quarta-feira, 17 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Fernando Pessoa
Não sei quantas almas
tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
fim
O avesso do começo,
da esperança e do desejo
que pareceu, aos olhos do desejoso,
dadiva divina, Dom de Deus,
vem.
Vem o fim, sem piedade. Exército em marcha,
vestido com suas insensíveis botas de chumbo em linha reta.
Chega, tal império americano ou romano,
este fim
a matar, como se assim natural fosse,
todas as flores do nosso jardim.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Maria
A menina Maria nasceu como
milhares de outros meninos e meninas nascem todos os dias, e com ela, como com
todos os filhos e filhas deste mundo, vieram toda a felicidade e toda a
preocupação que chegam com o aparecimento de um amor que desconhece quaisquer fronteiras.
Pois, desde o momento que nascem seus filhos todo e qualquer mãe e pai têm uma
única certeza: eles nunca mais serão os mesmos. E ficam de pronto abestalhados
com o poder de sedução deste ser tão pequeno que os invade e os cativa para
todo o sempre.
E Maria sempre foi uma menina
especial, pois ela foi especialmente desejada, especialmente esperada e, antes
e acima de tudo, especialmente amada desde o primeiro minuto de existência
simplesmente por ela ser quem é; por sua existência. Menina filha de pessoas
que resolveram nela crer e por ela lutar de maneira incondicional e apaixonada.
E lutou-se por ela pôr muito tempo, desde muito antes dela existir, e ainda se
luta. E a pequena Maria luta também. Uma luta que jamais será justa por ela ser
ainda tão pequena e indefesa e porque há lutas que são injustas porque, desde o
princípio, sabemos que não poderemos vencê-las como gostaríamos. A vitória será
dura e parcial. Uma vitória que apenas Deus e o tempo nos farão compreender.
Maria nasceu anjo e,
como todo ser provido de asas, não ficará aqui por muito, muito tempo. A menina Maria, por suas qualidades aladas,
por pertencer aos céus feito passarinho, não poderá ficar aqui parada, presa à
Terra; e não há como impedir tal fato. Esta menina está além de onde estamos
nós hoje e, portanto, simplesmente, não nos pertence; Maria veio de visita. Ela
veio para mostrar sua força, para mostrar a capacidade incontestável e infinita
do amor, e sem usar palavra alguma conseguiu dizer tudo isso e muito mais a
seus pais.
Como sabemos todos nós, nunca
estamos preparados para dizer adeus para ninguém. Nunca o estaremos. E tal dor
e dificuldade tomam proporções oceânicas quando a este adeus inclui-se a
palavra filho. E por mais força que eu faça, não conheço palavras para descrever
tamanha prova divina e não consigo vislumbrar o tamanho deste sentimento. Sei
que será muito difícil, talvez, a parte mais difícil da vida até o momento. E
sei que tudo que posso fazer ou dizer será muito pouquinho, um quase nada.
Contudo, sei também que apesar de assim não o parecer, pois fisicamente não
será desta forma, Maria veio para ficar. Ela existe hoje e existirá para todo o
sempre no coração de seus pais e de toda família. Ela será parte deles. Maria
será sempre, e para todo o sempre, o mais puro e verdadeiro amor.
Um beijo especial e um cheiro
para a menina Maria e para seus pais.
domingo, 7 de julho de 2013
Pedaço de Mim
De repente somos adultos, donos de tudo, completos e
independentes de quaisquer outros seres para viver. Não precisamos mais de
ninguém. Certo? Bem, apesar de ser isso que vislumbramos durante anos até a tal
da idade adulta chegar, nada está mais distante da realidade que esta
imaginação de que, um dia, seremos um ser, em e por nos mesmos, completo. E, por
esses dias, com o Chico Buarque a cantar no meu computador, a canção “Pedaço de
Mim” tomou uma proporção diferente, mais real e ampla do que eu gostaria de
reconhecer. Mesmo sem pensar no amor romântico tal Romeu e Julieta, não há como
não perceber que na tal vida adulta somos o oposto de um ser completo. Somos um
quebra-cabeça de partes que não nos pertencem, e que nunca estão todas juntas. Somos
quem somos porque em nós há muito, uma parte imensurável, dos outros.
Imagino que deva haver o indivíduo completamente
independente. Sim, deve haver pelo menos uma mão cheia deles por aí a ser feito
o vento e não precisar de ninguém para correr sem limites nem fronteiras pela
vida. Um ser que vá em frente sem se importar se e quem ele carrega consigo;
posto que sua natureza é o fluir independente de tudo e de todos que surgem à
sua frente. Deve haver. Mas para mim, e creio que para a maioria de nós, quando
finalmente somos os donos de nossos próprios narizes, percebemos que não somos
mais os donos de parte alguma do corpo. Notamos que sempre nos faz falta um outro
par de braços para os nossos abraços. Não podemos abraçar sozinhos, não podemos
beijar sozinhos e, pior e mais cruelmente ainda, a bem da verdade não nos serve
qualquer par de braços e lábios. Não senhor. Apenas nos servem aqueles que para
nós foram feitos, apesar de eles serem parte de outros corpos. Queremos os
braços dos amigos, da família e dos amantes; amores de toda uma vida.
E este é um querer, um bem querer, sem fim que incomoda feito
espinho no dedo ou comichão no meio das costas. Não dá para ignorar. Claro que
há momentos nos quais queremos estar sós, vários deles. Contudo, a verdade é que
a razão da nossa vida jamais será encontrada dentro de nós mesmos. Não vivemos
apenas para nós mesmos, vivemos para com os outros criarmos o que chamamos de
vida. Mario Quintana escreveu: “Amar é mudar a alma de casa.”, e creio que ele
está certo. Nossa alma não nos pertence completamente, e acrescento que ela,
por causa do amor, move-se. Busca ampliar-se e melhorar no afã de completar-se;
apesar de saber que sempre será assim: uma alma onde falta uma parte; várias
partes.
Então chegam os filhos, vindos do ventre ou não, e aí
percebemos que não nos faltam uma ou várias partes, não. Com os filhos
percebemos que nos falta o todo, o tudo; que por eles somos capazes de matar e
de morrer; capazes de tudo. Por causa dos filhos muda o mundo, nós mudamos,
mudam até os significados das palavras que antes críamos dominar. O medo e a
coragem se agigantam, a saudade vira sinônimo de infinito, e o amor explica-se,
pleno, em si mesmo. Porque os filhos não são uma parte de quem somos nós, de
modo algum. Nós é que somos uma parte deles e a eles pertenceremos para todo o
sempre.
Um beijo e um abraço para todos, que ando a sentir umas
saudades de matar da família, dos amigos e dos amores antigos.
Amar é mudar a alma de
casa
Amar é mudar a alma de casa,
é ter no outro, nosso pensamento.
Amar é ter coração que abrasa,
amar, é ter na vida um acalento.
Amar é ter alegria que extravasa,
amar é sentir-se no firmamento.
"Amar é mudar a alma de casa",
é ter no outro, nosso pensamento.
Amar, é aquilo que embasa,
é ter comprometimento.
Amar é, voar sem asa,
e porque amar é acolhimento,
"amar é mudar a alma de casa"
- Mario Quintana, in "Apontamentos de História
Sobrenatural".
quinta-feira, 4 de julho de 2013
O Fim
De repente encontrou-se velha no
espelho como se a vida tivesse dado um salto de pernas milenares e gigantescas.
Viu-se tranquilamente, apesar da novidade repentina da velhice, como se vê a uma
antiga conhecida; como se visse a mulher que sempre soubera ser e que morava
escondida por detrás de suas carnes vivas. Ana não compreendia como ocorrera
tamanha mudança sem que ela a sentisse. Dormira um sono de anos? Desde quando
deixara de perceber-se, de ver-se? Ana estava velha como tanto quis ser um dia,
velha para além dos sentimentos, das lembranças e dos ressentimentos. Delicadamente
seca e admirada despiu-se.
Nua, via-se pela primeira vez clara e
verdadeiramente. Os ossos a marcar a pele seca e sem cor mostravam em seu
contorno as arestas que ela cultivara e que se esconderam nas linhas suaves dos
anos de menina e nas curvas preguiçosas dos anos de mulher. Não havia mais
subterfúgios. Lá estavam as dores semeadas nas linhas da pele em traços
profundos e resistentes de par com a dureza aguda expressa pelos ossos que
gritavam sua existência antes pressuposta em sussurros. Os pelos e o cabelo
minguavam tristonhos e pesados, desiludidos pela distância das mãos há tanto
ausentes e já não eram capazes de cobrir os olhos sem luz cheios de realidade;
cansados pela realidade que os invadiu por anos e anos. Apenas Ana sabia que
seus olhos estavam mortos há muito tempo, e os escondia atrás dos cachos
coloridos. Agora, seus olhos estavam tão nus quanto ela, tão explícitos quanto
ela.
Ana vestiu-se. Vestiu uma roupa
qualquer por não haver qualquer intensão de sair, de mover-se para além daquela
solidão silenciosa e segura do apartamento. O conforto da velhice e do
esquecimento havia chegado e ela podia descansar; podia desistir finalmente de
tudo, do todo, de todos e, fundamentalmente, de si mesma. Naquele momento, ela
percebeu que o vazio que a corroeu com suas angústias e o enjoo que ele causava
a abandonaram. Ana estava em paz e podia deixar-se sem culpas, sem desculpas,
sem necessidades de motivos para além dela para o que iria fazer. Ela podia sentar-se
e esperar pelo fim breve, sem memórias e indolor.
A velha senhora, encarnada de sua
falta de vida, dirigiu-se à janela fechada. Ana sentou-se lentamente e, da
mesma maneira, pousou a fronte contra a vidraça para quieta despedir-se da vida;
em silêncio, vazia. Contudo, um fio de pensamento a assombrava às portas de seu
ato final - João.
terça-feira, 2 de julho de 2013
Lindo de ouvir e ver
Ilegais
Vanessa da Mata
Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa vida
E será uma maldade veloz
Malignas línguas
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Ilegais
Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você
Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa farra
E será uma maldade voraz
Pura hipocrisia
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Olhos ilegais
Eu só sei que eu quero você
Pertinho de mim
Eu quero você
Dentro de mim
Eu quero você
Em cima de mim
Eu quero você
You Don’t Love Me No
No No
No no no
You don't
love me
and I know
now
No no no
You don't
love me
as I know
now
Coz you
left me
Baby
And I got
no place to go now
No no no
I'd do
anything to stay boy
No no no
I'd do
anything to stay boy
Coz if you
asked me
Baby
I'll get on
my knees and pray boy
By Dawn Penn
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