sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Melancolia


Tem nome a melancolia
meu personagem favorito nesta vida
que anda por seus caminhos independente, feito homem,
sem respeito nem consideração pelo meu querer,
pelo meu saber.
Ganhou cor e cheiro para que mais real e presente se fizesse
noite e dia. E ri-se de mim com sua gargalhada cheia
e ruidosa. Pecaminosa.
E ri-se porque se sabe dona e senhora de mim,
e ri-se alto enquanto rasga-me as entranhas e descem-me pela face
silenciosas e gordas lágrimas flácidas;
inúteis e perdidas.
Estripa-me.
Tem nome a minha melancolia, personagem
desenhado à quatro mãos em preto e branco,
imaginado
e realizado por mim e pelo meu Chaplin,
Carlitos,
meu Litos.
Tem nome, a minha melancolia,
de homem.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ferreira Gullar



TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.


Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome

o que a alimenta.


a Sereia



Muitos minutos haviam passado sem que ela notasse o tempo, absorta em pensamentos e letras, presa a sentimentos e fotos. O tempo, para Ana, tornara-se algo relativo há algum tempo. Em seus dias corridos, repletos de trabalho, de amigos e de conversas, aparecia o silêncio branco e concreto. Não havia como escapar daqueles momentos insistentes a lembrá-la de que a felicidade não passava de breve ilusão.  Os momentos de vazio eram mais reais do que os outros, pois, neles, apenas neles, Ana conseguia sentir-se completamente.

Agora, deitada na rede da varanda como se o mundo tivesse, pacificamente, parado de girar, Ana olhava o mar indeciso. O mar que não se sabia azul ou verde. E como ele, a mulher sentia-se frouxa, vaga. João havia partido e, com ele, foi-se o tempo em que tudo fazia sentido. A morte chega para tudo, para todos; e até mesmo as palavras haviam morrido. Não havia mais palavras girando em sua cabeça ou povoando seu coração. Não havia mais palavras. Havia o vazio de uma vida que significara pouco, ou nada. Havia a certeza de que falhara, de que perdera aquilo que de mais precioso havia. Ana perdera a sua crença na beleza e na fantasia.

João se foi para nunca mais voltar. Partiu a cantar como sempre o fizera durante os anos que estiveram juntos, juntos mesmo quando entre eles havia muitos quilômetros de águas e o medo de algo que não se pode explicar. João cantava, cantou durante anos para que ela o ouvisse; e aquela música, feita de verdades que não podiam ser ditas, enchia a alma desta mulher que não aprendera a deixar de ser menina. Ana o ouvia, ouvia suas linhas e entrelinhas que viajavam pelos oceanos de águas e medos em caravelas de crença e poesia capazes de vencer o tempo, a distância e o desencanto. E, enquanto o ouvia, a vida lhe parecia bela; perfeita.

De repente, Ana sorri. “João foi minha sereia”, pensou ela. A ideia chega pronta e sem avisos à mente fazendo-a achar graça deste ser tão sem jeito que haveria de ser o representante de sua mitologia particular. João era sem jeito mesmo; longe do perfeito com seu humor terrivelmente seu, suas idiossincrasias cheias de raízes e seu egoísmo de homem. Contudo, e talvez por tudo isso, depois de tanto procurar, apenas nele Ana havia encontrado o que buscara por uma vida. Por toda a vida. Ele era seu Preto, sua poesia. E agora lhe restava, apenas, o mais branco silêncio para o resto de seus dias.

sábado, 10 de agosto de 2013

A língua

A língua
Quero de ti a bruta língua
ignorante e iletrada
e por tanto viva
quero a tua língua de carne
dentro de mim
muda, sem palavras
sem dizer nada
usada para aquilo que
deveria ser seu único fim
quero de ti a língua crua
nua
tua
a descobrir sítios escondidos

dentro de mim


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Vida (Mon Carrousel)


Mon Carrousel
Mayra Andrade

Sans un seul mot la tendresse s'en va
Et plus rien ne sonne comme avant
Coloriant mon âme de gris
Je m'éloigne vers d'autres rives
Où l'hymne à l'amour retentit

Mon carrousel
L'amour fait tourner ma vie
Et sans elle
Je suis face au temps qui passe
Sans amour

Le sac se vide de rêves
Tour à tour encore une fois

Un beau jour et l'étoile de ton regard
Inonde mon cœur de sa lumière
Je chante d'une voix nouvelle
Je me plonge dans le vide
Si libre

Et la vie me sourit

Mon carrousel
L'amour fait tourner ma vie
Et m'entraîne
Dans la folie de l'espoir
Chant d'amour

Fleuve d'émotion qui emporte
Mon coeur
Encore une fois

Tendresse, fleur de ma vie
Printemps d'ivresse
Souffle d'un son qui ouvre mes ailes
Dans le ciel de tes yeux
Instant de rêve

Mon carrousel
L'amour fait tourner ma vie
Et m'entraîne
Dans la folie de l'espoir
Chant d'amour

Fleuve d'émotion qui emporte
Mon coeur
Encore une fois

Tendresse, fleur de ma vie
Printemps d'ivresse
Souffle d'un son qui ouvre mes ailes
Dans le ciel de tes yeux
Instant de rêve

Mon carrousel

L'amour fait tourner ma vie



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Can U see the Pride in the Panther


Mos Def]
This song is dedicated
to the mothers and the children of the revolution
From Tupac, to Afeni Shakur
and many many more
This is for you
One love, one life

[Mos Def * singing]
Can you see.. the pride of the panther
As she nurtures.. her young all alone
It's the seed.. that must grow regardless
of the fact that, it's been planted in stone
Can you see.. the pride of the panther
In the concrete jungle, alone with her cub
It's the seed.. that must come to harvest
It's the tree.. that must grow out of love

Can you see the pride in the panther
as he glows in splendor and grace?
Topling obstacles placed
in the way of the progression of his race?
Can you see the pride in the panther
as she nurtures her young, all alone?
The seed must grow regardless
of the fact that it's planted in stone
Can't you see the pride of the panthers
as they unify, as one?
The flower blooms with brilliance and
outshines all the rays of the sun
Keeps bright like the rays of the sun
Carries out like the rays of the sun
Keeps bright like the rays of the sun
Shines bright like a new day begun

[Mos Def]
Can you see the pride in the panther
as he glows in splendor and grace?
Topling the obstacles placed
in the way of the progression of his race
Can you see the pride in the panther
as she nurtures her young all alone?
The seed must grow, regardless
of the fact that it's been planted in stone
Can't you see the pride of the panthers
as they unify as one?
The flower blooms, with brilliance
and outshines all the rays of the sun
It outshines all the rays of the sun
Carries out like a new day begun (uh-huh)
It shines bright like the rays of the sun (hah)
And keeps high like a new day begun

[Mos Def * singing]
Shines bright like the rays of the SUN!
Keeps high like a new day begun
Carry out like the rays of the sun
Keep on like a new day begun, say
Shine bright like the rays of the SUN!
Keep high like a new day begun, say
Shine bright like the rays of the sun (c'mon)
Keep high like a new day begun, say
Shine bright like the rays of the SUN!
Keep high like a new day begun, yes
to shine bright like the rays of the sun (uh-huh)
Carry out like a new day begun, say (c'mon)
SHINE BRIGHT LIKE THE RAYS OF THE SUN (whoo!)
Keep high like a new day begun (ha ha)
Shine bright like the rays of the sun say (c'mon)
Keep it high like the new day begin say
SHINE BRIGHT LIKE THE RAYS OF THE SUN (whoo!)
Keep high like a new day begun (ha ha)
Shine bright like the rays of the sun (yeah)
Carry out like the rays of the sun (huh)
Carry out like a new day begun
A new day begun, a new day begun
A new day begun begun begun begun
begun begun begun.. hoo!
Power to the people! (Power to the people)
He said.. power to the people! (Power to the people)
He said.. power to the people! (Power to the people)
He said.. love is people power (LOVE)
Love is people power (LOVE)
Love is people power (LOVE)
Love is people power (when all else crumbles)
Love is people power (love must prevail)
Love is the people's power

Every revolutionary act is a act of love
And love is the engine of the revolution
I love y'all, like 'Pac loved y'all
like Afeni loved 'Pac, like we love Afeni

like we love love.. one love

domingo, 4 de agosto de 2013

A Flor e a Pedra



Há um par de dias li algo que me diz respeito mais do que eu desejaria – “Tornou-se pedra, a menina que um dia foi flor.” Não sei quem disse isso, nem o porquê do tal dizer. Contudo, é verdade que a vida parece transformar a todas nós, meninas, por um ou outro motivo, por alguns ou vários motivos durante os anos, de flor em pedra. Portanto, mais ou menos duras, no final das contas, não há como negar que não podemos ser as pequenas flores que um dia fomos. O tempo nos endurece, fortalece.

Simplesmente acontece assim porque, provavelmente, simplesmente não há outra maneira de ser. Então, como parte da educação que não nos é dada formalmente na escola ou em casa, aprendemos pela vida que ela não é tão bonita e poética quanto nós pensávamos ser. Aprendemos, também, que somos muito mais fortes do que acham que somos, do que nós mesmas pensávamos ser. Há uma força gigantesca nas mulheres, não a força física, claro, mas a força de sermos, mais do que independentes (e não creio que um dia o seremos realmente) alguém de quem se pode depender. E, talvez, nesta qualidade resida a nossa natureza de rocha. Talvez.

Entretanto, e apesar da força que demonstramos todos os dias, não há como deixar de ser flor porque esta é nossa essência. Característica natural das meninas, ou algo fabricado por nossos costumes que, por mais que pareça distante do que somos à medida que o tempo passa, nunca realmente é deixado para trás. Seremos sempre aquelas que se magoam com a falta de fantasia e beleza com a qual a vida caminha em alguns momentos; as que amam para além da medida certa e que, por isso mesmo, às vezes, deixam de amar. Ou fingem deixar.

Choramos quando o amor acaba porque não entendemos como ele pode deixar de existir. E choramos porque alguém morreu, porque a saudade aperta, porque o filme é belo e, nalguns dias do mês, choramos sem nem ao menos saber o porquê de estarmos chorando. Choramos em abundância, é verdade. Porém, e ao mesmo tempo, temos esta capacidade de assumir todas as responsabilidades que se impõem diante de nós, sejam elas nossas ou não, e, sem titubear por um instante, ir em frente. Somos os seres fracos mais fortes que conhecemos numa dicotomia que parece impossível compreender. 

Creio, então, que mais do que flor ou pedra unicamente, somos a flor e a pedra ao mesmo tempo. Afinal, uma natureza não exclui a outra e o plural parece mesmo a melhor maneira de nos descrever, como o fez tão bem Frida Kahlo, uma das mulheres com mais "plurales" que este mundo viu nascer.