terça-feira, 22 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Bem-Me-Leve
A vida sem música é inconcebível. E há canções que mais que nos acalentarem, nos traduzem e nos tornam parte de um mundo sonoro e amplo. Assim, não nos sentimos tão sozinhos, e nada originais. Que bom!
Bem-me-leve
Apanhador Só
eu pensava ter uma bicicleta
e pedalar até a tua rua
dizer que ainda sou tua
eu queria ser um avião bem leve
pra sobrevoar o teu terraço
e tapar teu sol
fazer tu perceber
que sem eu aí não tem
ninguém pra te aquecer
perfume atrás da orelha
vestido bem vestido
um sorriso no rosto
um punhado de amigos
que é pra,
se acaso eu te encontrar um dia,
tu ver como eu ainda tô bonita
ou mais
ainda mais ainda
ou mais
sábado, 19 de outubro de 2013
Vinicius de Moraes, 100 anos de um homem eterno
Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
O meu Vinicius de Moraes
Nesta semana, mais precisamente no
dia 19 de Outubro, Vinicius de Moraes completaria 100 anos de vida, e tal
idade, nos dias de hoje, já não nos parece tanto assim, pois não? Fato que me
deixa ainda mais magoada com a partida dele, um tanto prematuramente para mim, no
dia 9 de julho de 1980. Será que Deus não poderia ter sido mais generoso
conosco e ter deixado o poeta mais tempo entre nós? “Que maçada!” diria o português.
Pois que eu, ainda muito menina, já era grande fã no final dos anos 70 e fiquei
para lá de chateada com a morte do homem que fizera poesia que me fazia rir e
cantar.
Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há.
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há.
Apaixonei-me por ele com a Arca de Noé, poesia para crianças
e, ainda hoje, acho demasiado injusto isso dele ter se ido para versar no céu.
Numa época em que ainda não havia a chatice do politicamente correto e a falta
de educação dos dias de hoje, Vinicius, de uísque à mão e cigarro entre os
dedos, foi a Xuxa da minha geração. Eita infância boa, não? Lembro-me ainda da
fascinação de ouvir pela primeira vez o poema A Casa e tentar, durante
toda a infância, imaginar como seria a tal moradia sem chão ou paredes e que,
apesar disso, tinha sido feita com muito esmero na rua dos bobos, número zero. Agora,
ouvindo novamente o poema feito em canção, aperta-me o peito, inundam-se os
olhos. Que saudade da infância com Vinicius de Moraes...
Lembro-me também que diante de meus olhos pousou-se o Soneto
de Separação no primeiro semestre da Faculdade de Letras. Minha
primeira análise de uma poesia a sério e “valendo nota” donde deveriam sair
cinco laudas. Lembro-me que eu só pensava: “Deus meu, como escrever cinco
laudas a partir de 14 versos, distribuídos em 2 quadras e 2 tercetos com os
tais dos abba/abba/cdc/cdc?”. Felizmente as tais laudas saíram, e mais
felizmente ainda, hoje sei que poesia não deve ser vista como uma fórmula ou
analisada como se fosse uma expressão da matemática, ou coisa lá da gramática.
Coisa que Vinicius, que sempre deu de ombros aos louros e às formalidades bem o
sabia; poesia é feita para encantar-nos, para ser sentida e para significar
muito, muito mesmo, em pouquíssimas linhas.
Soneto de separação
De repente do riso fez-se
o pranto
Silencioso e branco como
a bruma
E das bocas unidas fez-se
a espuma
E das mãos espalmadas
fez-se o espanto.
De repente da calma
fez-se o vento
Que dos olhos desfez a
última chama
E da paixão fez-se o
pressentimento
E do momento imóvel
fez-se o drama.
De repente, não mais que
de repente
Fez-se de triste o que se
fez amante
E de sozinho o que se fez
contente.
Fez-se do amigo próximo o
distante
Fez-se da vida uma
aventura errante
De repente, não mais que
de repente.
Ainda hoje admiro
a Vinicius não apenas por sua obra em si, mas também pela sua capacidade de
tornar algo normalmente distante e feito apenas para poucos, como o é a poesia,
em algo que encantou a todos nós, dos mais miudinhos como eu aos seis ou sete
anos de idade com a sua Arca poética ou ao Mundo inteiro dos adultos com a tal Garota
que passava pela orla de Ipanema. E tenho certeza que a música de meu país deve
a ele muito de toda a qualidade e beleza que encontramos nas letras que dão voz
a música brasileira. Vinicius foi grande.
Sei que por
muitos motivos muitos creem que o meu Vinicius não se compara aos outros
senhores da poesia nativa - os grandes poetas brasileiros, e que um Bandeira,
um Melo Neto e um Drummond têm um peso muito maior na história da nossa
literatura; eu sei. Entretanto eu sei, também, que ele foi capaz de escrever versos
simples, singelos, tão fortes e verdadeiros, tão possíveis de serem sentidos e
compreendidos que ficaram imediatamente, e para todo o sempre, no coração de
toda a gente que, um dia, colocou seus olhos neles. Um viva pro Vinicius: Viva!
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Vinícius de Moraes (e seus 100 anos)
Soneto da Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Vinícius de Moraes (19.10.1913)
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
Desacostumar-se
Noutro dia li algo que me trouxe
um desconforto diferente, novo. Numa placa no meio de uma praça em Montevideo
lia-se: “Me estoy felizmente desacostumbrando de mí.”. Pensei o quão bom seria
se, por apenas alguns dias de vez em quando, pudéssemos nos esquecer de quem
somos; esquecer tudo que nos incomoda, estorva. Sei que este não é o significado
da frase em si, mas foi o que me veio à mente.
Veio-me porque a tal frase
remeteu-me a algo dito há quase um ano atrás por alguém muito importante para.
Disse-me, um tanto indiretamente, que meu problema era querer encontrar alguém
nesta vida que me salvasse de mim mesma. E dá-me uma raiva ainda lembrar-me
disso como se fora dito ontem. Por que eu não me esqueço das coisas? Por que,
simplesmente, não as deixo para trás? Eu seria tão mais feliz se tivesse esta
capacidade camaleônica de transformar-me de maneira mais rápida. Seria tão bom
acostumar-me com uma nova versão de mim mesma.
Pois, um ano depois ainda custa-me
caro aguentar-me como sou: uma composição irônica de sonhadora-teimosa com
direito a veia dramática e etecetera e tal. E a ideia de movimento que a frase
da praça preconiza parece-me à tábua de minha salvação particular. Quão bom
seria eu desacostumar-me de quem sou e, por isso, ser capaz de ser outra e
poder, verdadeiramente, mudar. Seria realmente muito bom.
Isso não quer dizer que não haja
nenhuma mudança, claro que não. Ela existe constante e determinada, mas não
profunda o bastante para tornar-me outra; como não ocorre com quase ninguém,
penso eu. Mudamos na velocidade de lesmas preguiçosas, e uma vida constitui
pouco tempo para muita coisa. Isso também não quer dizer que eu arrependa-me de
tudo que fiz na vida, claro que não 2. Não me arrependo. E, pelo contrário, como
boa teimosa, arrependo-me daquilo que não consegui fazer e continuo, feito mula
empacada, a acreditar que ainda tenho razão de querer todo o meu querer.
A verdade é que a vida como eu a sinto
e imagino, por vezes, está um tanto longe do real, e eu gostaria muito de ser
uma pessoa mais objetiva; realista. Talvez nem todo o tempo desta vida tenha a
capacidade de mudar-me tanto assim. Talvez. Contudo, imaginar-me outra é algo
no mínimo divertido, não? Por isso, sorrio todas as vezes que penso na tal
frase – “Me estoy felizmente desacostumbrando de mí.”.
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