domingo, 13 de janeiro de 2013

Azul e Verde


Imenso e verde
e azul. É azul o oceano
dos meus sonhos, dos meus anos de menina
a passar as tardes no mar.
Um mar de tantas coisas:
sentimentos, gentes, alegrias, e a tristeza inerente a todo ser;
a alguns seres.
Um algo sem fim que parece começar aqui,
neste canto do Mundo onde meus pés tocam
suas águas mornas, mostra conhecer meu nome.
Sou parte do mar, uma gota. E vê-lo assim, um ser sem fim
olhando-me nos olhos, me acalma.
Acalma-me o saber que estas águas são as mesmas águas que
navegam o mundo inteiro,
e  são as mesmas águas que abraçam e invadem o Tejo,
e são as mesmas águas que o verde dos teus olhos veem
desde o cais.
O verde e o azul, e eu sinto-me náufraga,
e sinto-me parte deste mar;
do azul e do verde.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Falta

Falta a voz,
o abraço e a alma ancorada.
Falta a vida vivendo nos meus olhos
que a vendo
viam mais
e viam além.

Mas vivo além
                              de Neusa Doretto



domingo, 6 de janeiro de 2013

O pedido de meu Pai



Pouco depois de chegar a São Paulo para esperar o fim do Mundo e passar o Natal em família, ouvi meu pai comentar, meio em tom de decepção, que achava que eu escreveria algo sobre a conquista do Mundial de Futebol pelo Corinthians. Ele havia esperado ler algo sobre a nossa mais importante vitória que foi, muito provavelmente, o momento mais inesquecível para todo o corintiano ainda vivo.  Algo, do meu ponto de vista, mais bonito que a comoção que tivemos em 77 devido a todo o conjunto da obra. Afinal, para quem faltava se firmar como um time capaz de disputar e conquistar algo fora do Brasil, o ano de 2012 foi um presente sem igual.

E, a bem da verdade mais verdadeira, eu também achei que escreveria algo sobre o fato, já que não houve, para mim, emoções mais fortes ligadas ao futebol do que as deste ano. Não há conquista de Copa do Mundo que chegue aos pés do que senti com a vitória na Copa Libertadores da América que me fez chorar pela primeira vez de alegria por amor ao futebol. E houve o bis de choro no final do ano. E que orgulho foi ver o meu time campeão de maneira tão bonita e definitiva; sem senões nem “poréns”. Vencemos, em ambos os campeonatos, de maneira justa, poética e sofrida como deve ser toda vitória do Timão.

Porém, tanto antes quanto depois dos feitos, a verdade é que me incomodou demais todo o bate-boca desnecessário entre torcedores de outros times e do meu. Pois eu, apesar da paixão pelo meu time de coração e alma, não consigo entender os porquês de tanta agressividade, das ofensas entre as torcidas, e de tanta bobagem que ouvimos por aí; e por aqui. E isso me deixou mesmo sem vontade, acabrunhada, para dizer qualquer coisa sobre nossas conquistas. Murchei.

Murchei porque não me agradaram nada as ofensas e toda a raiva que percebi, porque me decepcionou tanto a raiva dos outros torcedores quanto a soberba exacerbada de alguns dos meus. Como algo que nos traz tanta alegria como uma conquista inédita de nosso time, e que é sagrado para todo o torcedor, não é respeitado por todos nós? Haveria alguma conquista que valesse a pena sem adversários à altura? O que seria do Corinthians sem o Palmeiras, do Santos sem o São Paulo, do Brasil sem a Argentina? Que graça há em termos um time do coração se não sabemos respeitar os adversários que se apresentam do outro lado? Não devemos nos importar mais com as nossas vistorias do que com as vitórias ou derrotas alheias? Não?

Eu cresci vendo na casa de meus avós paternos duas flâmulas penduradas na parede da sala: o Corinthians de minha avó Luiza, torcedora praticante e fanática, e o Palmeiras de meu avô Luiz, verde que só pelo seu verdão, conviveram durante mais de 60 anos animada e pacificamente numa casa democrática. Por isso, apesar de saber que perturbar um pouco o outro faz parte do jogo, aprendi com meus avós e com meu pai e minha mãe (que torce para quase qualquer time, principalmente se este estiver a perder) que nunca devemos perder o respeito por quaisquer adversários e suas conquistas, nunca. O que não quer dizer que torcemos para eles; que fique claro. Mas, quer dizer, sim, que nos sabemos seres inteligentes o bastante para entender que, paixões pelo futebol à parte, nós nos queremos muito bem.

Um beijo a todos os meus amigos (torcedores de qualquer time), e um beijo especial aos meus pais corintianos que me fizeram quem eu sou. 


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Palavras

variações sobre o mesmo tema...

Palavras (1)


Há palavras presas dentro deste mar.
Palavras com significados variados e distintos,
Pobres palavras que não aprenderam a nadar.
Algumas até chegam, vez ou outra, à superfície,
E qualquer um pensaria que são as mais fortes,
Aquelas que trazem sentido ao céu.
Mas não, apenas as tolas e leves podem ser ouvidas,
Aquelas que não machucam a ninguém.
As que fazem sentido estão presas pelos calcanhares,
Como condenadas por um crime, sem direito a visitas.
Um submarino resolveria este problema,
Dilema de um mar que parece calmo.
Mas há a claustrofobia desde pequena,
E apenas ao imaginar o mergulho o ar me falta,
A mente fica zonza e as mãos geladas.
Resta-me então esperar que chegue uma grande onda,
Onda imensa de uns trinta metros de altura.
Onda que varra tudo que está no fundo,
Que invada as minhas terras para que eu me deixe afogar.


Palavras (2)

Se houvesse talento
uma colher dele que fosse
e talvez tudo isso tivesse valido a pena
tivessem tido, então, todas as palavras ditas e escritas
algum valor verdadeiro
algo que fosse algo mais do que a expressão
egoísta de meus sentimentos
Se houvesse talento
gotas dele pelo menos
e provavelmente teriam sido belas as alegrias e a melancolia
mesmo que vividas sozinhas
e as palavras, quiçá, merecessem   os sons
das  bocas que pelo mundo caminham,
e, quem sabe daí, algum dia
alguma palavra minha merecesse
o falar da boca daquele para o qual esta vida de palavras
foi escrita.

A poesia é uma cobra que morde o próprio rabo
Que não tem, e jamais terá início, meio e fim
Porque simplesmente a poesia não é assim
Ela pode ser grandiosa ou tola
Pode ter rima ou não rimar uma palavra
E isso importa pouco agora
Mas um fim claro, e um começo bem marcado
Ah, isso a poesia não tem
e não terá também


Palavras (3)

Apenas palavras
Montes delas
Pilhas delas:
textos frases poemas - meias palavras e canções inteiras
E mesmo que talvez haja alguma verdade
dentro de suas curvas e linhas desenhadas
Mesmo que possamos chamar, a seu modo, de verdadeiros estes sentimentos
Ainda assim tivemos palavras
apenas.
As temos, tivemos, teremos
Montes delas
Pilhas delas
Palavras...
Palavras, e nada temos
Pois palavras não são nada
para além de um apanhado sem sentido de letras
Palavras




quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A dúvida



Insolúvel e sem solução é a dúvida:
sabe o amor morrer?
Pois, como esperar que morra
um sentimento que quiçá nem tenha existido
e seja nada além de ilusão?
Apenas um martírio inventado para cobrir o vazio
de uma vida que não tem graça e, por isso,
acha graça em cair-se em tal desgraça.
Porque se existe e é verdadeiro o amor não há de morrer,
e se morreu é porque foi fingimento;
um não sentimento.
Então, o que é isso que míngua dentro da gente?
Este mal-estar melancólico e abestado,
esta certeza de que, mais do que estar só,
se está abandonado.
Esta doença d’alma sem fim,
uma dor que caminha, incansável e sem parada certa,
a arrastar-se para uma nova morada por não caber bem
nalgum lugar qualquer.
Por vezes, ela nos amolece as pernas,
ao apertar a garganta mais do que qualquer corda
ou mão de homem feito; sem jeito.
Então, corre para o peito e o sufoca,
e por mais que tentemos respirar,
falta-nos o ar.
E, sem querer, o coração perde
a noção do tempo e entra num ritmo descompassado;
desesperado e
angustiado por não saber o que fazer com todo
o seu bem-querer.
O que é isso que nos inunda e umedece a vida
para todo o sempre se não é o amor
que não sabe morrer?