segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bem-Me-Leve



A vida sem música é inconcebível. E há canções que mais que nos acalentarem, nos traduzem e nos tornam parte de um mundo sonoro e amplo. Assim, não nos sentimos tão sozinhos, e nada originais. Que bom!

Bem-me-leve
Apanhador Só

eu pensava ter uma bicicleta
e pedalar até a tua rua
dizer que ainda sou tua

eu queria ser um avião bem leve
pra sobrevoar o teu terraço
e tapar teu sol

fazer tu perceber
que sem eu aí não tem
ninguém pra te aquecer

perfume atrás da orelha
vestido bem vestido
um sorriso no rosto
um punhado de amigos
que é pra,
se acaso eu te encontrar um dia,
tu ver como eu ainda tô bonita

ou mais
ainda mais ainda
ou mais
ainda mais bonita


sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes, 100 anos de um homem eterno


Chega de Saudade

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim

Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O meu Vinicius de Moraes


Nesta semana, mais precisamente no dia 19 de Outubro, Vinicius de Moraes completaria 100 anos de vida, e tal idade, nos dias de hoje, já não nos parece tanto assim, pois não? Fato que me deixa ainda mais magoada com a partida dele, um tanto prematuramente para mim, no dia 9 de julho de 1980. Será que Deus não poderia ter sido mais generoso conosco e ter deixado o poeta mais tempo entre nós? “Que maçada!” diria o português. Pois que eu, ainda muito menina, já era grande fã no final dos anos 70 e fiquei para lá de chateada com a morte do homem que fizera poesia que me fazia rir e cantar.

Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há.

Apaixonei-me por ele com a Arca de Noé, poesia para crianças e, ainda hoje, acho demasiado injusto isso dele ter se ido para versar no céu. Numa época em que ainda não havia a chatice do politicamente correto e a falta de educação dos dias de hoje, Vinicius, de uísque à mão e cigarro entre os dedos, foi a Xuxa da minha geração. Eita infância boa, não? Lembro-me ainda da fascinação de ouvir pela primeira vez o poema A Casa e tentar, durante toda a infância, imaginar como seria a tal moradia sem chão ou paredes e que, apesar disso, tinha sido feita com muito esmero na rua dos bobos, número zero. Agora, ouvindo novamente o poema feito em canção, aperta-me o peito, inundam-se os olhos. Que saudade da infância com Vinicius de Moraes...

Lembro-me também que diante de meus olhos pousou-se o Soneto de Separação no primeiro semestre da Faculdade de Letras. Minha primeira análise de uma poesia a sério e “valendo nota” donde deveriam sair cinco laudas. Lembro-me que eu só pensava: “Deus meu, como escrever cinco laudas a partir de 14 versos, distribuídos em 2 quadras e 2 tercetos com os tais dos abba/abba/cdc/cdc?”. Felizmente as tais laudas saíram, e mais felizmente ainda, hoje sei que poesia não deve ser vista como uma fórmula ou analisada como se fosse uma expressão da matemática, ou coisa lá da gramática. Coisa que Vinicius, que sempre deu de ombros aos louros e às formalidades bem o sabia; poesia é feita para encantar-nos, para ser sentida e para significar muito, muito mesmo, em pouquíssimas linhas.

Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Ainda hoje admiro a Vinicius não apenas por sua obra em si, mas também pela sua capacidade de tornar algo normalmente distante e feito apenas para poucos, como o é a poesia, em algo que encantou a todos nós, dos mais miudinhos como eu aos seis ou sete anos de idade com a sua Arca poética ou ao Mundo inteiro dos adultos com a tal Garota que passava pela orla de Ipanema. E tenho certeza que a música de meu país deve a ele muito de toda a qualidade e beleza que encontramos nas letras que dão voz a música brasileira. Vinicius foi grande.

Sei que por muitos motivos muitos creem que o meu Vinicius não se compara aos outros senhores da poesia nativa - os grandes poetas brasileiros, e que um Bandeira, um Melo Neto e um Drummond têm um peso muito maior na história da nossa literatura; eu sei. Entretanto eu sei, também, que ele foi capaz de escrever versos simples, singelos, tão fortes e verdadeiros, tão possíveis de serem sentidos e compreendidos que ficaram imediatamente, e para todo o sempre, no coração de toda a gente que, um dia, colocou seus olhos neles. Um viva pro Vinicius: Viva!

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vinícius de Moraes (e seus 100 anos)




Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Vinícius de Moraes (19.10.1913)


domingo, 13 de outubro de 2013

Desacostumar-se


Noutro dia li algo que me trouxe um desconforto diferente, novo. Numa placa no meio de uma praça em Montevideo lia-se: “Me estoy felizmente desacostumbrando de mí.”. Pensei o quão bom seria se, por apenas alguns dias de vez em quando, pudéssemos nos esquecer de quem somos; esquecer tudo que nos incomoda, estorva. Sei que este não é o significado da frase em si, mas foi o que me veio à mente.

Veio-me porque a tal frase remeteu-me a algo dito há quase um ano atrás por alguém muito importante para. Disse-me, um tanto indiretamente, que meu problema era querer encontrar alguém nesta vida que me salvasse de mim mesma. E dá-me uma raiva ainda lembrar-me disso como se fora dito ontem. Por que eu não me esqueço das coisas? Por que, simplesmente, não as deixo para trás? Eu seria tão mais feliz se tivesse esta capacidade camaleônica de transformar-me de maneira mais rápida. Seria tão bom acostumar-me com uma nova versão de mim mesma.

Pois, um ano depois ainda custa-me caro aguentar-me como sou: uma composição irônica de sonhadora-teimosa com direito a veia dramática e etecetera e tal. E a ideia de movimento que a frase da praça preconiza parece-me à tábua de minha salvação particular. Quão bom seria eu desacostumar-me de quem sou e, por isso, ser capaz de ser outra e poder, verdadeiramente, mudar. Seria realmente muito bom.

Isso não quer dizer que não haja nenhuma mudança, claro que não. Ela existe constante e determinada, mas não profunda o bastante para tornar-me outra; como não ocorre com quase ninguém, penso eu. Mudamos na velocidade de lesmas preguiçosas, e uma vida constitui pouco tempo para muita coisa. Isso também não quer dizer que eu arrependa-me de tudo que fiz na vida, claro que não 2. Não me arrependo. E, pelo contrário, como boa teimosa, arrependo-me daquilo que não consegui fazer e continuo, feito mula empacada, a acreditar que ainda tenho razão de querer todo o meu querer.


A verdade é que a vida como eu a sinto e imagino, por vezes, está um tanto longe do real, e eu gostaria muito de ser uma pessoa mais objetiva; realista. Talvez nem todo o tempo desta vida tenha a capacidade de mudar-me tanto assim. Talvez. Contudo, imaginar-me outra é algo no mínimo divertido, não? Por isso, sorrio todas as vezes que penso na tal frase – “Me estoy felizmente desacostumbrando de mí.”.