domingo, 17 de janeiro de 2016

Doce


Doce

O doce de goiaba vermelho e denso borbulha na panela
e invade a cozinha com seu cheiro que conheço desde a infância.
Lembro-me de ti e do medo que tenho de que me fujam
as memórias sem mais poder te ver.
Tenho muito medo de te esquecer,
e esforço-me para me lembrar de cada detalhe de um rosto
que sempre esteve aqui.
Ele era meu também; ele era parte de mim.
E entre as lembranças, pequenas flores coloridas e miúdas aparecem,
tão pequenas que tenho que me debruçar sobre elas
para compreender toda a sua discreta beleza.
Minha passarinha, em minhas lembranças,
(tanto as antigas como as novas, as que invento agora)
estás sempre entre as flores como se elas sempre tivessem sido
a tua casa.
Agora, tu moras no jardim de casa e em todos os pequenos
vasos de plantas que cuido todos os dias.
Agora tu és flores coloridas,
folhas verdes e suaves,
és o cheiro de terra úmida que me invade.
No jardim de casa cresce, indiferente a tudo que se passou,
uma nova árvore;
cresce a tua goiabeira que um dia nos dará doces.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Bowie



Bowie


Eu estava séria e definitivamente decidida a escrever sobre o tal desmanche do Corinthians, meu time de futebol de coração e alma.  Tal absurdo ocorrido com o meu time foi uma verdadeira tragédia de início de ano para mim, apesar de todos os outros pesares. Apesar de haver coisas muito mais importantes na vida, de haver problemas mais sérios e reais. Eu sei! Mas, aos diabos, é do meu time que falamos. Sabes? O tal circo que aplaca os meus problemas, que alimenta as minhas ilusões, que me faz esquecer as porcarias com as quais temos que viver. Pois, isso é o Corinthians para mim, minha ilha da fantasia particular e, ver uma bomba atômica chinesa despedaçar meu paraíso foi agoniante.

Pois, estava. Estava porque tudo mudou com a morte de David Bowie. Como assim ele morreu? De quê? Por quê? De repente? Não, não foi tão de repente assim pelo que se sabe hoje e, pelo que eu sei hoje também, se eu fosse uma heroína dos quadrinhos, dessas que tentam salvar a humanidade todo santo dia, o meu arqui-inimigo oficial já teria sido eleito, o tal do danado do câncer. Eita mal que não tem fim este, não?! O Sr. David Bowie foi vencido pelo câncer e o meu Mundo, aquele que eu conheço desde que me conheço por gente, diminui mais uma vez.

Mais do que um músico, o Sr. Bowie era um personagem, uma persona mítica que não se classificava muito bem na categoria simples mortal e que, portanto, não deveria simplesmente morrer. Ele povoou com sua música, suas identidades, sua falta de pudores hipócritas e suas caras toda a minha vida. Para mim não havia mundo sem a música de David Bowie desde os anos 70 e eu me assustei com a notícia de sua partida como me assustei, há mais de trinta anos atrás, com a morte de Lennon. Como me assustou a perda de Elis e a partida de Jobim; como me assombrou o fim precoce de Renato Russo e Chico Science.

É verdade que muita gente boa está a surgir na música sempre, eu sei. Mas pessoas como David Bowie, John Lennon, Tom Jobim e Michael Jackson, entre outros, são únicos no que fizeram porque eles influenciaram o mundo da música e a nossa cultura para sempre. O mundo não é o mesmo depois da passagem deles, de maneira alguma. E neste quesito, no quesito trazer à tona novidades, no que tange à quebra de velhos paradigmas e da criação da próxima fase deste jogo, o Sr. Bowie foi mestre. O tempo tem lá as suas crueldades a devorar lenta e irremediavelmente a todos os homens; Chronos, o criador de lendas.


Na última sexta-feira, ouvi ao novo disco de David Bowie em seu dia de lançamento. Blackstar foi a trilha sonora do meu dia sem cerimônias e com muita curiosidade. Já havia visto o vídeo do primeiro single e queria ver o que mais o eterno mutante nos tinha dado.  E hoje, alguns dias depois, emociona-me profundamente reconhecer o esforço deste homem para produzir música e poesia até os seus últimos dias apesar de todos os pesares. Apesar da dor e da certeza de que o fim estava a esperá-lo na esquina. Mais que um mito da música, de agora em diante para mim, David Bowie será um homem a admirar para sempre.















domingo, 10 de janeiro de 2016

All we need is love






All We Need is Love

The Beatles


Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love

There's nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that can't be sung
Nothing you can say but you can learn how to play the game
It's easy

There's nothing you can make that can't be made
No one you can save that can't be saved
Nothing you can do but you can learn how to be you in time
It's easy

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need

Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need

There's nothing you can know that isn't known
Nothing you can see that isn't shown
No where you can be that isn't where you're meant to be
It's easy

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love
Love is all you need
Love is all you need
Love is all you need
Love is all you need
Love is all you need

Love is all you need


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

João (parte 2)


João

Parte 1
Assim que dobrou a esquina, João percebeu que havia algo de errado. Apesar de não conseguir distinguir o que lhe causava aquele estranhamento, ele sabia que alguma coisa estava fora do lugar. Mais do que um fato, um sentimento o atingiu e, por isso, ele diminui o passo na avenida cheia no centro da cidade.
Esquecera a carteira; talvez. Buscou-a na mochila cinza que ele carregava, displicente, no ombro direito. Não. Ele não tinha esquecido a carteira, nem o telefone, nem mesmo seu caderno de anotações. João gostava de escrever. Escrever era uma terapia e, papel e caneta estavam sempre à mão. Caderno azul e caneta preta.
O que era aquele sentimento então? Bobeira, pensou ele. Continuou seu caminho em direção ao trabalho na rádio e tudo lhe parecia normal. As pessoas caminhavam apressadas, os carros abarrotavam as ruas, fazia muito frio num dia cinza de inverno e a manhã passava rotineiramente. Chovera muito na noite anterior e ainda agora ele podia sentir a umidade nos ossos. Que dia gelado, pensou.
João já descia as escadas do Metrô quando ele se lembrou: Hoje é dia 27, é isso. Por onde andará a Ana? Há mais de um ano não nos falamos, e já se foram tantos anos depois daquele maio. Ana...
Um homem esbarra em João e lhe interrompe os pensamentos. João balança a cabeça jogando para fora as tais bobeiras e continua seu caminho. O dia será cheio e ele não acha qualquer razão para se lembrar de Ana. Esta é uma estória que já acabou há algum tempo; há um bom tempo. A vida é outra e há outras coisas a fazer, outras pessoas.
O trem chega à estação, lotado, e João suspira resignado. Não há o que fazer, ele precisa estar na rádio em meia hora. O homem se espreme entre tantas pessoas num pequeno espaço, encostado ao lado da porta no final do último vagão. A porta se fecha e o trem sai.
João olha distraído para frente e seus olhos se impressionam. Alguns metros à frente, sentada num banco a ler, está Ana. Os cabelos mais curtos, ela está menos magra, talvez; com um vestido de inverno que João nunca havia visto. Ana...



Parte 2
Ana significara tanto e tinha sido tão pouco no final de todas as contas. Mais sonho e desejo do que realidade, mais o querer de João do que alguém a quem ele queria realmente; profundamente. Ana tinha sido canções melosas em excesso; noites mal dormidas à espera de sinais de que ela ainda estava ali, com ele; ela era ter o coração acelerado muito para além do costumeiro num descompasso que o incomodava. João já não tinha certeza se amara Ana tão verdadeiramente ou se ela era apenas o seu desejo de que a vida fosse mais do que o cotidiano. Sua necessidade do poético e do fantástico.
A rotina agora era mais tranquila e melhor, a vida mais segura e sensata tão cheia de sentido comum. Pensou o rapaz. Sim, a vida estava melhor para ele. Não havia mais os disparates daquele amor sublime, de um sentimento maior e inexplicável, da paixão. Para que serviam as paixões afinal; para nada. Apenas para que a gente perca a razão e não controle mais o que sente e o que pensa. Pensamento fica turvado com tanta emoção, a voz embarga e os olhos enchem d’água. “Para quê?” Resmungou, para si mesmo, o João escondendo seu rosto atrás de outros rostos para não poder ser visto por ela.
Melhor assim. Melhor o amor tranquilo que não nos ameaça e que quando acaba não deixa grandes marcas. Aquele que como começou termina; aquele que simplesmente passa. Agora João era dono de sua vida e de seu nariz sem assombros. Agora ele tinha uma vida tranquila e era isso que ele queria: a tranquilidade dos dias organizados, padronizados e dentro do seu controle total.
João se escondeu porque sabia que era aquilo que ele deveria fazer; o que qualquer um de bom senso faria. Ele estava bem. Bem, mas incomodado com algo, João permaneceu escondido das vistas do mundo no final do vagão do metrô por algumas estações. Ele não compreendia muito bem o que o incomodava tanto. O medo de falar com Ana talvez. Talvez esse seja o mesmo medo que o congelou tantas e tantas vezes, aquilo que o impediu de arriscar-se e dizer, sem censura, tudo o que se passava dentro dele. Sentir demais o assustava. A vida não era assim e na verdade todos nós sabemos que estes amores eternos, que estes sentimentos rasgados acontecem apenas nos filmes e em livros baratos. Um homem e uma mulher não ficarão jamais juntos para sempre por amor. Para isso existem contratos firmados ou não em cartório, mas ainda assim contratos. Acordos para um bom viver pacato.
Ana fechou seu livro e saiu do metrô, a duas estações do destino do rapaz, sem se aperceber que João estava no fundo do vagão. Ela estava linda. Pensou João. Continuava linda aos olhos dele como sempre. Ana era perfeita demais para ele, era tudo o que ele sempre quis e, como tudo que é perfeito demais, ela não podia ser real. Ana era uma farsa.
Alguns minutos depois, mudo e tão frio como o dia, João saiu do fundo do vagão do metrô e ganhou a rua. O dia estava cinza e voltara a chover, caia aquela chuva fina e gelada dos dias de inverno que parecem não ter fim. João acendeu um cigarro para espantar todo o frio e apertou o passo para o trabalho como se o tempo fosse urgente demais. João fumava a sufocar, como tantas vezes antes, as suas lágrimas. João caminhava.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Lembranças



Lembranças

Com o passar dos anos gigantescas colunas
de memórias rodeiam  a casa
e ocupam todos os espaços da sala de estar.
Estão lá há tanto tempo e se misturam,
se confundem, os fatos e os desejos;
os sonhos e aquilo que um dia tornou-se real.
Já não é tão simples aos olhos perceber
o que foi apenas sonho,
pois os anos, as décadas,  combinam lembranças e esquecimentos
do mesmo jeito.
Eu me engano, reescrevo linhas de uma estória conhecida;
lida e repetida à exaustão.
Eu não me lembro das exatas palavras ditas
e do que significou aquele almoço quando foi impossível
engolir com tantos sentimentos
presos.
Ele realmente aconteceu ou foi apenas a minha vontade
gritando mais alto do que eu?
O que é real se tudo deixa de o ser com o passar do tempo?
Momentos perdidos,
mentiras consolidadas,
verdades perdidas,
e certezas efêmeras feitas de fumaça
compõem as desestruturadas colunas de minhas memórias
deixando apenas uma certeza:
sou uma farsa.