Saudade é coisa séria. Algo feito
de uma matéria indestrutível, à prova do tempo e que existe em todo lugar neste
mundo de meu Deus. Sentimento inerente à existência humana, pois não há ser
humano normal que passe a vida toda a desconhecê-la. Com o passar dos anos a
saudade que acompanha-nos, irmã siamesa que brota d’alma da gente, alimenta-se e
cresce à medida que, pela vida, mais e mais gente faz parte de quem somos nós. Como bem disse John Donne: “Ninguém é uma
Ilha isolada... A morte de qualquer homem diminui-me.”.
Sim, apesar de sermos indivíduos únicos,
seres unitários, quiçá sempre sozinhos pelo caminho, somos também a combinação
de todos que fazem, fizeram e farão parte de nossas vidas: nossos pais, filhos,
irmãos, amigos, vizinhos; o menino que conheci numa noite rara e que me pareceu
um amigo de longa data de cara. Daniel tinha um lindo sorriso.
A verdade é que com o tempo vamos
somando pedaços dos outros a quem somos, à la Frankenstein, e construímos uma
vida baseada numa porção enorme de outras vidas que nos fazem uma falta danada.
Então, a falta de tempo de estar com os outros nos chateia, as brigas nos magoam
porque afastam quem queremos bem, os quilómetros que nos separam são uma
sentença de desterro de nós mesmos. Sentimos saudade; muita saudade.
Como todo sentimento, saudade não
pode ser medida realmente. Podemos dizer que é muita ou pouca, eu sei. Porém mesurá-la
com exatidão é ciência que não foi descoberta ainda e, por isso, não é possível
dizer de quem sentimos mais falta. Não existe isso. Como também não é
verdadeiramente possível dizer com clareza a quem amamos mais. Amamos muito a
muitos e pronto; ponto.
Contudo, e porque eu acho
divertido e saudável contradizer a mim mesma, há dias em que uma ou outra falta
aperta mais o peito. Mais do que deveria ser.
Pois, por esses dias ando com uma saudade aguda da Mima; saudades de
dizer oi para ela e poder ouvi-la responder. Saudade de ti, Mima.
Desde muito jovem acostumei-me a buscar
sons novos para meus ouvidos. Novas canções saciam-me a alma, sempre foi assim.
E fossem elas provenientes de músicos muito jovens ou de outros já esquecidos
pelo tempo, clássicas ou futuristas, não me importava. De Mozart a Sex Pistols,
passando por Martinho, Jobim, Kiss, Elvis, Chico, Billie e Elis; tudo me
interessava. Adorava montar as minhas
fitas, conseguir letras de canções e conhecer tudo o que pudesse chegar a mim.
Com a internet abriram-se as
fronteiras e a vida ficou muito mais fácil para nós, ao passo que muito mais
complexa para os músicos que tiverem que reaprender como sobreviver da música. Assim,
em minha missão de vida descompromissada em 2009 tropecei nos Da Weasel e seu letrista e vocalista,
Carlos Nobre Neves, e apaixonei-me.
Para alguém que conhecia apenas
pouca coisa de os Madredeus graças ao cinema, Roberto Leal e Amália Rodrigues,
ouvir as canções dos Da Weasel,
principalmente por suas letras, abriu-me os olhos a um país antes completamente
ignorado. Portugal e sua música existem para mim devido às letras e à voz de
Carlão, e este é um feito, além de inesperado, pra lá de bonito. Afinal, se ouço
e divulgo como posso hoje em dia aos Buraka, aos Orelha Negra, Mariza, Sara
Tavares e muito mais, este é um mérito deste
senhor.
Eclético e talentoso, despretensioso
e curioso, Carlão transformou-se através dos anos e, da mesma forma, sua música
moldou-se aos novos tempos menos sisudos de sua música nacional profundamente
influenciada por beats, ritmos africanos e até, quiçá, por um quê latino e
tropical. Desta feita, o senhor renova-se mais uma vez e lança música para
dançar, leve, de fácil assimilação e que tem um propósito que, apesar de
parecer não tão nobre, tem seu papel fundamental: música também deve ser feita
para que com ela possamos nos divertir a valer.
Nesta semana ganhamos Agulha no Palheiroque causa algum estranhamento para os ouvintes mais fiéis e
antigos de Carlão. Eu sei. Apesar disso, ela agrada por sua leveza, por ser tão
solar e por cumprir o seu papel de maneira muito competente e inteligente. Agulha no Palheiro é música para dançar
e para ser cantada por toda a gente. Como afirma Carlão há anos, ele faz música
para as mais diversas situações, com vibes tão variadas e distintas que fica um
tanto difícil rotulá-lo. Oxalá ele sempre continue assim – uma excelente
novidade constante. Nós esperamos pelo disco novo e por muito mais. Venha ele!
Trecho da Canção Amor, Escárnio e
Maldizer de 2007.
À vontade do freguês, consoante a situação:
temos Amor Escárnio e Maldizer, são os pratos do dia
Ando a sentir-me sem pátria, órfã de
pai e mãe no que tange a minha nacionalidade. Perdida, feito astronauta à
deriva no espaço, numa terra onde dia após dia torna-se cada vez mais difícil para
quase todo cidadão sentir-se confortável, percebo que já não sei mais como
definir a nós mesmos. O que significa atualmente ser brasileiro?
Éramos cordiais, já fomos conhecidos como
um povo feliz e gentil; não? Hoje somos egoístas e avaros, violentos e cínicos.
Somos um grande amontoado de gente à espera do momento no qual possamos, como
diria minha avó, passar a perna em alguém. Hoje, por esses dias que correm,
sinto-me profundamente envergonhada e decepcionada com o país que construímos. Com
o país que somos. O país do futuro, aquele que tinha tudo para ser uma potência
e um bom lugar para qualquer um viver, transformou-se numa terra sem lei; nosso
Bang-Bang à brasileira.
Os níveis de corrupção e ineficiência do
Estado brasileiro clientelista em todas as suas órbitas criaram uma situação
surreal onde, simplesmente, nada funciona como deveria ser. Onde absurdos
ocorrem todo santo dia e já não causam grandes estranhamentos em quase ninguém.
E assim, calejados por tantos disparates, estamos nos tornando um povo
insensível à dor alheia, e isso é muito pior do que ficarmos sem dinheiro. A
mim tem me parecido que estamos perdendo o nosso caráter de vez, não?
Na semana passada no estado do Espírito Santo,
sem policiamento nas ruas devido a uma greve dos policiais militares, cidadãos
comuns participaram de uma onda de saques ao comércio de várias cidades pelo
simples fato de que não havia ninguém para detê-los. O que nos leva a conclusão
de que o brasileiro comum não rouba ao outro brasileiro comum apenas porque tem
medo de ser preso e não porque isso, por princípio, é errado? Somos, de fato, um
bando de aproveitadores imorais, aquele tipo de gente que tira proveito dos
mais fracos, dos que não têm como defender-se, e ponto final?
Nelson Rodrigues, décadas atrás, numa de suas
frases marcantes e históricas afirmou que: “No Brasil, quem não é canalha na
véspera é canalha no dia seguinte.”. Parece-me que não há como contestá-lo por
esses dias e apenas nos resta aceitar. Somos mesmo um bando de canalhas.