens suaves e um mar esverdeado. E eu ganhei de presente neste fim de semana a presença de amigos queridos com direito a muita conversa e passeio de bicicleta pela orla de fortaleza até o Passeio Público sob o sol nordestino. Sempre um pouco mais quente do que deveria, do que eu gostaria. Mas, a vida deve ser bonita, não perfeita.

O fato é que sem a Mima por aqui ando a descobrir mais sobre o meu pai. Nunca conversamos tanto e, principalmente, nunca tivemos as conversas que temos por esses dias. Agora, com a falta dela, sobra-nos mais tempo juntos e estamos mais próximos e mais companheiros já que se estreitam os laços à medida que se amplia a vida. É claro que não teríamos jamais escolhido por vontade própria esta alternativa de futuro. É óbvio que todos nós preferiríamos ter a Mima ainda aqui. Porém, e por não ser uma questão de escolhas, devo dizer que gosto muito desta nova fase da nossa viagem juntos. Tem sido muito bom conhecer mais quem é o meu pai.

Sendo sincera, e para dizer toda a verdade, sinto-me muito acolhida por todos os amigos, minha família dada de presente por Deus, que me parecem mais próximos desde que minha mãe ganhou suas asas. Então, no fim das contas, não há porque chorar de tristeza; não senhor.

Por tudo isso, hoje, na falta da minha mãe, vai o meu Feliz Dia aos Queridos que me ajudaram e me ajudam nos momentos difíceis e que tornam a minha vida melhor e mais divertida. Ao meu pai e meu irmão, às meninas da minha vida: Karin, Ana Paula (sis), Cristiane, Ana Paula (flor) e a Cris (minha comadre); aos meus meninos Marcus, Vagner, Luiz Fernando, Fábio e Fabiano. Aos amigos mais novos, Laice, Fábio, Julie e Gibs. E, principalmente, à Baba que é nesta vida minha mãe 2.



Amo-vos profundamente para sempre.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Passarinha





Passarinha


Hoje és nuvem, todo passarinho que cruza meu caminho,
és as flores, tudo o que há de doce nesta vida
e o cheiro das manhãs de domingo.
Um ser tão completo neste meu vazio de coração partido
onde falta um pedaço, pois faltam os teus passos.
Não estás mais aqui, e não estará porque o tempo passou
e levou consigo todos os minutos que a nós pertenciam.
Estou sozinha.
Então, e assim, agora estás em todos os lugares sorridente e
flutuas, bolha de sabão, colorida na minha mente todo santa dia.
Santa minha, particular e única; mais e mais perfeita à medida que o tempo passa
e afasta de mim todas as rugas, as rusgas,
as marcas fundas que deixamos a ferro da teimosia em nossa rotina.
Em intermináveis conversas por telepatia te conto todos os meus segredos
que não conhecias; meus medos.
Não sabias, mãe, mas sou mais menina do que pareço, do que mereço
e, apesar de todo o tempo, mesmo agora que não sou mais a filha,
sinto-me perdida pelas ruas traçadas com meus pés decididos.
Sinto saudades de ti, dona da minha vida antes de eu ser quem sou;
e queria ter asas para te ver mais uma vez,
minha passarinha.

domingo, 1 de maio de 2016

O País dos Chatos




O País dos Chatos


Desde que a situação político-econômica no Brasil tomou o rumo ladeira a baixo e nós deixamos de ser, mais uma vez, o país do futuro, nós vivemos patrulhados e julgados pela opinião alheia. Vivemos no país dos chatos! Pois, que de um repente temos amostras gratuitas e voluntárias de que vivemos, deveras, num país varonil. Num país varonil, extremado e dominado por cidadãos donos-da-razão maior e superior, quase divina, que estão sempre mais que prontos a nos convencer de que é nossa obrigação ter a mesma posição que eles têm. Pois, não é. Minha posição e opinião nesta vida são minhas, sempre foram minhas e assim serão para todo o sempre amém. Respeito a opinião alheia, contudo, ela não me faz falta para pensar, e vale lembrar que as liberdades de pensamento e de expressão ainda são os maiores bens que temos nesta vida.

E a verdade é que, não importando para o lado da questão para o qual se olha e quem está a defender o quê, faltam as análises mais profundas e fundamentadas da situação político-econômica de nosso país e sobram os gritos de ordem vazios e, em grande parte, falaciosos e desconectados entre si. Somos um povo que grita e, apesar de eu crer piamente que isso é extremamente melhor do que o silêncio,  me faria muito mais feliz ouvir um pouco mais de razão e bom-senso e um pouco menos de emoção e raiva saídos de tantas gargantas.

 Pois, falta muita razão e sobra muito extremismo por trás de tanto barulho e isso nunca é, ou será, bom quando o que se discute é a vida política de uma nação. Não estamos na seara do futebol e, portanto, não cabe aqui a paixão irracional e profunda, não há espaço para as ofensas de baixo calão, não devemos sustentar qualquer uniforme que nos classifique e separe. Não há um inimigo e nem ao menos dois lados claros e definidos nesta estória. Não há mocinhos, mas apenas uma coleção invejável de bandidos mais ou menos graduados por todos os lados.

Quando o que se busca é a democracia e o bem estar social, mesmo que seja esta pálida democracia com a qual estamos acostumados, o bom-senso e o diálogo devem sempre prevalecer. Portanto, e sabendo bem o que eu quero. Quero que as leis valham para todos os cidadãos e que não haja mais tantos privilégios absurdos em meu país, seja para os de esquerda ou os de direita.  Espero que a chatice cesse e que aprendamos mais uma vez a conversar, logo.