terça-feira, 12 de outubro de 2021

Ao tempo

 


Ao tempo

Devora-me, tempo

Pele, ossos e nervos

Levando cotidianamente um pouco de mim

Eu, que me deixo levar de bom grado

Sem medos,

Sem termos,

De braços dados a si

Caminho,

Construo com suas entranhas meu mundo enquanto

Devora-me,

e de si alimento-me engordando pensamentos

ganhando peso na terra

ganhando cores meus sonhos

Estamos ambos a caminho do fim, sem pressa, a ouvir as águas deste riacho de pedrinhas coloridas,

um tanto preguiçoso,

muito claro.

Seguir.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Change

A Vida

 


A Vida

Passaram-se muitos anos como se fossem poucos, como se fossem um par de dias. E o tempo passado importa tão pouco para as horas que agora se arrastam. Relativo é o tempo, e desimportante a vida dos homens sobre a terra, tanto quanto miúda é a minha. Enfileiro as letras e as palavras como Chronos enfileira horas e dias, displicentemente. Não sei se em prosa ou poesia, escrevo as ideias perdidas pela cachola que aqui encontram-se para comentar esta minha vidinha simples, simplesmente minha.

Depois de tanto tempo, todo o tempo que já tenho guardado nos bolsos das calças, sei que pouco importa o que cada um de nós faz para além do nosso quintal porque a vida que levamos é nossa, apenas nossa, e daqueles que guardamos no meio dos abraços colados ao peito. E quase nada me importa o que as pessoas fazem para além deste meu quintal onde cultivo flores, letras, abelhas, a luz do sol, passarinhos sem gaiolas e meus amores novos e antigos. Que me importa o que pensam as pessoas importantes desse mundo? Uma titica de galinha, diria minha avó. Digo eu.

Quanto tempo tenho eu? Não sei; isso nunca se sabe. Apenas sei como quero usar o tempo que ainda tenho. Rir é uma prioridade, ensinar um prazer, beber vinho, água, cerveja e café vícios que levarei para sempre comigo, chocolate e sorvete são e serão uma necessidade. A família de sangue e a da vida quero sempre levar comigo pois neles tenho todo o conforto e o abrigo que necessito, viajar faz falta como nos falta o ar com a máscara no rosto; ver o mundo areja a alma. A velhice aproxima-se desavergonhadamente, contudo, já não tenho mais medo dela como tinha antigamente. E isso é muito bom. Bora viver com gosto com os olhos e o nariz mirando para frente!

 

Agora

 


José

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade. Meu Carlos, e agora? Não demora...

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Encanto

 


Encanto

 

Encanto, meu encanto

Espanto sem pranto

Teu pranto, meu pranto

Recanto

Canto

(Re)encanto

Recato

Ato

Meu encanto, desencanto

Teu encanto

Tanto

E damos outra volta na ciranda dos nossos encantos tamanhos

Me encanta, Eu te canto

Meu amor