sexta-feira, 16 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

ausência




ela arranha,
tal areia arranha, a retina
donde a água brota
natural apesar de contra toda natureza
ela arranha,
arranha de dentro pra fora,
a palavra presa que cava
minuciosa sua saída
e arranha artérias e veias
e se agarra à traqueia tal enforcado à corda
quando
a tua ausência em mim acorda

domingo, 11 de novembro de 2012

Vestido Negro



E quando chega a noite eu conto os minutos à espera de um sinal por ténue que este possa ser, um sinal da tua atenção. Porventura uma amostra de dedicação, assim o queiras, assim a queiras dispensar. Uma mensagem que seja (pode ser curta, pode ser mínima, desde que seja – e para isso basta um asterisco). Algo que revele curiosidade, ou quem sabe, preocupação com o meu bem-estar. Algo que atenue o desconforto que hoje sinto pela imitação da vida que vou levando sentado com um sorriso na sala de estar. Eles riem pra mim. E eu vou anuindo cinicamente, ao mesmo tempo em que penso no vestido negro do qual falaste, como se fosses uma adolescente ansiosa pela sua primeira saída à noite.

Tenho saudades tuas.

Saudades de alguém que na verdade não conheço mas julgo entender. Melhor: tenho saudades de alguém que, mais que tudo, eu quero que seja aquilo que o meu desejo idealiza ser. Suponho que não o serás (não existe pessoa assim). Mas mostra-me esse vestido, tal como prometeste, e já agora levanta-o até à coxa... eu prometo que não te chateio mais. Pelo menos até a manhã chegar e eu realizar que acordei. Sozinho.

by Carlos Nobre em A Gramática da Paixão Dramática






A minha canção...

Pássaros



Eu detesto ver pássaros em gaiolas! Tadinho do bicho, ter o mundo inteiro para voar e não poder fazê-lo, só para satisfazer o egoísmo dos que os querem para enfeite!

Conheci um senhor que tinha dezenas deles, cada um na sua linda gaiolinha, no (pasmem!) porão da casa! Uma vez por dia ele punha todas as gaiolas no quintal para o banho de sol. Uma vez perguntei a este senhor se ele não tinha pena. Ele me respondeu que não, pois tratava bem os pássaros, as gaiolas eram espaçosas e nunca faltava água nem comida. Fiquei pensando o que ele acharia se o trancassem num quarto grande, confortável, onde servissem boas refeições nos horários certos, mas nunca o deixassem sair de lá...

Bonito mesmo é o pequeno jardim da casa dos meus ex-sogros. Cheios de vasilhas com água e frutas, um doce agrado para tantos bicos que lá vão passear todos os dias: sabiás, pardais, beija-flores, que vão e vêm quando querem, livres. Dá pra ficar um tempão na janela da cozinha, em silêncio, admirando e rindo com o beija-flor, valentão, que não quer deixar os outros aproveitarem a farra, só ele.

Aqui no prédio ao lado havia uma arara. Pensem numa sacada de 2 x 1 m. Nessa sacada a mente inteligente do dono do bicho conseguiu fazer um cercadinho e colocar a pobre arara lá. Cansei de vê-la tentando abrir as asas, em vão, porque o espaço não dava. Você pode dizer que era só o barulho comum que as araras fazem, mas pra mim eram gritos de desespero. Acionei as autoridades e depois de um empurra-empurra a Secretaria do Meio Ambiente me disse que o dono da arara tinha autorização do Ibama, ou seja a situação da arara ela legal. Legal pra quem? Ainda que fosse um bicho que não tivesse mais condições de viver solto na natureza, deixá-lo viver naquele cercadinho era a mesma coisa que decretar-lhe a sentença de morte. Mas passados uns dias ela não estava mais lá... Será que conseguiram um espaço maior ou ela não resistiu?

Não é bom demais ver uma revoada de pássaros no céu? Aquele é o lugar que Deus pensou pra eles... E se Deus já pensou a gente não precisava reinventar, não acham?

11/11/12
by Ana Paula Guedes (irmã de coração)

sábado, 10 de novembro de 2012

A minha terra é de ninguém




De repente, não mais do que de repente, passou a fazer parte da rotina de São Paulo contar o número de corpos deixados pra trás com balas neles alojadas. Recortes e recados de uma guerra entre o bem e o mal, (ou entre o mal e o mal, ou entre o bem e o bem, tudo depende de como se vê a questão), que nos faz sentir que estamos mais próximos da Síria ou do Paquistão. E a grande Sampa, com seu povo vindo de todos os cantos do planeta, tão gigantesca por natureza, me parece agora um tanto quanto apertada demais, pequena.

Pequena ao ponto dos paulistas e paulistanos não caberem mais nela. Hoje, apesar de a amarmos muito, do jeito que se ama o lugar ao qual chamamos de lar, sentimos que nossa cidade deixa de nos pertencer. São Paulo anda a escapar por entre nossos dedos; Sampa não é mais daqueles que ali nasceram ou que resolveram adotá-la de coração. Não é mais a nossa nação feita de retalhos desde o seu nascimento e que, por isso mesmo, aprendeu a chamar de seu cidadão a qualquer imigrante ou estrangeiro que nela decidiu viver.

Sempre me orgulhei do meu canto por sentir que ele pertencia a todos que o aceitassem como seu; lugar de portugueses, índios, italianos, espanhóis, japoneses e toda e qualquer nação. Casa de brancos e negros, de heterossexuais e homossexuais, de hippies, “mauricinhos” e de quem ama o rock. O lugar de católicos, judeus, árabes, budistas, filhos de Olorun, de toda religião. Terra de todo tipo de gente que, desde a minha adolescência, podia ser como quisesse ser e isso não era da conta de ninguém.

Contudo, há tanto tempo ignoramos os problemas que estão sob o nariz, toda a falta que há por aqui.  A falta de escola e educação, a falta de respeito e consideração, a falta de transporte público e de condição, a falta de amor, fraternal ou não, a falta de dignidade e de igualdade. Pois, então, agora falta-nos, a todos nós, a liberdade para viver. Sampa não é mais de ninguém.

E mesmo sabendo que a vida, por melhor que seja, nunca será pura e completamente justa, temos que começar a nos indignar com aquilo que já deveria ter-nos indignado há muito tempo. Devemos lembrar que é um absurdo que a cidade mais rica deste país submeta a maioria de seus cidadãos a algo que não podemos chamar de vida, e que haja tanta gente morando na rua. Devemos nos revoltar com a inércia de um governo rico que, ao invés de preocupar-se com o bem estar de quem mora aqui, preocupa-se apenas com sua manutenção no poder e com seu enriquecer. Vamos lutar por uma solução, por mais educação e para que não haja tanta gente crescendo no meio da violência, e não por paliativos como a redução da maioridade penal. Porque, senão, a única coisa que conquistaremos é mais gente na prisão. E vai faltar cadeia nesta nação.



Got the Blues...





Love Is A Losing Game
Amy Winehouse

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game

Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know you're a gambling man
Love is a losing hand

Though I'm rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game