sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A Visita




A Visita

A morte nos sorri com seus dentes tortos
agigantados
que ganham vida plena ao vencer
as carnes moles e a pele solta
deixadas pelo tempo.
Ela se alimenta de restos e sorri
tranquila.
Tantas vezes eu a vi de longe
a caminhar pelas ruas apenas à espera da
hora certa
de apresentar-se.
Dona Libitina dava-me calafrios antes do sono vir;
monstro escondido sob a cama de uma menina.
Sem pressa numa tarde ensolarada
ela se achega, visita indesejada que ao meu lado na sala de estar se senta.
Gélida e úmida, a morte é de pouca conversa e me sorri
com seus dentes tortos.
Não chego a sorrir,
contudo não sou mais uma menina e tranquila a fito à espera
da hora certa.




quinta-feira, 5 de setembro de 2019

De ócio e sardinhas

Imagem ilustrativa




De ócio e sardinhas


Prezo, secretamente, ao ócio com arroubos adolescentes. Sim, adoro passar umas boas horas, principalmente pela manhã, a não fazer absolutamente nada. Tempo perdido que jamais voltará eu sei; quase uma heresia para este mundo modernamente agitado. E isso apesar de estar sempre a fazer muita coisa desde menina, como a mim me dizia minha mãe: “Se a casa cair não te mata.”. Pois, eu realmente nunca estava lá dentro.

Ainda gosto de fazer muita coisa, de estar por aí. Contudo, para mim, abraçar o bicho preguiça e seguir com ele vez ou outra, a cada dia que passa, me parece mais saudável. Diria eu, medicinal. Porém, apesar desse meu amor pelo dolce far niente, tenho pudores a expô-lo na rua. Preguiça, para moi, é algo que se nutre dentro de casa na cama ou no sofá macio a ver programas idiotas e repetitivos que não me dizem nada. Na rua sou a falsa empreendedora voraz.  Menina duas caras.

Por isso, coisa que me causa inveja boa é ver a preguiça a mostrar a cara na rua. Adoro ver gente gastando seu tempo como se ele não andasse veloz. Invejo, muito, por exemplo, às gentes que se deixam na estação de Metrô a bater papo sem pressa alguma de chegar. Uma loucura para mim porque sinto que tenho a obrigação moral de tomar meu lugar no vagão o quanto antes e de chegar logo seja lá onde for.

Pois que hoje, apertada feito sardinha no tal Metrô em dia de greve de ônibus na cidade. Vale aqui um parênteses para mostrar àqueles que não sabem o que é a minha querida São Paulo e não imaginam quão alto foi o fator de ensardinhamento da minha pessoa; somos 12,18 milhões de habitantes numa área de 1.521 km2.  Ou seja, sem os ônibus, o mundo resolveu tomar o metrô e eu senti o que vem a ser o calor humano nos ossos. Um aperto ímpar hoje, o ar quase a faltar-me e pela janela vejo duas meninas a bater papo na plataforma da estação e, sem pressa alguma de chegar, elas riam. Como sou estupida, pensei. Porque não me deixei ficar num dos bancos à espera de que o mar de gente fosse embora. E uma inveja da liberdade das meninas me roeu fundo. Trilha sonora na minha cabeça: O Rodo Cotidiano do Rappa..

Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
É
A idéia lá
Corria solta
Subia a manga
Amarrotada social
No calor alumínio
Não tinha caneta, nem papel
E uma ideia fugia
Era o rodo cotidiano
Era o rodo cotidiano
Espaço é curto
Quase um curral
Na mochila amassada
Uma quentinha abafada
Meu (troco é pouco) 
(É quase nada)
Meu troco é pouco
É quase nada
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Não se anda
Por onde se gosta
Mas por aqui não tem jeito
Todo mundo se encosta
Ela some é lá no ralo
(De gente)
Ela é linda, mas não tem nome
É comum e é normal
Sou mais um no Brasil da Central
Da minhoca de metal
Que corta as ruas
Da minhoca de metal que toca as ruas
Como um Concord apressado
Cheio de força
Que voa, voa pesado
Que o ar
E o avião, o avião, o avião, o avião do trabalhador
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Ô ô ô ô ô my brother
Não se anda
Por onde encosta
Mas por aqui não tem jeito
Todo mundo se encosta
Ela some é lá no ralo
(De gente)
Ela é linda, mas não tem nome
É comum e é normal
Sou mais um no Brasil da Central
Da minhoca de metal
Que corta as ruas
Da minhoca de metal que toca as ruas
Como um Concord apressado
Cheio de força
Que voa, voa pesado
Que o ar
E o avião, o avião, o avião, o avião do trabalhador



terça-feira, 27 de agosto de 2019

Último Desejo



Nosso  amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre, hoje, sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seus beijos
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

domingo, 25 de agosto de 2019

Sem Ar



Sem Ar

Ita significa pedra, e eu sempre soube o que significa a palavra curumim. Mandioca faz parte da minha dieta desde menina, como de todo brasileiro. Amo pipoca e sei preparar tapioca. Entre as lendas e o folclore que construíram quem sou eu, mais do que princesas, há a Caipora, a Iara e o Saci Pererê. Pois, é assim, apesar de não haver em mim qualquer traço de sangue indígena e dos meus ancestrais terem vindo todos de além mar, a herança cultural indígena faz parte de mim.

Não compreendo a existência sem uma herança indígena, sem a mata como casa e sem as árvores como amigas com quem se conversa regularmente. Falo com minhas plantas, coisa que minha mãe me ensinou, e sinto falta delas como se sente falta de alguém que se quer bem. Não sei o que as pessoas no geral sentem quando estão perto das plantas pequenas ou das árvores gigantescas, mas eu sinto uma força enorme vinda delas; um poder silencioso e tranquilo que me faz respirar mais tranquilamente. Às vezes tenho ganas de ser árvore e ver, calmamente, a vida acontecendo ao meu redor.

Por tudo isso, além da tristeza que sinto pelo pouco respeito que meu país tem demonstrado por nossas florestas, ando a sentir uma revolta crescente e um cansaço agudo de ouvir tanta besteira sendo dita por quem, em teoria, me representa. O tal Senhor Jair é mesmo um ser que beira a repugnância com seu discurso hipócrita, ignorante e preconceituoso. Reflexo translúcido de seu falso interesse e respeito pelo nosso país e de seus arroubos de ditador imperial. Seu Jair, mais do que qualquer coisa na vida, quer mandar com mão forte e poucos argumentos. Já que para ele a única coisa que interessa são os interesses próprios, e de sua prole ignóbil, e a única verdade que conta é aquela que sai de sua perversa cabeça.

Seu Jair vive num mundo absurdo que é só dele e, infelizmente, anda a tornar o meu mundo mais cinza e triste. Um mundo onde há dias nos quais me esforço para respirar porque me falta o ar.


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Nego




Nego


Negue,

renegue meu nego que eu existo

Mas eu, veramente, respiro

a arremedar insolente, de osso e carne, as gentes

me negando

à negligente covardia de quem segue a vida com palas em cega linha

Negue,

renegue meu nego que eu existo

Contudo, minha voz muda chega aos teus ouvidos

ignorando a lógica de toda a geografia,

estou a léguas de ti e, ao mesmo tempo, sussurro ao teu ouvido

todo santo dia

domingo, 18 de agosto de 2019

Negue





Negue

Negue seu amor, seu carinho
Diga que você já me esqueceu
Pise, machucando com jeitinho
Este coração que ainda é seu
Diga que meu pranto é covardia
Mas não me esqueça
Que você foi meu um dia
Diga que já não me quer
Negue que me pertenceu
E eu mostro a boca molhada
Ainda marcada pelo beijo seu
Diga que já não me quer
Negue que me pertenceu
Eu mostro a boca molhada
E Ainda marcada pelo beijo seu