Prezo, secretamente, ao ócio com
arroubos adolescentes. Sim, adoro passar umas boas horas, principalmente pela
manhã, a não fazer absolutamente nada. Tempo perdido que jamais voltará eu sei;
quase uma heresia para este mundo modernamente agitado. E isso apesar de estar
sempre a fazer muita coisa desde menina, como a mim me dizia minha mãe: “Se a
casa cair não te mata.”. Pois, eu realmente nunca estava lá dentro.
Ainda gosto de fazer muita coisa,
de estar por aí. Contudo, para mim, abraçar o bicho preguiça e seguir com ele
vez ou outra, a cada dia que passa, me parece mais saudável. Diria eu,
medicinal. Porém, apesar desse meu amor pelo dolce far niente, tenho pudores a expô-lo na rua. Preguiça, para moi, é
algo que se nutre dentro de casa na cama ou no sofá macio a ver programas
idiotas e repetitivos que não me dizem nada. Na rua sou a falsa empreendedora
voraz. Menina duas caras.
Por isso, coisa que me causa
inveja boa é ver a preguiça a mostrar a cara na rua. Adoro ver gente gastando
seu tempo como se ele não andasse veloz. Invejo, muito, por exemplo, às gentes
que se deixam na estação de Metrô a bater papo sem pressa alguma de chegar. Uma
loucura para mim porque sinto que tenho a obrigação moral de tomar meu lugar no
vagão o quanto antes e de chegar logo seja lá onde for.
Pois que hoje, apertada feito
sardinha no tal Metrô em dia de greve de ônibus na cidade. Vale aqui um parênteses
para mostrar àqueles que não sabem o que é a minha querida São Paulo e não
imaginam quão alto foi o fator de ensardinhamento da minha pessoa; somos 12,18 milhões
de habitantes numa área de 1.521 km2. Ou seja, sem os ônibus, o mundo resolveu tomar
o metrô e eu senti o que vem a ser o calor humano nos ossos. Um aperto ímpar
hoje, o ar quase a faltar-me e pela janela vejo duas meninas a bater papo na
plataforma da estação e, sem pressa alguma de chegar, elas riam. Como sou
estupida, pensei. Porque não me deixei ficar num dos bancos à espera de que o
mar de gente fosse embora. E uma inveja da liberdade das meninas me roeu fundo.
Trilha sonora na minha cabeça: O Rodo Cotidiano do Rappa..
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
É
A idéia lá
Corria solta
Subia a manga
Amarrotada social
No calor alumínio
Não tinha caneta, nem papel
E uma ideia fugia
Era o rodo cotidiano
Era o rodo cotidiano
Espaço é curto
Quase um curral
Na mochila amassada
Uma quentinha abafada
Meu (troco é pouco)
(É quase nada)
Meu troco é pouco
É quase nada
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Não se anda
Por onde se gosta
Mas por aqui não tem jeito
Todo mundo se encosta
Ela some é lá no ralo
(De gente)
Ela é linda, mas não tem nome
É comum e é normal
Sou mais um no Brasil da Central
Da minhoca de metal
Que corta as ruas
Da minhoca de metal que toca as ruas
Como um Concord apressado
Cheio de força
Que voa, voa pesado
Que o ar
E o avião, o avião, o avião, o avião do trabalhador
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Ô ô ô ô ô my
brother
Não se anda
Por onde encosta
Mas por aqui não tem jeito
Todo mundo se encosta
Ela some é lá no ralo
(De gente)
Ela é linda, mas não tem nome
É comum e é normal
Sou mais um no Brasil da Central
Da minhoca de metal
Que corta as ruas
Da minhoca de metal que toca as ruas
Como um Concord apressado
Cheio de força
Que voa, voa pesado
Que o ar
E o avião, o avião, o avião, o avião do trabalhador
E que teve o seu começo Numa festa de São João Morre, hoje, sem foguete Sem retrato, sem bilhete Sem luar e sem violão
Perto de você me calo Tudo penso e nada falo Tenho medo de chorar Nunca mais quero seus beijos Mas meu último desejo Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga Pedir que você lhe diga Se você me quer ou não Diga que você me adora Que você lamenta e chora A nossa separação
Às pessoas que eu detesto Diga sempre que eu não presto Que meu lar é um botequim Que eu arruinei sua vida Que eu não mereço a comida Que você pagou pra mim
Ita significa
pedra, e eu sempre soube o que significa a palavra curumim. Mandioca faz parte
da minha dieta desde menina, como de todo brasileiro. Amo pipoca e sei preparar
tapioca. Entre as lendas e o folclore que construíram quem sou eu, mais do que
princesas, há a Caipora, a Iara e o Saci Pererê. Pois, é assim, apesar de não
haver em mim qualquer traço de sangue indígena e dos meus ancestrais terem
vindo todos de além mar, a herança cultural indígena faz parte de mim.
Não compreendo a
existência sem uma herança indígena, sem a mata como casa e sem as árvores como
amigas com quem se conversa regularmente. Falo com minhas plantas, coisa que
minha mãe me ensinou, e sinto falta delas como se sente falta de alguém que se
quer bem. Não sei o que as pessoas no geral sentem quando estão perto das
plantas pequenas ou das árvores gigantescas, mas eu sinto uma força enorme
vinda delas; um poder silencioso e tranquilo que me faz respirar mais
tranquilamente. Às vezes tenho ganas de ser árvore e ver, calmamente, a vida
acontecendo ao meu redor.
Por tudo isso,
além da tristeza que sinto pelo pouco respeito que meu país tem demonstrado por
nossas florestas, ando a sentir uma revolta crescente e um cansaço agudo de
ouvir tanta besteira sendo dita por quem, em teoria, me representa. O tal
Senhor Jair é mesmo um ser que beira a repugnância com seu discurso hipócrita,
ignorante e preconceituoso. Reflexo translúcido de seu falso interesse e
respeito pelo nosso país e de seus arroubos de ditador imperial. Seu Jair, mais
do que qualquer coisa na vida, quer mandar com mão forte e poucos argumentos. Já
que para ele a única coisa que interessa são os interesses próprios, e de sua
prole ignóbil, e a única verdade que conta é aquela que sai de sua perversa
cabeça.
Seu Jair vive num
mundo absurdo que é só dele e, infelizmente, anda a tornar o meu mundo mais
cinza e triste. Um mundo onde há dias nos quais me esforço para respirar porque
me falta o ar.