domingo, 20 de julho de 2014

Doce




O sal era doce,
pois que o doce em seu interior sempre houve.
Bastava percebê-lo.
Bastava fazer o que deveria ser feito para o ver,
para sentir o mais doce que o sal pode ser.
Bastava fechar os olhos, cerrá-los, e saber.
Saber os sorrisos, e ouvir.
Ouvir do coração que sussurra o apressado compasso
de  um homem menino e seu mundo comum e,
divinamente,
particular.
Um mundo que é tão real do lado de lá
quanto o é do lado de cá.
Mundo imaginado e construído de sons,
lindos sonidos cheios de monstros, santos e fadas.
Sons mundanos e sagrados, o mais real no mundo do homem menino,
são o segredo d’alma,  da alma dele,
da alma minha.
Basta fechar os olhos para ver,
para saber: o sal é doce.





Há par mais certo nesta vida que o músico e a bailarina?
Ao menino que trouxe música para minha vida,
feliz aniversário.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Asesinos!

El País (Juan Gómez desde Gaza)

…A las cuatro de la tarde, Israel mató a cuatro niños palestinos e hirió a otros tres en un bombardeo en un muelle de la playa de Gaza que ya había sido objeto de ataques previos de aviación durante la semana pasada.

Tras bombardear un contenedor en dicho muelle, próximo a la playa del hotel Al Deira —frecuentado por la prensa internacional—, el Ejército de Israel tiró contra un grupo de niños que escapaba corriendo por la playa de la primera explosión. Murieron Mohammed Baker, de nueve años, junto a Ahed y Zakareya Baker, ambos de diez, y su primo Mohammed Baker, de once.


Hamad Baker, de trece años, que logró salvarse, contaba dos horas más tarde en el hospital Al Shifa que él, su hermano y sus primos escapaban “a toda velocidad” de la primera explosión cuando el segundo proyectil impactó en mitad del grupo de niños. Según tres testigos sin relación entre sí, ya estaban a unos 200 metros del lugar del primer impacto cuando les alcanzó de lleno la segunda explosión. Su madre, Taghrid, sentada junto a su cama de enfermo, se preguntaba “cómo los palestinos no van a clamar venganza ante estos crímenes” de Israel. “Lo único” que está logrando Israel, dijo con énfasis, “es fortalecer a Hamás y a la resistencia” para que “defiendan a la gente”. Mientras un grupo de periodistas atendía al pequeño Hamad en la terraza del Al Deira, su hermano menor Yunis lloraba en cuclillas junto a su cabeza. Su madre contaba después que siguió llorando mucho tiempo después en casa.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

justo




É justo, é justo, é justo
é justo
é justo
é justo
e não se entende como justo o que é profundamente justo
tão injusto pode ser
é justo, justo, justo, justo
é justo
mas como pode em algo tão justo
justo tanta injustiça haver
é justo.

sábado, 12 de julho de 2014

Os Sete





No dia 5 de Julho de 1982 eu me encontrava inconsolável sem saber o que havia passado e qual seria a explicação para os 3 a 2 da Itália contra nós. Aquele foi o último jogo da primeira Copa do Mundo da qual tenho recordação, e ainda me lembro de como me senti depois de uma derrota inacreditável para mim.

Nunca mais, mesmo com a pouca idade de então, esqueci-me da terrível falha de Toninho Cerezo que ajudou nesta derrota e durante muitos anos não o perdoei. Para a menina que eu era, o volante da minha imbatível seleção foi, sem qualquer sombra de dúvida, o grande culpado por algo que não poderia jamais ter acontecido. Afinal, a minha seleção perfeita de Sócrates e Zico não deveria perder para ninguém, e eu chorei naquele dia pela decepção da inexplicável derrota injusta e cruel.

No último dia 8 de Julho não houve lágrimas minhas, pois a derrota desta vez foi de outra monta: contraditoriamente compreensível, apesar de inexplicável e vergonhosa, para quem entende um pouco do pouco profissional e parcamente sério futebol que temos atualmente por aqui. Andamos há tempos a assistir campeonatos nacionais com jogos medíocres porque desperdiçamos muitos de nossos talentos, e porque não temos competência para competir com os verdadeiros mercados da bola e perdemos os nossos craques ainda nas fraldas para a Europa e seus vizinhos.

Sem identidade, sem um bom futebol praticado em casa, a grande maioria já assistia, desde o princípio, aos jogos da seleção com certo pé-atrás. Vencer a Copa seria mais uma questão de sorte que de competência, porém, até poderia acontecer. Entretanto, mesmo com a falta de organização e seriedade com as quais temos levado o nosso futebol, os piedosos 7 a 1 da equipe alemã contra a Canarinha são mesmo uma surra difícil de imaginar até em sonho. E lá no futuro, seguramente, serão estes 7 gols alemães tudo o que lembraremos do nosso desempenho na Copa no Brasil.

Hoje, agora enquanto escrevo, perdemos de 2 a 0 para a Holanda na disputa de um terceiro lugar que não interessa a quase ninguém. Não está nada fácil a nossa vida, não mesmo! E espero que tantos gols tomados nesse campeonato sirvam para começarmos a refletir na forma como as coisas são levadas aqui no país que já foi “o país do futebol”.


Eu, que agora entendo muito mais do que entendia da vida em 1982, não consegui chorar nossa derrota mais do que anunciada. Doeu-me, isso sim, ver aos meninos e meninas de 2014 chorando copiosamente em campo enquanto viam, um após o outro, 7 gols sendo marcados contra a seleção perfeita deles. E, diante disso, chego quase a agradecer a Deus pelos 3  gols de Paolo Rossi. 


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Carrossel


Preso o cavalo de madeira roda feito pião no mesmo lugar

escravo d’um movimento que o traga; seu vício.

Ele quer fugir...

                            ... Ele deve fugir...

... Ele não pode fugir...

               ... Ele não quer fugir.

Pernas presas por sua própria vontade alheia às dores

que sua linda jaula sem grades provoca-lhe.

A ideia de fugir dali arranca-lhe os cascos a sangue frio,

e o ficar dilacera o seu peito de cavalo encantado pela melodia do Carrossel.

Por sua alma de madeira faltam-lhe as lágrimas;

vida que aos olhos dos outros está morta.

E toda a gente ignora que o calado cavalo que roda

calado sofre.




terça-feira, 1 de julho de 2014

Desejo de Menina



Minha mãe conta que quando criança eu afirmava, cheia da confiança e da tranquilidade tão comuns aos piamente crentes em suas capacidades, que quando eu crescesse seria uma cientista. Não que eu amasse as ciências, nunca me interessei muito por elas. A verdade é que esta era a maneira mais prática por mim imaginada para resolver o maior dos problemas, a única coisa que poderia me assombrar. Eu seria cientista, e como tal inventaria uma pílula que não deixaria ninguém morrer. Assim, sem motivos para medos, resolvia-se feito passe de mágica o maior dos medos de toda criança por mim – a morte de dos pais.

Os medos de criança passam, e isso dá-nos pena quando somos adultos porque então também somem as mágicas soluções. Os meus medos incluíam uma eminente guerra atômica, a perda dos meus pais e a possibilidade de um dia topar de frente com um urso ou um leão (apesar de saber que leões e ursos em São Paulo eram vistos apenas no zoológico. Vai entender?!). Por motivos que desconheço, talvez por uma criação cheia de amor e liberdade para brincar ou porque sempre foi característica minha sentir-me segura e certa sobre tudo que penso, (defeito e/ou qualidade que persiste até os dias de hoje), para todas estas mazelas havia uma solução por mim pensada e repensada, tida como certa e infalível. E sem mais nem menos, eu cresci tranquila e feliz.

Depois, durante um bom tempo da vida não há muito tempo para medos. Chega a adolescência e há tanto a sentir, a descobrir; tanto a fazer que não nos sobra tempo para pensarmos muito nos outros. E pela vida vamos esquecendo um pouco de nossos pais, esquecemos a família, esquecemos os medos e queremos simples e unicamente viver tudo. Somos os malandros que sabem de tudo e querem tudo. Tudo e muito mais.

Pois, não é que Deus, o mais sábio dos malandros, fez o Mundo redondo em tom de ironia e de propósito. E por sua redondeza não há como evitar: o Mundo dá voltas e nós nele somos levados, meio que por acaso e um pouco a contra gosto, para o ponto de partida.

E nesse ponto da vida, no momento em que vemos tudo o que passou de frente, entendemos que a infância não está tão distante de nós como parecia. De repente, não mais do que de repente como nos ensina o poeta, queremos mesmo é ser criança e poder voltar pra casa dos pais. Queremos ter colo todo santo dia, ver a mãe da gente a preparar-nos o café da manhã e o pai, dono de toda a autoridade do Mundo, a dizer-nos não. “Não porque não e ponto final.”, assim o meu pai dizia em alto e bom tom.

Pois 2, eu, por aqui, ando com uma saudade avassaladora das minhas soluções e certezas de menina porque o tempo passou, e porque hoje eu sei que não há pílula no mundo que evite a morte. Não há como para-la. E sinto pena, pena de mim, de todos nós que não temos mais as mágicas soluções de meninos e meninas à mão. Agora, menos do que na infância, e muito menos ainda do que na adolescia sinto-me pronta para a perda de meus pais, dos velhos tios, de alguns amigos. Por estes dias o que eu mais queria era poder ser cientista mais uma vez, uma cientista capaz de inventar tudo o que o coração mandar.