segunda-feira, 12 de maio de 2014

Azul vivo


O mar recua afastando-se dos pés que há instantes tocavam-no tímidos.
Eles sabem o que virá a seguir,
e, apesar de sabê-lo, não correm. Não fogem.
Esperam como espera o gado nos campos,
como espera todo louva-a-deus apaixonado:
resignados.
Entregues a seu destino de pés presos por vontade própria,
quedam-se imóveis contra sua natureza que os ordena:
caminhem.
Não caminham. Antes permanecem parados; estátuas à espera que venha, com a chegada da realidade, a viva lembrança das ondas mansas, mornas e suaves a beijar-lhes
os dedos,
o peito
a planta
os calcanhares.
Perderam-se pelos beijos da espuma marinha,
pelo canto das serias
pelos sons doces que as ondas faziam ao abraçar as pedras nas manhãs de outono.
Sentem, eles sabem que o mar em breves instantes eternos voltará
gigantesco e azul vivo.
Voltará o mar com fome e com sede.
E por ele, pelo mar azul e vivo, aguardam os pés que sabem que preferem ficar.





domingo, 11 de maio de 2014

O Par Perfeito



Gostaria de crer que temos na vida os pais que merecemos e para os quais fomos destinados porque assim Deus quis. E isso vai muito além do fato de termos sido biologicamente criados por eles, mas porque fomos e somos amados incondicionalmente por eles. E isso, a meu ver, é muito difícil de explicar e entender racionalmente. E, vez ou outra, pergunto-me se mereço tanto assim.

Sim. Tive, como muita gente nesta vida, a sorte de ter pais feitos na medida certa e que nos deram, a meu irmão e eu, seus filhos, tudo o que precisávamos ter. Um tanto gigantesco de amor acompanhado de broncas quando elas foram necessárias, abraços e beijos em número infinito e um punhado de tapinhas na bunda e de castigos para entendermos melhor a vida, toda a liberdade do mundo e limites muito claros e rígidos para aqueles momentos nos quais eles eram necessários. Sérgio e eu tivemos a perfeita vida imperfeita: algo cheio de erros com a intenção de que todos eles tivessem sido acertos. O melhor possível nos foi dado.

Minha mãe e meu pai são e sempre foram para mim, antes de serem Odila e Jesus, meus pais. E isso é muito. Isso quer dizer que eles sempre estão lá quando deles nós, os filhos, precisamos; que nos deram, e dão ainda nos dias de hoje, colo, suporte e carinho; além dos sermões esporádicos, claro. Ou seja, não sei se eles tinham outros planos para a vida deles, porém, para mim, sempre me pareceu que o plano era fazer-nos felizes. E, pensando nisso agora, não consigo imaginar nada mais bonito e generoso nesta vida.

Hoje comemoramos o dia das mães, o dia da minha mãe. Dia da mulher que me tem como sua, para a qual eu sempre serei uma menina; a melhor mulher do mundo e aquela que eu mais amo nesta vida. Contudo, não haveria minha mãe sem meu pai, como não haveria o Jesus que conheço sem a Odila. Eles são dois, é verdade. São pessoas completamente diferentes, é verdade também. Mas juntos formam um par perfeito nesta vida, e Sérgio e eu tivemos a sorte de tê-los como nossos pais. E eu os amo muito e sempre.

Então, queria desejar aos dois, ao par mais perfeito que eu já conheci, apesar de todas as imperfeições, um feliz dia das mães.

Te amo Mi! Te amo Papito!

Muito abrigada por tudo.


terça-feira, 6 de maio de 2014

20 anos de saudade...

... de Mario Quintana e sua poesia. (05.05.94)




A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


Do amoroso esquecimento

Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Segunda canção de muito longe

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…
Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa…

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.

Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas…
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos…
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras…

Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!…
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Poeminha do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!


Relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.


Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…


Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…


Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


Tic-tac

Esse tic-tac dos relógios
é a máquina de costura do Tempo
a fabricar mortalhas.

domingo, 4 de maio de 2014

Azul (2)

Azul (2)

O céu é azul, azul solitário; eterno.
Um teimoso azul persistente
que independe de qualquer outra coisa
que aconteça
nesta terra que ele circunda.
Soberano.
Tirânico.
Independente(mente) de eu vê-lo ou não,
lá está o céu azul
a medir com régua milimétrica a (des)importância de minha existência vil.
De um azul que não se borra,
não desbota,
e nem se importa se ainda há olhos abertos a fitá-lo por respostas,
vive o céu impávido e anil.
E tanto esperamos deste céu que não existe,
e que é azul;
apenas azul e vazio.
Sem significantes, sem significados
para além de sua natureza simples e própria:
ser azul.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Senna!


Missing you since 01.05.94

Te extraño hace 20 años

Desde o dia 01.05.94 penso no que poderia ter sido feito para que este dia tivesse sido diferente. 

Saudades.

terça-feira, 22 de abril de 2014