segunda-feira, 15 de maio de 2017

A noite




A noite

O céu perdera sua cor habitual, e do azul vivo restavam apenas memórias mornas. Ana olhava a escuridão que crescia ao seu redor enquanto, na memória, resumiam-se em poucas cenas quase importantes todos os anos de sua existência. Seu mundo diminuíra aos poucos e silenciosamente, de forma que por algum tempo ela não notara tal tendência angustiante a todo claustrofóbico. Agora, porém, o vagaroso encolhimento de seus horizontes era um fato e nada poderia detê-lo. Ana aceitou-o, então, sem muito esforço.

As janelas estavam abertas e o mar calado, quieto, respirava com dificuldade em tempos sem ventos; sem movimento. O mundo de Ana, sem vontade, perdera a capacidade de mover-se. Nele tudo se resumia a uma opaca espera sem fatos ou atos onde a ela restava observar, à boa distância, a tudo; a todos. Todos, que um dia importaram à menina que ela fora, haviam partido de uma maneira ou de outra: em viagem, à força, por vontade, pela morte.

Hoje, sem curiosidades para aquilo que acontecia para além de suas terras de horizontes egoístas, Ana não ouvia ao rádio. Faltava-lhe vontade para ligar a televisão e descobrir novas guerras por motivos tão antigos quanto a humanidade. Novidades antigas, repetitivas, não lhe interessavam mais depois de tanto ter brigado na vida. Ana cansara-se de todas as lutas e resolvera que não brigaria mais, não reclamaria mais, não choraria mais. Nada mais.

Atemporal, Billie cantava seus Blues no toca discos enquanto Ana escolhia um novo livro na estante empoeirada para reler. Germinal de Zola capturou seus olhos e o ar pareceu-lhe mais palpável; pesado.  Ana sorriu. Um dia ela também havia acreditado em todas as possibilidades de um Mundo que ainda seria criado. Ela sentou-se à janela, acendeu a luz da luminária antiquada e abriu o grande livro. Etiénne e Catherine ainda respiravam em suas páginas e o mundo de Ana, tão pequeno e preguiçoso, definitivamente, parou.


terça-feira, 9 de maio de 2017

A Esfinge


A Esfinge

Gosto tanto que desgosto.
Gosto tanto que me incomodo com este gostar tão impróprio.
Gosto tanto que por mim e por ti sinto asco;
tenho ódio.
Grito,
Arranho,
Torno-me bicho arredio enfrentando o meu inimigo mais íntimo,
este meu amor sem propósito.
Vastidão imaginada pela minha crença de que a alma poderá ser tudo,
menos pequena,
e que deu vida, (a vida que antes era sua), a um sentimento faminto
que, dono do próprio nariz,
ignora-me.
Gosto tanto de ti que de mim desgosto.
Viro o rosto para onde não estamos,
para não me ver, e para que claramente eu não enxergue
quem é você.
Para fingir que não existe aquilo que sem os olhos,
e sem querer, eu posso ver.
Amo-te com um amor sem tempo, descompassado,
que se acomodou mal no passado,
não encontra seu lugar no meu presente e promete-se
no futuro resistente. Persistente.
Gosto tanto de ti que canibal
devoro-me.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Seca



A Seca


Tudo parece igual num continuo tranquilo visto de longe.

A visão panorâmica da janela do meu quarto

mostra um Mundo mudo que não muda.

Ruas iguais com seus carros e suas gentes, cheias do sufocante ruído da cidade

e da costumeira Indiferença

típica de tudo que é grande. Muito maior do que deveria ser.

Mundo grande, país grande, cidade grande...

E a alma da gente fica sem espaço para crescer. Amiúda-se,

encolhe ressecada pela rotina e seca.

Secos seguimos; caminhamos como antes nas mesmas ruas de sempre

tão cheias de carros e de gente.

Porém, de perto, vistos da distância dos meus braços, somos

diferentes.

Não somos os mesmos que riam juntos e que não tinham medo de chorar

porque havia o ombro do outro

que, por obra divina, era meu também nessa vida.

Hoje não conversamos.

Não nos importamos,

e  não nos queremos mais.

Secamos.

domingo, 30 de abril de 2017

A Paixão Eterna



A Paixão Eterna

No dia 13 de Outubro de 1977 o Sport Club Corinthians Paulista conquistava o Campeonato Paulista depois de 23 anos sem fazê-lo. Os 23 anos de um jejum que ajudaram a construir a mítica crença futebolística de que ser corintiano é ser um sofredor por natureza. Pois, assim o é. É e orgulho-me, incondicionalmente, de pertencer a esta nação apaixonada e sofredora. Sou, antes de brasileira, corintiana.

 Não tenho nenhuma recordação desta partida, de nenhuma das três partidas épicas disputadas entre o Corinthians e a Associação Atlética Ponte Preta em 77 porque eu era criança demais para tais lembranças e para compreender o que acontecia naqueles dias. Lembro-me, crescendo numa família corintiana, apenas de achar curioso o fato de haver gente que torcia por outro time. Àquela época eu não compreendia como alguém podia não ver que não havia time de futebol como o meu. Afinal, éramos o Timão!

Fato é que se tivesse ciência sobre a vida à época eu teria chorado, vergonhosamente, numa explosão de alegria infinita tal como o fiz nas conquistas da Taça Libertadores da América e do Campeonato Mundial em 2012.  E como não fiz nas conquistas das Copas do Mundo de 94 e 2002 pela seleção. Pois, apesar de adorar ao futebol e vibrar com as conquistas brasileiras, não as sinto n'alma da mesma maneira. Minha paixão pertence apenas a uma bandeira. Minha paixão é alvinegra, e existe pelo Corinthians exclusivamente.

Quarenta anos depois o mundo é outro, verdade, e o antes Paulistão agora é chamado de Paulistinha. Campeonato visto, num mundo globalizado e muito mais amplo, como uma competição menor, confusa e sem valor. Bom, o tal campeonato pode não valer muito para os outros seres humanos, contudo, para corintianos e pontepretanos não haverá jogos mais importantes neste ano do que esses dois que nos aguardam. Não senhor!

Por isso, hoje, início de mais uma decisão de campeonato pelo Corinthians, pouco importa para mim a Taça que será erguida. Importa-me, apenas, o fato de que meu time está nessa disputa. Importa-me sentir e ver a beleza poética de quarenta anos depois, mais uma vez, ter a Macaca como minha oponente num momento delicado do meu Coringão. Importa-me, apesar de todos os problemas, que no final tenhamos a vitória. Importa-me ser campeã mais uma vez e gritar feito maluca, parva e meio idiota a plenos pulmões – Vai Corinthians!


quarta-feira, 26 de abril de 2017

O Verde



O Verde

Abro meus olhos depois de muito tempo;
passados anos. Todos os anos de uma vida
míope e distraída.
Leviana.
Diante de mim, uma floresta primitiva e pacífica abre seus braços.
Uma imensidão verde e perfeita por suas qualidades inerentes:
momentos eternos de um silêncio construído de sons,
a indiscutível raridade das palavras que no meio da mata
são desnecessárias,
um mar de verdes e outras tantas cores que meus olhos até este momento desconheciam
e que me acolhe,
a beleza de saber, simplesmente, ser. Um ser sem sentidos múltiplos que
por não ter a consciência de sua existência
não tem marcado o seu princípio e, assim, jamais pensará, ou terá, fim.
Mergulho entre as árvores sem olhar para trás porque isso é, no momento,
aquilo de que mais preciso; verde.
O verde: a vastidão verde, morna e tranquila da mata cheia da vida pequena
e de pouca importância onde não há gente.