segunda-feira, 13 de março de 2017

Coisas de Menina...




Baiana

Baiana cê me bagunçou
Pirei em tua cor nagô, tua guia
Teu riso é Olodum a tocar no Pelô
Dia de Femadum, tambor alegria
Cê me lembra malê, gosto pra valer
Dique do Tororó, Império Oió
A descer do Orum, bela Oxum
Cujo igual não há em lugar nenhum
O branco da areia da Lagoa de Abaeté
Tá no teu sorriso, meu juízo perde o pé
O canto da sereia vem de boa, eu à toa é
Prejuízo, pretinha briso nesse axé

A cabeça ficou louca
Só com aquele beijinho no canto da boca
Louca, louca, louca
Só com beijin', um beijin'
Minha cabeça ficou louca
Só com aquele beijinho no canto da boca
Louca, louca, louca
Só com beijin', um beijin'

Baiana é bom de ter aqui
Na Salvador de cá, Salvador dali
Maria pela mão de mestre Didi
Do sol de escurecer o tom dos Kariri
É o mito em Iorubá, bonito pode pá
Água de Amaralina, gota de luar
Deleite ocular, rito de passar
Me lembrou Clementina a cantar
2 de Fevereiro, dia da Rainha
Que pra uns é branca, pra nóis é pretinha
Igual Nossa Senhora, padroeira minha
Banho de pipoca, colar de conchinha
Pagodeira em linha da Ribeira, eia, Cajazeira
Baixa do tubo tudo, firme e forte na ladeira
Uma pá de cor, me lembrou Raimundo de Oliveira
Meu coração, tua posição, a primeira

A cabeça ficou louca
Só com aquele beijinho no canto da boca
Louca, louca, louca,
Só com beijin', um beijin'
Minha cabeça ficou louca
Só com aquele beijinho no canto da boca
Louca, louca, louca,
Só com beijin', um beijin'

terça-feira, 7 de março de 2017

Noturna



Noturna
 
Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada, em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo, de novo

Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada
Em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo
De novo

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada, em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo, de novo

Não há nada de novo na noite

domingo, 5 de março de 2017

Saudade



Saudade é coisa séria. Algo feito de uma matéria indestrutível, à prova do tempo e que existe em todo lugar neste mundo de meu Deus. Sentimento inerente à existência humana, pois não há ser humano normal que passe a vida toda a desconhecê-la. Com o passar dos anos a saudade que acompanha-nos, irmã siamesa que brota d’alma da gente, alimenta-se e cresce à medida que, pela vida, mais e mais gente faz parte de quem somos nós.  Como bem disse John Donne: “Ninguém é uma Ilha isolada... A morte de qualquer homem diminui-me.”.

Sim, apesar de sermos indivíduos únicos, seres unitários, quiçá sempre sozinhos pelo caminho, somos também a combinação de todos que fazem, fizeram e farão parte de nossas vidas: nossos pais, filhos, irmãos, amigos, vizinhos; o menino que conheci numa noite rara e que me pareceu um amigo de longa data de cara. Daniel tinha um lindo sorriso.

A verdade é que com o tempo vamos somando pedaços dos outros a quem somos, à la Frankenstein, e construímos uma vida baseada numa porção enorme de outras vidas que nos fazem uma falta danada. Então, a falta de tempo de estar com os outros nos chateia, as brigas nos magoam porque afastam quem queremos bem, os quilómetros que nos separam são uma sentença de desterro de nós mesmos. Sentimos saudade; muita saudade.

Como todo sentimento, saudade não pode ser medida realmente. Podemos dizer que é muita ou pouca, eu sei. Porém mesurá-la com exatidão é ciência que não foi descoberta ainda e, por isso, não é possível dizer de quem sentimos mais falta. Não existe isso. Como também não é verdadeiramente possível dizer com clareza a quem amamos mais. Amamos muito a muitos e pronto; ponto.

Contudo, e porque eu acho divertido e saudável contradizer a mim mesma, há dias em que uma ou outra falta aperta mais o peito. Mais do que deveria ser.  Pois, por esses dias ando com uma saudade aguda da Mima; saudades de dizer oi para ela e poder ouvi-la responder. Saudade de ti, Mima.

À Lucy e sua Mamis.



'No Man is an Island'

No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as any manner of thy friends or of thine
own were; any man's death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee.

John Donne


quinta-feira, 2 de março de 2017

O Salto



O Salto

Sempre mais,
mais do que deveria ser,
mais do que pede o bom-senso;
o desprezível bom senso,
sinto.
Sem meio termo, desconheço o valor do que é mediano,
o medíocre,
e espero tudo por inteiro. Cheio e irracional, o verdadeiro prazer.
Mergulho de cabeça no que não conheço, sem cordas de segurança,
paraquedas ou
ideias pré-concebidas do que deveria ser o certo nesta vida,
quero o que desconheço.
E assim espero que comigo mergulhe a todo aquele que me acompanha:
amigos
pares
amores
parceiros...
Lado a lado e sem medo em relação ao que pode vir,
de olhos abertos, quero ver tudo aquilo que um dia ousou existir
pois tudo tem o seu espaço aqui,  em mim.
Entretanto, não é assim que as coisas funcionam regularmente.
Regularmente, para os mais adequados à vida, há um freio instalado desde a fábrica;
item básico na maioria dos modelos.
Um travão n’alma que impede o voo dos sentimentos e
que garante a acomodação ao que manda
o siso (substantivo criado pelo Ministério dos que têm, mais que vontade, medo).
Então, pensando-me acompanhada, pulo sozinha em direção ao nada
para realizar, apenas no meio do salto em meio a imensidão,
que dada à minha
não há nenhuma outra mão.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Agulha No Palheiro (Uma excelente novidade constante)



Uma excelente novidade constante

Desde muito jovem acostumei-me a buscar sons novos para meus ouvidos. Novas canções saciam-me a alma, sempre foi assim. E fossem elas provenientes de músicos muito jovens ou de outros já esquecidos pelo tempo, clássicas ou futuristas, não me importava. De Mozart a Sex Pistols, passando por Martinho, Jobim, Kiss, Elvis, Chico, Billie e Elis; tudo me interessava.  Adorava montar as minhas fitas, conseguir letras de canções e conhecer tudo o que pudesse chegar a mim.

Com a internet abriram-se as fronteiras e a vida ficou muito mais fácil para nós, ao passo que muito mais complexa para os músicos que tiverem que reaprender como sobreviver da música. Assim, em minha missão de vida descompromissada em 2009 tropecei nos Da Weasel e seu letrista e vocalista, Carlos Nobre Neves, e apaixonei-me.

Para alguém que conhecia apenas pouca coisa de os Madredeus graças ao cinema, Roberto Leal e Amália Rodrigues, ouvir as canções dos Da Weasel, principalmente por suas letras, abriu-me os olhos a um país antes completamente ignorado. Portugal e sua música existem para mim devido às letras e à voz de Carlão, e este é um feito, além de inesperado, pra lá de bonito. Afinal, se ouço e divulgo como posso hoje em dia aos Buraka, aos Orelha Negra, Mariza, Sara Tavares e muito mais, este é um mérito  deste senhor.

Eclético e talentoso, despretensioso e curioso, Carlão transformou-se através dos anos e, da mesma forma, sua música moldou-se aos novos tempos menos sisudos de sua música nacional profundamente influenciada por beats, ritmos africanos e até, quiçá, por um quê latino e tropical. Desta feita, o senhor renova-se mais uma vez e lança música para dançar, leve, de fácil assimilação e que tem um propósito que, apesar de parecer não tão nobre, tem seu papel fundamental: música também deve ser feita para que com ela possamos nos divertir a valer.

Nesta semana ganhamos Agulha no Palheiro que causa algum estranhamento para os ouvintes mais fiéis e antigos de Carlão. Eu sei. Apesar disso, ela agrada por sua leveza, por ser tão solar e por cumprir o seu papel de maneira muito competente e inteligente. Agulha no Palheiro é música para dançar e para ser cantada por toda a gente. Como afirma Carlão há anos, ele faz música para as mais diversas situações, com vibes tão variadas e distintas que fica um tanto difícil rotulá-lo. Oxalá ele sempre continue assim – uma excelente novidade constante. Nós esperamos pelo disco novo e por muito mais. Venha ele!

Trecho da Canção Amor, Escárnio e Maldizer de 2007.
À vontade do freguês, consoante a situação:
temos Amor Escárnio e Maldizer, são os pratos do dia
Para acabar de vez com a monotonia
A epifania surge quando a vontade urge
Necessária, ela é forte e voluntária
Música para dançar, para sentir e para amar
Música para lutar, criticar e ponderar
Música para tocar, para revolucionar
Para nos trazer à tona para poder respirar
Vem buscar...



AGULHA NO PALHEIRO (feat. Bruno Ribeiro)
CARLÃO·QUARTA, 1 DE MARÇO DE 2017

 Pára-me o coração,
sem noção da direcção do balcão
a minha ânsia não vê um travão
não digo pão só perdão

Tenho a sensação de não ter chão
tou na tracção de um furacão
Não é atracção, isto é paixão
daqui ao caixão

Ela bate certo
no peito aberto
aponta-me o caminho
num futuro incerto

Baby aproxima,
faço-te uma rima
faço um disco inteiro:
tu és a agulha no palheiro
(aguenta coração) baby aproxima
(aguenta coração) faço-te uma rima
(aguenta coração) faço um disco inteiro
(aguenta coração) tu és a agulha no palheiro

Red bull e um shot
casa tá ao barrote
camarim é camarote
pode ser que ninguém note
Faço o impossível
para isto ser possível
sou irredutível 
nem sequer é discutível
Enquanto o povo dança
o meu olhar alcança
a futura dona da herança
na minha poupança
ela avança
escondo a minha pança
mostro a confiança
que roubei ao segurança

Ela bate certo
no peito aberto
aponta-me o caminho
num futuro incerto
baby aproxima,
faço-te uma rima
faço um disco inteiro:
tu és a agulha no palheiro

(aguenta coração) baby aproxima
(aguenta coração) faço-te uma rima
(aguenta coração) faço um disco inteiro
(aguenta coração) tu és a agulha no palheiro

Meu Deus não sei se consigo
cara séria quando falo contigo
cá por dentro rio como um perdido
mega nervoso faço um pedido
“o teu nome e número por favor”
Levo-te a casa a pé porque tá calor
se quiseres um pequeno almoço superior
posso fazê-lo para ti sem qualquer pudor


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Meninas...




Nescafé

Eu cuspo nescafé e você chora leite
De manhã
Amarro o meu sapato
E tu veste o sutiã

Cadê o nosso amor? me diz onde
Vou correndo pegar o bonde
Que linha liga o teu coração ao meu?

Almoço minha angústia
E tu ri com a cara na tv
Eu tomo um conhaque
E tu fala em ter bebê

Remenda o meu sorriso e, sorrindo,
Me costura mais uma ruga
Desfaz a casa que casa com o meu botão

Me esqueço em pensamentos
E tu cobra um pouco de colchão
Respondo qualquer coisa
E tu solta a minha mão

Coloca teu calor na estante
Vem, se deita tranquila e dorme
Em que sonho eu sonho meu sonho igual ao teu?

Que linha liga o teu coração ao meu?
Em que tronco encontro talhado o meu nome e o teu?

Em que sonho eu sonho o meu sonho igual ao teu?

O meu coração ao teu, teu nome talhado e o meu

Meu sonho, meu sonho

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nós, os canalhas.



Nós, os canalhas.


Ando a sentir-me sem pátria, órfã de pai e mãe no que tange a minha nacionalidade. Perdida, feito astronauta à deriva no espaço, numa terra onde dia após dia torna-se cada vez mais difícil para quase todo cidadão sentir-se confortável, percebo que já não sei mais como definir a nós mesmos. O que significa atualmente ser brasileiro?

Éramos cordiais, já fomos conhecidos como um povo feliz e gentil; não? Hoje somos egoístas e avaros, violentos e cínicos. Somos um grande amontoado de gente à espera do momento no qual possamos, como diria minha avó, passar a perna em alguém. Hoje, por esses dias que correm, sinto-me profundamente envergonhada e decepcionada com o país que construímos. Com o país que somos. O país do futuro, aquele que tinha tudo para ser uma potência e um bom lugar para qualquer um viver, transformou-se numa terra sem lei; nosso Bang-Bang à brasileira.

Os níveis de corrupção e ineficiência do Estado brasileiro clientelista em todas as suas órbitas criaram uma situação surreal onde, simplesmente, nada funciona como deveria ser. Onde absurdos ocorrem todo santo dia e já não causam grandes estranhamentos em quase ninguém. E assim, calejados por tantos disparates, estamos nos tornando um povo insensível à dor alheia, e isso é muito pior do que ficarmos sem dinheiro. A mim tem me parecido que estamos perdendo o nosso caráter de vez, não?

 Na semana passada no estado do Espírito Santo, sem policiamento nas ruas devido a uma greve dos policiais militares, cidadãos comuns participaram de uma onda de saques ao comércio de várias cidades pelo simples fato de que não havia ninguém para detê-los. O que nos leva a conclusão de que o brasileiro comum não rouba ao outro brasileiro comum apenas porque tem medo de ser preso e não porque isso, por princípio, é errado? Somos, de fato, um bando de aproveitadores imorais, aquele tipo de gente que tira proveito dos mais fracos, dos que não têm como defender-se, e ponto final?

 Nelson Rodrigues, décadas atrás, numa de suas frases marcantes e históricas afirmou que: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”. Parece-me que não há como contestá-lo por esses dias e apenas nos resta aceitar. Somos mesmo um bando de canalhas.