materialização das saudades de tantos anos distantes.
Você partiu, eu parti, e nossos mundos fisicamente tornaram-se terras distantes. Mesmo assim, estou aí e você esta aqui.
Palavras e sons numa garrafa,
foguetes lançados através da rede chegam aqui trazendo um pouco de ti
poemas
canções
palavras
carinho que se faz desde outros mundos
Amigo,
perdoe-me pela ausência minha
tão errática perto da tua presença sensível
Está presente aqui; sempre
assim que eu puder
pego aquele avião prometido antes do vírus
e vamos nos abraçar e tirar um retrato juntos
teremos todo o tempo do mundo
ignoremos a distância
relativa
visitarei seu Porto com minha nau errante;
eu prometo
te amo meu presente de amigo
Para o meu querido Israel
que me manda presentes lindos, sempre.
Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos no Exílio
Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e
pedindo que fale
Por favor, fale, mas não escreva
Eu evitando os toques ruins dos ponteiros do relógio que
anuncia a já famosa fuga de nossos corpos cada um para sua ponta da cidade
Se o nosso amor fosse revólver, eu seria o cabo e você a
mira, tal como dizia a professora Jones é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam e elas apenas se encontram no infinito
É verdade que nunca nos interessou a questão do infinito,
mas os restos das ideias matemáticas, claro que sim
Eu na verdade prefiro mil vezes a sua xícara de chá ficando
fria sob a mesa. Enquanto você fala sobre raízes quadradas enquanto, você fala
sobre ladrões de figos, enquanto você fala sobre o tropeço da baleia.
Subitamente eu já nem sei sobre o que você fala porque a
forma como o seu dente incisivo corta e suspende toda a beleza da cafetaria.
Faz com que eu novamente entenda pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco e do
canto do cuco.
Portanto eu pego minha bicicleta e como e de costume você
faz o meu retrato. Os cabelos todos desenhados no vento em jeito de menino que
está sempre indo embora a mesma hora. E que amanhã se tudo der certo voltará a
mesma hora para o mesmo amor, para a mesma mesa, para a mesma explosão. Com
toda a certeza a mesma fuga porque você e eu, a gente, é feita de matéria
escorregadia, isto é, manteiga, azeite, geleia e espanto."
Voamos para a
Argentina de asa quebrada; feridos. Time cheio de baixas a ponto de ser difícil
imaginar que teríamos uma boa chance contra o Boca Juniors em La Bombonera. Seria
uma guerra, árdua luta que dependeria muito mais de garra, alma e sorte do que
da bela habilidade com a bola nos pés.
Fomos imbuídos
do espirito alvinegro corintiano e assim entramos em campo. Ou seja, não
importava muito a forma, jogar bonito não era a meta, muitos gols a nosso favor
nem pensar. O objetivo era segurá-los e sairmos da casa de Maradona classificados;
o que já seria um feito, fato consumado apenas uma vez pelo Santos Futebol
Clube de Pelé.
Fomos, vimos la
Bombonera abarrotada cantando como sempre, sem arrefecer, e vencemos!
Zero a zero no
tempo regulamentar depois de Benedetto ter perdido um pênalti na trave direita,
(e sim, eu acredito na intervenção divina e depois do penal perdido por Roger
Guedes na nossa Arena, o certo, o justo, aquilo que São Jorge e São Cássio
permitiriam, seria a igualdade para os dois times e nada de gols).
Disputa levada à
cobrança de pênaltis, a la copa do Mundo de 1994. Não gosto disso de decidir
qualquer partida assim, contudo, estava claro desde o começo que assim deveria
ser. Nós tínhamos o Gigante a fechar o gol e uma vontade ímpar de vencer.
Nervos à flor da
pele, coração disparado a cada cobrança e algumas unhas perdidas. Mesmo sabendo
que sina de corintiano é essa, sofrer e seguir em frente já que vencer quando
ninguém espera, sem muitas condições para tal, é o que nos agrada; os nervos
sempre nos acompanham.
Benedetto nos
ajuda mais uma vez, e a la Mundial de 1994 homenageia Baggio e bate o último pênalti
do Boca na Lua. Final da sequência de penais e mais uma vez empate. Cobranças
alternadas decisivas e, como de costume, o Gigante quadriplica de tamanho nas
decisões. Cássio defende uma boa cobrança e então...
Então Gil
caminha em direção a bola e faz seu gol. Boca desclassificado na Libertadores dentro
de casa, fato que acontecera apenas em 1963.
Linda lição do
destino, ver aos Hermanos mudos depois que o nosso zagueiro negro decretou com
os pés a derrota do Boca Juniors. Depois de termos presenciado cenas de racismo
em campo protagonizadas por tantos argentinos e outros, esse foi mesmo um desfecho
bonito de se ver.
Enquanto muitos
gritam macaquitos aos brasileiros em campo com a intenção de nos ofender,
eu de cá dou de ombros. Somos 5 vezes Campeões do Mundo, Campeões nas últimas 3
Libertadores e temos 5 times classificados para as quartas de final no
campeonato atual. Pelé foi e sempre será Pelé, negro, brasileiro e o Deus do
futebol.
Gil calou a Bombonera
e nós, os macaquitos, de cá continuamos a vencer e mandamos abraços e bananas
aos hermanitos cheios de inveja. Nós somos macacos muito competentes, somos
mesmo apaixonados por futebol e muito bons.
Sou americana. Sim,
todos nós que nascemos e vivemos no Continente Americano podemos assim sermos chamados
como a todo e qualquer cidadão da Europa chamamos de Europeu, ou a alguém que
nasceu na África de africano; não? Pois bem, que talvez assim o devesse ser eu reconheço.
Contudo, não há como reconhecer-me como americana. Não senhor; pois que não.
Não sei bem se o
fato se dá porque temos os Estados Unidos e toda a sua típica megalomania a
apropriar-se deste adjetivo pátrio, ou se ocorre porque o que sentimos que nos
identifica mais do que qualquer outra coisa é o fato de sermos latinos; e não latino-americanos.
Disso sei. Sou uma mulher latina pois que assim me sinto. Apesar de não ter
muita certeza do que signifique exatamente ser latina.
Falo português,
que de fato é uma língua latina. Porém isso mais me segrega do que me une ao
resto do mundo latino. Sou uma mistura de raças como os latinos que falam
espanhol, mas isso também praticamente todo norte-americano venha a ser, não?
Tenho orgulho da
mescla da qual sou feita, e a minha viralatice, vista por outros como defeito,
é a minha força; o cerne de quem sou.
Quiçá, ser
latino seja isso: ser um ser que fale uma língua latina e que se orgulhe de ser
uma mistura muito grande de culturas e tradições. Um ser feito de retalhos que,
ao invés de enfraquecerem a nossa trama, nos fortalecem. Pode ser.
Contudo, não
acho que seja importante encontrar uma clara definição para o que realmente venha
a ser o ser latino. Pois que algo me diz que nesse nosso mundo particular,
aceitamos a quase todo mundo que nele queira entrar. Basta não ser um pinche
gringo. Jajajajaja...