domingo, 15 de novembro de 2015

Poesia Para Dias Turvos



A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


De Carlos Drummond de Andrade 
Mineiro e antigo, atual e a retratar o homem do Mundo

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Tempo (5)



O Tempo

Meses, anos, dias, horas...
horas, dias, meses e, depois de uma pausa um pouco mais longa
dos olhos, serão anos.
Não sei se o tempo faz diferença, se algum dia,
depois que os anos já puderem ser contados às dezenas,
ele fará alguma diferença. Uma diferença qualquer.
Não sei.
Se a saudade é alimentada pela ausência e
se esta, por sua vez, amplia seus espaços com o tempo;
como poderá, um dia, todo o tempo passado fazer diferença?
Não sei.
Talvez, com o tempo,
horas
dias
meses
anos e suas dezenas
apenas aprendamos a fingir melhor, para nós mesmos,
não sentir
o que, independente de todo o tempo,
ainda sentimos do mesmo jeito
com nossos ponteiros de relógio imóveis.

domingo, 8 de novembro de 2015

O país dos calhordas


O país dos calhordas

Calhorda, no dicionário, significa: pessoa desprezível ou de baixo nível moral. Aqui no Brasil o vocábulo ganhou novos contornos e anda a ser um sinônimo mui utilizado para nomear os políticos que nos representam. No Brasil político é sinônimo de calhorda. É verdade que não é bem assim, e que boa parte da classe política deste país está cheia de boas intenções, apesar de agir muito pouco em sua maioria. Contudo, não há como negar que estamos metidos numa espécie de show de horrores no que diz respeito aos que nos governam, pois, não precisamos prestar muita atenção para percebermos que temos, espalhados por todos os antros e cargos públicos desta Nação, ladrões de carreira, evangélicos retrógrados de carteirinha, mentirosos contumazes, corruptos crônicos, prevaricadores, chupins com pouca massa cinzenta e os oportunistas anjos-do-pau-oco de costume.

Por estes dias, o Cara-de-Pau bola da vez, o Sr. Eduardo Cunha, deu uma entrevista para padre ver, (no caso dele pastor evangélico), a demonstrar com sua conversinha para boi dormir que ele nunca fez nadica de nada errado na vida. E, à la Maluf, explicou que nunca mentiu sobre não ter o dinheiro no exterior que ele deveras tem. Todo santo-empresário-do-bem, Cunha explicou que tanto dinheiro foi ganho com a venda de carne e outros alimentos ao Congo, apesar de não haver como prová-lo já que isso ocorreu no século passado e a tal empresa não existe mais. E que é natural que ele não possa explicar parte do dinheiro “em seu nome”, pois, e de fato, ele não sabe direito de onde veem os US$ 1,3 milhões em depósitos feitos em suas contas, que não são suas; porque ele, Cunha, não as administra e é, apenas, aquele que pode usufruir do dinheiro todo.

A primeira pergunta que me vem à cabeça, depois de ouvir a entrevista, é por que será que na minha conta, aqui no Brasil mesmo, nunca nenhum dinheiro jamais foi depositado por milagre sem que eu soubesse de onde vinha? E sinto-me tão pobre que acho que o certo, atualmente, é criarmos algumas novas classes para descrever os tipos de gentes aqui no Brasil, porque isso de classe A B C e D não dá mais conta da disparidade de dinheiro que existe entre quem trabalha e produz algo e aqueles que governam este país. Acho que devemos deixar a timidez de lado e irmos, sem qualquer pudor, até o Z, não?

A segunda pergunta que me vem à cabeça, na atual conjuntura, é: ainda é feio e pecado darmos uns bons tapas na cara dos políticos em meu país ou isso já começa a ser visto como um ato honrado? Pergunto porque o limite de indignação anda a níveis estratosféricos e a paciência, pelo menos a minha e a de muita gente que eu conheço, já acabou faz um par de anos; pelo menos.


Chistes à parte, a verdade é que andamos a afundar o país na merda mais uma vez, infelizmente, e que isso é algo muito ruim para todos nós. Pois nós, os brasileiros de pouco dinheiro, vivemos num país violento, injusto e sem infra-estrutura que reserva aos seus cidadãos com pouca grana uma vida, no mínimo, difícil. Claro é que o senhor Cunha não é o único, ele é apenas um de um bando cruel que nos assalta há anos. Porém, o mais importante é lembrarmos que somos nós os que damos a eles o poder e os cargos dos quais agora tiram todo o proveito possível. Então, mesmo que demore um pouco, e se começarmos a prestar mais e mais atenção em tudo que se passa por aqui, nas urnas poderemos retirar toda essa gente podre que grassa e desgraça no Planalto Central e adjacências.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O Último Poema





O que dizer de um filme que me fez chorar assim que iniciou seu trailer?



Caixas de lenços serão necessárias na sala de cinema.

                                                   Um filme feito para quem ama a poesia e as palavras

Cartas, uma paixão sem tempo nem espaço definido e, portanto, eterna.

                    Drummond, um homem que eu deveria ter conhecido.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Últimos



Últimos

O último dia acontece como se nada fosse,
sem avisos,
e como um outro dia qualquer.
Tão trivial como qualquer outro, disfarçado em dia comum,
convida-nos ao engano de achar que ainda temos tempo;
que ainda nos sobra muito tempo.
As últimas horas acontecem como se nada fossem,
silenciosas.
Sem sinais claros de que já não haverá dias ou noites a velar,
fazemos planos tolos para os próximos meses,
para esta semana,
para a tarde que mal começara.
Horas pardas passadas como tantas horas às quais não damos atenção
e que fluem como brisa,
livres
ligeiras
profanas.
Os últimos minutos chegam e não os notamos. Eu não
percebi;
e apenas agora compreendo o quanto ainda não vejo.
Faltou-me a calma e a delicadeza
dos que reconhecem mais claramente o escorrer do tempo
por entre os dedos.
E os últimos minutos passaram despercebidos e velozes para serem lembrados,
por mim,
por todos os anos. Pela vida inteira.